Verde. Amarelo. Azul. Branco. Era domingo, não tinha jogo da seleção, mas as bandeiras do Brasil tomaram a cidade. Gabriela desceu do Uber depois de um almoço com cerveja num bar meio intelectual, meio de esquerda e viu uma delas na janela do apê em cima do seu. Segundos depois, entrou no prédio, disse oi para o Amarildo e esperou o elevador subir do menos um. Quando a porta se abriu, viu lá dentro um cara mais ou menos da sua idade, vestindo uma camiseta da Seleção Brasileira e carregando duas sacolas de supermercado. Simpático, ele se apresentou: Prazer, Gabriel. Acabei de me mudar para o 141. Ela, um pouco bêbada e nada simpática: Prazer, Gabriela. Aperta o treze, por favor.

Gabriel entrou em casa e deixou a TV ligada para ouvir a Globo News enquanto colocava as cervejas para gelar. Saiu mais cedo da manifestação porque ia receber os amigos pela primeira vez no apê novo. Estava feliz pra caralho. O seu bar preferido, o melhor hambúrguer, uma casa de noodle, a sorveteria hipster e uma estação de Metrô estavam a quatro quarteirões de distância. Uma hora depois, mais ou menos, os moleques chegaram no pré open house. Primeiro o Daniel, depois o Diego e o Rapha, que pediu a senha do wi-fi antes de abrir a primeira cerveja. Hahaha! Olha esse vizinho petralha. Gabriel pega o celular da mão do amigo e vê, entre a Dlink–aa8 e jujuba_net, uma rede chamada #ficaDilma <3.

Gabriela votou na Dilma, mas só no segundo turno. Era Dilma ou o Aécio, para ela não tinha muita escolha. Mas nos últimos meses, ela involuntariamente virou uma petista. Porque hoje é assim: se você é a favor do impeachment é coxinha, se for contra é petista. E ela era contra, muito contra. Ela odiava ver o processo sendo conduzido por políticos ficha suja, ver a mídia trabalhando para derrubar a presidenta, ver a camisa da seleção, com o logo de umas das instituições mais corruptas do mundo, virar símbolo desse levante popular a favor do impeachment. E mais que isso, odiava ver a jovem democracia brasileira, conquistada com tanto suor e sangue, ir pelo ralo. Quando viu Gabriel no elevador em verde e amarelo, depositou nele toda a raiva do que estava acontecendo e resolveu fazer um pequeno e anônimo protesto: mudou o nome do seu wi-fi.

Diego abriu uma cerveja e perguntou: Gabriel, já viu se tem vizinha gostosa? Só uma. Mas tem cara de petralha. E com a TV ligada, Gabriel e seus amigos falaram sobre a alta do dólar, a inflação, a estagnação da economia, a operação lava-jato, a corrupção sistêmica, a necessidade de mudança e das pedaladas fiscais. Se sentia lesado pela gestão irresponsável de Dilma Rousseff, pela incompetência que ela conduziu o país nesses quase seis anos de governo e pelo crime de responsabilidade fiscal, que ela cometeu na tentativa encobrir a sua incompetência. Mas também falaram da Gabriela. Nos doze andares até o seu apê, Gabriel olhou e admirou a vizinha. Ela devia ter mais ou menos a sua idade, cabelo cacheado, um rosto lindo. Usava uma regata branca com estampa de abacaxi e um shortinho jeans que favorecia sua bunda. E que bunda. Quando viu o wi-fi #ficaDilma <3, imaginou que fosse da vizinha petista que conheceu no elevador. Do jeito que ela falou com ele, provavelmente por causa da sua camisa da CBF, ela devia ser petista. E depois que os meninos foram embora, entrou no roteador e copiou a ideia dela.

Gabriela demorou uns dois dias para ver o #foraDilma no wi-fi vizinho. Entendeu a provocação, sem saber exatamente de quem, e resolveu responder o desconhecido vizinho de direita. Trocou o nome do wi-fi para DILMA GUERREIRA DA RAÇA BRASILEIRA!. Assim, em caixa alta. No mesmo dia, o ex-presidente Lula foi chamado para depor na Lava Jato e a direita ganhou um novo herói, que foi parar na capa da Veja, em camiseta Sérgio K e no wi-fi do Gabriel. No dia seguinte, ela acordou, pegou o celular e viu sorrindo o Je suis Moro que ele colocou. Ela respondeu mudando sua rede para Lula Ladrão Roubou Meu Coração.

E o Fla-Flu político que dividia o país também estava acontecendo naquele prédio, entre os moradores do 14º e do 13º andar. Ela passou a vestir vermelho todos os dias. Às vezes era a saia, às vezes era a blusa. Às vezes, a saia e a blusa. Ele, que nunca acreditou no panelaço, bateu panela. E de janela aberta. Gabriel e Gabriela tinham horários diferentes, nunca mais se viram depois daquele domingo. Ela acordava cedo e ia de carro para o trabalho. Ele acordava tarde e ia de metrô. Ela usava a academia de prédio, todos os dias, das nove às dez. Ele estava há quase dois meses no apê e nem sabia que o prédio tinha academia. As provocações políticas, que eles nem sabiam se estavam sendo recebidas, continuavam acontecendo a cada novo episódio do cenário político. Quando Moro vazou os grampos telefônicos, o Wi-Fi dele virou o Tchau, querida. No dia da votação na câmera, ele mudou para Pelo fim da corrupção, eu voto sim. E depois daquela matéria da Vejinha, os dois usaram o mesmo nome no Wi-Fi: Bela, recatada e do lar. O dela era ironia. O dele também.

E continuaram sem se ver até a quarta-feira que entrou para a história como o dia em que o Senado julgaria o afastamento da Presidenta Dilma. Gabriela começou sua manhã mudando colocando no seu Wi-Fi um novo otimista: Não vai ter golpe, vai ter luta!. Passou o dia lendo sobre o que aconteceria caso Dilma fosse afastada e Temer assumisse a presidência. Se sentia triste pelo impeachment, impotente e percebeu que tudo que podia fazer naquele momento era torcer. Chamou a Ana e a Camila para passar num bar perto de casa e beber alguma coisa. Bem melhor que ficar em frente a TV e correr o risco de ver de novo algo parecido com aquele show de horrores que foi a votação na Câmara. Sempre começava sua noite, nesse bar, bebendo um mojito diferente, feito com capim santo, gengibre e coentro. Garçom, me faz um San Mojito? Enquanto o barman preparava seu drink, ela viu — e fingiu que não viu — Gabriel encostado num carro estacionado na frente do bar. Ele estava com três amigos, conversando, falando alto, rindo, sorrindo. O mesmo nome, o mesmo bar e o mesmo drink. Daria uma mordida nesse vizinho coxinha.

Ele já frequentava esse bar antes de mudar para o bairro. Mas até aquela quarta-feira, nunca tinha visto Gabriela por lá. E ela estava linda sentada nas escadas, com o mesmo drink que ele na mão. Não sabia nada da vizinha, mas já construiu um monte de coisas sobre ela na sua cabeça. Ela deve ser petista, de humanas e tem um gato. Ou dois. Talvez três. Certeza que ela tem gato. Ficou conversando com os amigos sem tirar os olhos dela e nem ouviu quando o Diego falou que estava namorando, ou o Rapha falando sobre as férias na Califórnia, sobre os planos do Daniel em abrir uma hamburgueria com o Bruno. E nesse tempo todo, ela não olhou de volta nenhuma vez. Ela conversava com as amigas, falando alto, rindo, sorrido. Gabriel nunca quis tanto ser assunto.

Depois de algum tempo de olhares desencontrados, Gabriel e Gabriela se encontraram, sem querer, no balcão. Ele olhou a votação no Senado na tela do celular enquanto esperava o seu terceiro San Mojito da noite ficar pronto. Ela viu o vizinho e começou a conversa. Quase não te reconheci sem a camisa da Seleção. Gabriel certo? Ele riu. Isso, Gabriela. Ela olhou para a tela do celular e continuou falando. Tá feliz? O golpe está acontecendo. Impeachment não é golpe. E tô tão puto com a situação do Brasil quanto você. A diferença é que eu prefiro a mudança. Ele. Você acha que Temer na presidência significa mudança? Ela. Ele também tem que cair. A Dilma, o Temer e todo mundo que aprontar. Ele. Crime é crime. Gabriel não gostava do Temer, nem do Cunha, nem do Bolsonaro. Não odiava o Jean Willis e, como ela, também vibrou com aquele cuspe. Acreditava que saída da Dilma era o início da limpeza e que alguém precisava, para ontem, resolver a bagunça que ela aprontou. Ele não era rico, não defendia a meritocracia e não era contra os programas sociais, mas acreditava que eles deveriam ser implementadas com responsabilidade. Coisa que a Dilma não fez. Depois de um tempo conversando, ela não só descobriu que o vizinho não era igual todo coxinha, mas também descobriu que nem todo coxinha é igual.

O drink dele saiu primeiro, mas aquela conversa no balcão estava boa demais para ela ir embora. E assim, do nada, ele fez a pergunta que estava segurando desde o início da noite. Me diz uma coisa: é você que está mudando o nome do wi-fi? Ela não falou nada, a risada falou por ela. E ele adorou saber disso, porque aquela brincadeira revelava muito mais do que as posições políticas da Gabriela. Além de gata, ela era engraçada. A conversa ganhou novos personagens. Saíram a Dilma, a Lula, o Cunha, o Temer e o Moro. Entraram o filme novos dos Irmãos Cohen, o disco novo da Céu, a segunda temporada de Chef’s Table, aquele bloco de carnaval que só toca Caetano. Ela descobriu que por trás daquela camisa da Seleção, existia alguém muito parecido com ela. Esqueceram os amigos num canto e ficaram ali, sozinhos, conversando como se conhecessem há anos e aquela quarta-feira deixou de ser o dia em que o Senado julgou o afastamento da Presidenta Dilma e passou a ser o dia em que Gabriel conheceu Gabriela.

Mas para o Gabriel, seria o dia em que ele beijou a Gabriela. Ela estava lá, sorrindo, rindo, tocando. Estava fácil, pensou. Um pouco antes de meia noite, ela levou o canudo à boca e bebeu o restinho do San Mojito que estava no copo sem tirar os olhos dele. O bar estava lotado e tudo que ele conseguia prestar atenção era no barulhinho do líquido subindo pelo canudo e aqueles olhos dizendo “me beija, porra”? E quando ela deixou o copo vazio num canto do balcão, ele decidiu chegar nela. E chegar sem falar nada. Já tinham conversado a noite inteira. Ela era legal. Ele era legal. Não tinha o que falar, só sentir. Olhou nos olhos dela e levou sua boca em direção à dela. O que você está fazendo?, ela disse. Eu não vou beijar você, continuou. Gabriel ficou confuso e sentiu mais uma meia dúzia de coisas que passam pela cabeça de todo mundo quando percebe que um sim acabou de virar um não. Ela estava lá, sorrindo, rindo, tocando e não estava na dele. Seus olhos dizendo uma coisa, sua boca dizendo outra. No fim das contas, para ele era só incoerência que saía dela. Aceitou sua derrota.

Gabriela não saiu de casa, naquela quarta-feira, para beijar na boca. Saiu para ver as meninas, para beber um drink de leve, esquecer do impeachement. Sim, ela curtiu Gabriel, ele era gato e ela se divertiu conversando com ele. Mas não, ela não ia ficar com ele. Para ela, as opiniões políticas dele eram um turn-off. E mesmo ele não sendo um coxinha qualquer, ainda era um coxinha. Ela queria muito ficar com ele, mas queria não querer. Não suportava a ideia de ser incoerente e para beijar Gabriel, ela precisava de um pouco mais de preparo mental. Levaria um tempo para convencer ela mesmo. Eu não vou beijar você, ela disse. Não hoje, continuou. Aproveitou a tentativa frustada do beijo para voltar a realidade e olhou ao redor. Viu que as amigas já tinham ido e aproveitou para se despedir. Vai embora sem me dar um beijo?, Gabriel falou. Ela beijou seu rosto e falou: Ahã. Mas vou te dar meu telefone. Serve? Digitou o número no celular dele e voltou caminhando para casa. Uns dois quarteirões depois, já deitada na cama, lembrou que tinha saído de casa para esquecer do impeachment. Voltou querendo beijar um golpista.

O sono de Gabriela não durou muito aquela noite. Algumas horas depois, ela acordou antes do despertador. Olhou no relógio, eram 6h38 da manhã e ela não fazia a menor ideia do por que aqueles filhos da puta estavam buzinando e soltando fogos a essa hora. Depois de uns segundos perdida na cama, pegou o celular e viu que cinco minutos antes, o Senado Federal votou pela admissibilidade do processo de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. A sessão durou vinte horas e trinta e três minutos e seus vizinhos estavam comemorando o impeachment. Oitenta e um senadores, setenta e oito presentes, cinquenta e cinco a favor, vinte e dois contra, cinco indecisos. Teve golpe. Mais uma partida do Fla-Flu da política chegou ao fim e ela torcia para o time perdedor. Queria conversar com alguém, falar sobre o que estava sentindo, encontrar um culpado para o que aconteceu na madrugada e lembrou do vizinho do andar de cima. Não encontrou seu nome na agenda e lembrou que foi ele quem pegou o número dela. Antes das sete, ela já experimentava a segunda frustração do dia. Pensou que se ela tinha acordado com o barulho da rua, Gabriel também estaria acordado. Vestiu um casaquinho qualquer, subiu correndo as escadas e tocou a campainha do 141. Uma, duas, três vezes. Na quarta, lembrou que não fazia a menor ideia se ele dividia o apê com algum amigo. Gabriel levou uns dois minutos para abrir a porta, muito mais tempo do que ela gostaria. E ela, quando viu o vizinho com uma cara de sono, esqueceu por que bateu na sua porta e, num impulso, fez a primeira coisa que passou pela cabeça: deu nele o beijo que ficou devendo na noite anterior. Não era o que ela esperava de um primeiro beijo, não tinha escovado os dentes, estava praticamente de pijamas no corredor do prédio. Mas foi um beijo incrível, que a fez ficar com raiva por ter esperado algumas horas por ele. Quando terminam de se beijar, ela, sem graça, falou quase sem voz: Teve golpe. Virou as costas e foi embora. Gabriel, sem fazer a menor ideia do que tinha acabado de acontecer, só conseguia pensar numa coisa enquanto olhava ela caminhar pelo corredor em direção às escadas. Que bunda é essa, Gabriela?