Olá, André. Tudo bem?
Jéssica Caroline
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Olha, Jéssica, você escreve muito bem. Parabéns.

Eu simpatizo com sua defesa apaixonada da sua profissão. De verdade.

Trabalhei por muitos anos como formador de educadores. Tanto na graduação (Pedagogia), quanto no Pós (Psicopedagogia, Educação Infantil).

Tinha alunas como você.

Agora, tem uns enganos aí, Jéssica.

O primeiro deles é achar que o texto trata de ideias minhas. Pede que eu repense.

Não são ideias minhas. Só fiz uma compilação de quadrinhos de outros artistas e comentei com base em críticas conhecidas . Portanto, não tenho como repensá-las.

Na verdade, essas críticas — todas elas — são bem reconhecidas e estabelecidas. Basta ler Foucault, Althusser, Paulo Freire, Ivan Illich, Decroly, Freinet, Montessori, Dewey, Rousseau, Summerhill, Rogers, Maria Helena Souza Patto, Rosely Sayão, Mario Sergio Cortella, José Pacheco, Tião Rocha, Cecília Meireles, Rubem Alves, Ruy Canário, John Holt, José Martins Filho… e tantos outros que estou esquecendo. Enfim, a lista é gigantesca!

E, olha, existe um forte consenso quanto à natureza industrial da Escola e seu impacto iatrogênico sobre a subjetividade do ser humano.

As crianças e os adultos estão sofrendo a ponto de adoecerem e precisarem ser medicados para tolerar a realidade escolar. O que não é teoria; é fato.

Você não sabia disso?

Eu primeiro entrei em contato com essas ideias quando fiz Licenciatura na Faculdade de Educação da USP, mais ou menos em 1995.

Então fico surpreso de você, sendo professora de História, aparentemente desconhecer essa tradição crítica tão bem estabelecida no campo das Ciências Humanas.

Não estudou a passagem da formação em corporações de ofícios, pela relação entre mestre e aprendiz durante a Idade Média, para a criação de escolas à imagem e semelhança das Fábricas, a partir da Revolução Industrial?

Outro equívoco é que você levou a coisa na pessoal. Sentiu-se criticada por ideias que não desmerecem, em nada, o trabalho que você faz.

Veja, eu acredito que os professores são (quase) tão vítimas do sistema quanto os alunos.

Aí é uma questão de interpretação de texto, Jéssica: você precisa diferenciar o que é uma crítica a um modelo de educação do que seria uma crítica a uma modalidade de atuação profissional.

Os professores — o que inclui você, seus colegas e eu mesmo — são apenas engrenagens. Meu texto não critica uma engrenagem, mas a máquina. Percebe?

Outro equívoco que salta aos olhos é tomar por universal o que é sua experiência pessoal.

Olha, eu não duvido que sua escola seja uma ilha de excelência, como você afirma. Que ótimo! Continuem, você e seus colegas, fazendo exatamente o que fazem. Vocês são muito necessários.

Mas, como me parece o óbvio ululante, sua experiência está muito mais pra exceção do que para regra.

Observe quantas pessoas curtiram e compartilharam o texto. Mais de 300K visualizações e mais de 3K recomendações — contando a publicação no LinkedIn.

Você leu os comentários? São dezenas de relatos de pessoas que se sentiram humilhadas e massacradas ao longo do período escolar. E que se sentiram aliviadas por verem sua experiência tão bem retratada.

Você chegou a ler as respostas das outras pessoas?

Como desconsiderar tudo isso? Como você explica — estão todas mentindo?

Outro engano é que você supõe que eu afirmei todos esses absurdos porque tenho experiência teórica, mas não prática. Que eu não sei o que acontece de fato nas escolas.

Jéssica, comecei a dar aulas há 20 anos. Passei por diferentes escolas e faculdades. É um bocado a mais de experiência que você, que começou a menos de dois anos, não?

Bom, páro por aqui, Jéssica. Espero que não veja minha resposta como um ataque pessoal.

É, porém, um convite para parar, pensar, estudar — antes de espernear. Sobretudo quando alguma coisa mexe tanto com a gente quanto meu texto mexeu com você.

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