Rascunhos manchados de café

Eram 15:21 da tarde e o café frio em cima da mesa tremia com a vibração dos dedos rápidos que digitavam sem parar.

O relatório era para ser entregue as 15:30 em ponto e as mãos já eram mais velozes e mecânicas que a mente. Era um processo automático para um relato que deveria ser analítico. Enfim, era o que precisavam; a encomenda estaria entregue no horário.

No último minuto, como num espasmo de ansiedade pelo término do pequeno projeto, a mão esquerda avança sobre a xícara de café e temos um pequeno acidente. Derramo o líquido esquecido sobre algumas folhas de rascunho ao lado com uns rabiscos que sempre fazia sobre coisas que refletia.

O projeto não tinha sido prejudicado — não aquele automático que foi entregue nas mãos do gerente as 15:30. Mas, depois de livre do automatismo do trabalho, pude ver as manchas no rascunho.

Eram planos de liberdade, brinco.

Na verdade rabiscava sobre coisas que gostaria de começar e sempre adiava devido aos compromissos do emprego que pagava as minhas contas.
 Coisas bobas: iniciar um curso de meditação, começar um trabalho voluntário, fazer programas diferentes com os filhos, montar o plano de negócios da pequena empresa (dos meus sonhos) que gostaria de abrir,… Agora tudo estava em um tom de marrom translúcido, manchado pelo sabor que não aproveitei.

Porém, o relatório ficou impecável, pelo menos a meu ver. Estava limpo, organizado, bonito, coerente, bem escrito,… parecia perfeito e apesar de sentir um orgulho vitorioso, um vazio incomodava. Era como se todo o trabalho carecesse de alma. Foi um robô quem escreveu.

Absorto em meus pensamentos torturantes, fui interrompido, as 15:48, pelo alarme do ramal telefônico de minha mesa; o gerente solicitava a minha presença.

Fui recebido com um sorriso que só se via na boca e um aperto de mão mais frio que aquele café.

– Parabéns, bom trabalho. O relatório estava muito bom! Agora precisamos…

Um novo relatório estava no horizonte. Este era mais completo e talvez exigisse o trabalho no sábado. Sem problemas, eu estava acostumado com isso.

Voltei o vídeo do pensamento e reproduzi em câmera lenta: ‘Eu estava acostumado com isso’.

A ideia bateu como um soco no estômago e o vazio só aumentava. Eu estava meio zonzo! Vieram flashes na cabeça de uma vida que eu não tinha. Eu me via de cima correndo na grama e com um sorriso contrário ao que o gerente me ofereceu — vinha de dentro.
 Eu experimentava uma sensação de bem-estar. Era uma liberdade feliz, parecia uma propaganda de TV e… o telefone toca novamente e fui acordado do transe.

O gerente me lembrava de umas premissas financeiras que o relatório deveria conter — eu estava de volta a realidade.

Sem pensar, para adiantar o trabalho comecei a analisar os gráficos do relatório anterior e as mãos rápidas começaram o novo projeto. Eu era bom nisso; uma máquina! (quase literalmente).

Estava novamente em um transe, inconsciente, dentro do meu próprio cotidiano. Continuava, portanto, prisioneiro de minhas escolhas. Eu não era o autor, era o refém.

E os sonhos no rascunho, manchados de café.

→ texto originalmente publicado em ideiasja.com.br