Cinza concreto
Vão-se embora sob o sol fanho de um farol na rua
Dias verdes de úmida chuva e calor corriqueiro
Abraçam-me com paz no ar fresco dias de cinza
Clarão dísfone que me sente em um verso de Dante
Na escuridão do cinza viver de inverno
Foi-se embora o sol e calor da estação fria
Para me beijar um frio de primavera cinza de chuva verde
Amarela das flores que brilham o ouro prometido
Mas, e não diria com surpresa, não vejo resplandecer
O céu estrelado, esse na verdade já se foi,
Não há mais azul nos rios daqui, assim como no céu
Não há mais aves que gorjeiam e sequer palmeiras
Tudo é o cinza mórbido da primavera
Fria como o quente inverno, fria como o cinza
Dos prédios e da luz na rua, não à luz da lua
Fria como a morte em que se constrói a cena
Talvez seja melhor fugir pra explosão exata
Talvez seja melhor chorar pra molhar o chão
Mas, exceto por embaixo das árvores poucas
Transformadas em tocos pela serra cinza primavera
Exceto pelas praças inundadas de plástico
Exceto por onde deitam os mendigos na chuva fria
Exceto por onde ando, na paz cinza do céu, somente do céu
Reina o concreto e não se pode chorar o chão úmido.
[s.d.]