insanidade
[verbete para o Glossário de conhecimentos inúteis]
Algumas coisas são de difícil descrição. A exemplo — e talvez o melhor exemplo: o dia 6 de setembro de 2018. Datas são particularmente memoráveis por diferentes motivos. Essa, no meu imaginário pessoal, cristalizou-se como a mais peculiar de todas, a que melhor descreve insanidade. Devo abrir parêntese dizendo que não se trata, exclusivamente, de insanidade nas minhas ações, mas também no contexto diário. Não poucas horas antes da meia-noite que determina o começo oficial do dia, um senhor, autointitulado presidente da República (ênfase no autointitulado) decide, por forças maiores do que atinge a corriqueira e plebeia compreensão do autor, incitar o caos na política nacional ao criticar, abertamente, em rede social, um dos candidatos ao próximo mandato — o mais próximo de seu governo, ouso dizer (vide meter o louco [verbete inexistente, a ser escrito para o Glossário]).
De fato, o contexto já é de difícil concorrência. Acordei atrasado, cheguei atrasado no trabalho. É um dia peculiar. Trabalho como revisor e, por alguma razão do destino (ou seja lá o que for), meus últimos trabalhos vinham sendo traduções de textos incrível e aleatoriamente interessantes: um teatro peruano dos mil novecentos e sessentas (nota: segundo livro sobre 1000 erros comuns do português, publicado sabe lá deus quando, a grafia correta para as décadas, os “anos”, é com o plural marcado. Peculiar.), e, mais recentemente, uma tradução de um texto publicado por J. S. Bach, reclamando dos cantores e instrumentistas de Leipzig. Até aí, tudo bem. Mas, como o dia tem que ser marcadamente peculiar para poder simplesmente compreender um verbete, deve-se notar que os ocorreres (desculpem o neologismo forçado) ultrapassam o normal da aleatoriedade da vida humana, da minha vida humana.
- Talvez nunca tenhamos sido humanos. Talvez a humanidade seja apenas uma razão-de-ser da consciência pessoal, imbuída de vontades falsas: a humanidade.
2. O que é a vida? Talvez a maior das questões humanas (vide 1). Talvez apenas mais uma ilusão. As ilusões me permeiam, é isso [nota à revisão: deixar o coloquialismo]. Mas mais do que isso, é uma mentira. Não se pode estar vivo. Viver é apenas mais uma falha da consciência pessoal, criada pelas ilusões da mente que busca respostas nos acontecimentos falhos de sua própria falta de ser, representada na mentida da vida, jogada no conceito de humano.
Mas bom, começam a ficar estranhas as coisas quando, ainda pela manhã, me vejo obrigado a explicar como é feito o consumo de cocaína para elucidar a metáfora (ou qualquer outra figura de linguagem que seja) de Cazuza em Exagerado (talvez tenha exagerado na cocaína para chegar nisso…). Segue que, por ter sido exposto em rede social, o comentário a respeito da “neve que cega” (cheguei ao ponto de aludir a Black Sabbath com naturalidade) teve grande repercussão. Fico para sempre marcado como o sujeito que explicou como usar drogas para uma grande quantidade de pessoas. Peculiar.
O dia segue sem maiores pormenores, mas em algum momento, as ideias começam a se cruzar e, praticamente no mesmo momento em que um presidenciável — não o mesmo alvo de críticas do “presidente”, há de se notar — levava a primeira facada falsa da história da humanidade, sem sangue, sem ferimento, com hemorragia interna, risco de morte e, antes, alegação de “nada demais”; fico sabendo de um evento íntimo importante na vida de um sujeito indefinido próximo a mim e a primeira resposta que tenho é aludir à mais grotesca piada de adolescente cult que pôde me passar na cabeça. Começo a achar que o problema sou eu.
Depois de todas as especulativas a respeito da situação do citado charlatão, o dito chefe de Estado (qual Estado que o aceitou mesmo?), outro charlatão, faz grande favor à humanidade: segue seu vídeo criticando o presidenciável por outro de mesmo teor, endereçado a outro candidato. Este sujeito, alvo das críticas do “presidento”, é outro de peculiar envolvimento. Cheguei a conversar com ele por corredores da Universidade, como quem não liga, enquanto histéricos o buscavam para tirar fotos. Inconveniente interromper uma conversa com objetivos intelectuais para tirar fotos com uma celebridade política, recém advinda do cargo de prefeito da maior cidade do Hemisfério. Detalhes.
Aí, por pura falta de opção (cito, agora, Engenheiros [eram arquitetos] do Hawaii [eram de Porto Alegre]), decidi dirigir-me diretamente ao vampiro de Brasília e indicar que seguisse, após o fim de sua brincadeira de Vlad, o Empalador, duque da Transilvânia, a carreira de youtuber profissional. Difícil afirmar que haja alguma relação direta entre ambas as carreiras, mas é peculiar um sujeito autodenominado “URSAL anarcofeudalista” (vide URSAL; anarcofeudalismo [verbetes inexistentes, a serem escritos para o Glossário]) comentar, de forma mundana, com o homem que deu um golpe de Estado à [insira qualquer comentário racista ou com caráter ofensivo a pessoas de outras regiões ou estados] (P)MDB do século XXI (elementos posteriores a 2018 podem ser imprecisos com a colocação). Ainda mais o sugerir uma carreira na internet.
Mas, creio eu que o maior representativo da insanidade seja a própria existência deste verbete. Da vontade peculiar do autor de escrevê-lo. De se perder pela vontade de ser engraçado, mas somente ter a capacidade de usar a intertextualidade como piada “visual” para si mesmo.