# a escrita livro que pulsa

avessos metafísicos

# a escrita livro, aquela que vai do meu eu a um outro eu-além noutro livro, percorre um sujeito feito de fraturas; a escrita livro é descolamento de um sujeito do presente que o ata e o decompõe ao infinito; só é possível escrever um livro sobre alguém que vive, pulsa, exala, por uma tal operação que o força, quase uma parada cardíaca, a um transplante biônico de uma vida interrompida que passa a pulsar noutro lugar; este lugar é o livro, e nada tem de novo. É apenas uma vida destacada, separada do resto que a exaure, recoberta nos artifícios da linguagem especiosa da ficção por um tecido que a eterniza, como também cristaliza as suas decomposições sem o termo de recuperação, sem a restauração em outro processo de retomada pulsante. A vida pulsa e vibra incessantemente; escreve-la é a quase tentativa de uma entre muitas mortes anunciadas, para que o sujeito, o autor, finja viver doutra maneira às escondidas. Escreve-se livros por dois motivos: encerrar os mortos, interromper os vivos de viver. O resultado será sempre o mesmo: a vida renasce noutro extremo impronunciável. Cabe ao leitor abandonar o livro desmedido e recupera-la. Alas! Boa jornada!