A fervura que passou do ponto
:: visões críticas : da irracionalidade difusa
“O ódio (e a irreflexão) é como uma brasa colhida junto ao fogo e atirada ao vento. Quem a atira queima a si próprio em primeiro lugar”. (anônimo)

1. Antigamente eu ficava perplexo com as explosões familiares quando as notícias giravam em torno do governo Dilma e do PT. Quando presenciava os familiares esbravejarem diante da televisão, ou lendo jornal num dia tranquilo de domingo, eu me perguntava "afinal pra que tudo isso?". E criticava despretensiosamente a todos os que se enraiveciam tão facilmente diante das notícias. Minha crítica era destinada a um perfil genérico. Mas nunca me perguntei sobre a origem de tamanha irracionalidade e autoflagelo, combinados num só ato individual. Creio que a alienação política, em mim herdada, ainda não surtia seus efeitos. Na época era fácil criticá-los porque quando os via, pessoas próximas de mim, se deixarem levar por tamanha agressão a si mesmo e aos outros a volta, apenas pensava que se tratava de uma falta de paciência e uma ignorância, mais fundamental, falando juntas na inconsciência de alguém. Não percebia o quanto eu estava enganado.
2. Quando sentados diante da televisão (agora seriam as redes sociais) e esbravejavam a todo vapor era algo mais que exercitavam, além de angústia e raiva. Era, basicamente, o exercício corrosivo do ressentimento; em outras palavras uma variação do exercício do ódio. Começo agora a perceber como isso se processa em mim; eu que claramente mantenho posições políticas opostas àqueles que tanto condenava em suas posturas e reações desmedidas, que tanto maldizia suas faltas de clareza e embrutecimento. Agora, quando abro a tela de meu Facebook, e diariamente o faço, experimento o mesmo ódio passivo, auto agressor de outrora. Julgando-me isento e mais sensato, me acostumei com o falso sentimento de que estou apto a lidar com os descalabros da imprensa e suas notícias insidiosas. Ledo engano! Sou assaltado por inteiro naquilo que mais busquei: lucidez e coerência. Mas, não deixo de notar em meus amigos conectados uma semelhança de reações e jeitos de estarem virtualmente no mundo. Quase chegamos a formar uma egregóra preenchida de angústia e indignação. E assim me pergunto onde levará isso? Onde deixei cair as certezas de meus esforços centrados no desejo de uma vida digna do que uma dia sonhei ser possível, para que agora me perca no sentido das coisas? Não é preciso dizer mais...
: considerando um presente estranho….
3. A lição do ódio e a corrosão que causa a uma sociedade febril é bem sabida, mas nem por isso superada; sobretudo em momentos como os que se vive. Quem não é tomado de assalto tão facilmente pelas notícias insidiosas e outros tantos factóides, experimenta a estranha sensação de desamparo, porque evitando tornar seu cotidiano individual uma expressão maldita do ódio e a ignorância que por desventura possa carregar anonimamente, acaba por se ver cerceado pelos fatos, atos e manifestações que a tudo arrasta num ciclo perpétuo da destruição das referências de viver.
4. A sobrecarga de notícias contrárias relacionadas aos eventos políticos atuais tem corroído a todos, em todas as direções. Não há uma só pessoa que não esteja invadida, e por vezes dividida, por este mau estar cotidiano que a tudo assola e impregna. Em todos os lugares se ouve a mesma expressão da angústia, os mesmos olhares carrancudos, as mesmas conversas encerradas no ponto de fervura, os mesmos infelizes a gritar idiotices, como que se estivessem dando força a uma voz coletiva, estúpida, no entanto tão somente sua; e em tudo um toque da permanência do mau estar. Não é para menos, já que estamos diante da antiga dupla ódio e ignorância, operacionalizados à partir do senso comum, face a experiência do desafeto e do ressentimento.
5. Dizer que há uma espécie de ressentimento endêmico que atravessa a todos, tal como agora vem a se manifestar, sem dúvida constituí uma obviedade. Porém, de outra ótica, o processo de embrutecimento que recarrega as reações explosivas de coletividades que já se podem dizer doentes, tal percepção exige algum esforço extra, e alguns passos fora dos eixos comuns. Não sou minimamente habilitado para isso.
6. É tão longo e imperceptível o processo de gestação do ódio que nos acostumamos a negligenciá-lo de perto, dispondo de nossa inteligência para imiscuí-lo no pacote morno das emoções passageiras, dos arroubos infantis de uma linguagem mau empregada, das falhas de caráter que, grosso modo, vão dando forma a variedade de imagens que atenuam e desresponsabilizam nossos modos irracionais de ser algo semelhante a uma aberração convicta. Retornar a um plano médio, onde se possa resgatar um mínimo de lucidez diante das comoções, e assim dizer que já se passou por muito, e por muitas somas de ódios progressivos ao longo da história, parece ser uma tarefa hercúlea. Dadas as fronteiras que separam os fatos das imagens ensandecidas, que sobre ela copulam as multidões, tudo vai se diluindo numa sopa de aflições. E talvez seja o momento para se compreender que a fervura passou do ponto, e pode muito bem entornar o caldo. Não o caldo do país, do mundo, mas da vida individual de cada um. E pela mistura dos ingredientes tudo pode, muito bem, redundar nas velhas ignorâncias e condições críticas de vida que tanto se condenou.