a ilha e o que nela vive

:: apólogo

Morava num pedaço de terra estranha. Era formada de restos de coisas​, na maior parte lixo vindo de outros mares, mas que estimava tanto que fundou uma ilha, a sua ilha. Ela não deveria fazer frente ou diferença ao continente; ao contrário, na aspiração de única de ser, era precisamente igual àquele. Suas formações geológicas, a inclinação de seus picos e montes, as lagoas imaginárias, os caminhos circulares, o escoadouro de detritos, eram absolutamente os mesmos encontrados no continente. Aquele que nela moscava, não obstante a crença de que era cercado de vizinhos, a léguas de distância, nela ele morava sozinho. Procedia todos os dias do mesmo jeito: acordava, organizava suas tralhas e virtudes morais e as atirava ao mar, acreditando que por este gesto noticias suas chegariam ao grande lado de lá. Mas não. No máximo flutuavam até outra enseada de outra ilha tal como era a sua. Mas nosso intrépido habitante, tal como um naufrago, passava os dias agitando os dedinhos e escolhendo o que lançar ao mar. Revirava os lixos que lhe chegavam diariamente buscando algo interessante, que cativasse suas intenções. Embora tudo fosse absolutamente igual seguia destrinchando algo notável; e quando por fim encontrava um treco qualquer, tão depressa o atirava ao vento, já todo esperançoso, apenas para ver lhe surtir o efeito de uma densa melancolia. Perplexo não chegava a perguntar porque; simplesmente repetia toda operação do início até o sol se pôr, quando julgava ver no escuro sob as luzes das estrelas as coisas atiradas, as suas, todas cintilantes a seus olhos embasbacados.

~ Era assim, sem desconfiança, que soltava seus delírios ao mar. De quando em quando via uns acenos de muito longe, e pensava que seu vizinho, quase imperceptível, regozijava-se com seus objetos flutuando a torto e a direito, embora disso não pudesse se certificar. Em todo caso, nesses dias, dormia muito feliz pela estima imaginada alheia, que vinha infalível animar seus sonhos do dia seguinte. Reconfortava seu espírito crer em alguém que admirava este seu tão ordinário trabalho, ainda que tudo não passasse de possível ilusão. No fundo não se incomodava com isso, pois sabia que mais valia para essa vida uma imagem feliz introjetada por sobre as amarguras do que o esforço vão de se ajeitar em pensamentos e reflexões desagregadoras. Deste modo, toda sua empresa era voltada a manutenção dessa sua ilha rodeada de distâncias, e outros escolhos nunca conhecidos, no ensejo de perpetuar seu modo único, dizia "customizado" de existência. Acreditava piamente que era preciso imprimir em seus gestos algo de si mesmo, pois aí residia todo o segredo e a diferença calcada na superação das indiferenças. E se por acaso o incômodo da consciência lhe diminuísse os ânimos, sua franca potência de existir, para estes casos movia a sua ilha de lugar, e assim por este drástico expediente, tudo era resetado do princípio. Como em uma velha série de TV, deslocava sua ilha para lugar ainda mais remoto para iniciar​ tudo de novo; novamente todo aquele samsara humano.

~ Sua ilha valia nada e tudo ao mesmo tempo. Era algo curioso viver nesse paradoxo. Mas tinha como certo isto: tudo é uma questão de hábito. Basta saber que é necessário vencer a angústia do tempo. Como fator e medida de todas as coisas nosso feliz habitante tinha por filosofia, aliás bastante profunda, dada as superfícies com que se mantinha atento, que ao tempo é preciso uma ornamentação; assim em 'ne-grito’. Se o tempo era experimentado como uma profunda angústia, porque não ornamenta-lo com toda a espécie de glamour e adereços mágicos, sem as reticências do destino? Era mesmo uma lei interna à vida; pensava levando a efeito seus atos pontuais de reinserção de si mesmo num mar de indivíduos cada vez mais destituídos de senso de direção. Em via destas e outras explanações íntimas é que perpetuava seu exercício de uma breve existência, sobre um amontoado de lixo a que chamava a «sua Ilha». Era assim que vivia às custas de pequenas e felizes ilusões, inofensivas a seu ver, reais nos olhos que imaginava serem os dos outros. Era um náufrago às avessas, consciente de seu amparo num horizonte de fugazes realizações.