alunos que são em mim

>: diário

A história de minha docência se confunde largamente com a dos alunos que passaram por mim e me tornaram sempre outro, embora nunca inteiramente apreensível. É preciso dizer que um professor é a soma de vários alunos. Mas por "vários" não quero dizer indistintos ou imiscuídos num amontoado de indefinidas vozes, de onde gloriosamente emerge sobre todas as outras a identidade forte de professor; palavra que poderíamos substituir, se este fosse o caso, facilmente por “opressor”, ou ainda “supressor” das escolhas e liberdades alheias ao processo do que vem a ser o ensino. Ao contrário, todos habitam em mim livremente, e isso a ponto de se confundirem as identidades. Suas vozes e olhares afetam minhas maneiras de ser tornando-me algo próximo de uma comunidade espiritual interior. Talvez seja esta a melhor maneira de definir esta soma que remete ao conjunto e nunca ao particular sobreposto: enquanto professor falam em mim as vozes de toda uma paisagem; e de certo modo, me torno em algo próximo a uma “coordenação de sensibilidades diversas” a falarem, essencialmente, sem mim.

:: comunidade espiritual

~ É porque estão em relação comigo internamente que vou me constituindo, por assim dizer, uma mistura; a mesclar pensamentos, condutas, inquietudes, sensações. Sendo assim, no pouco de controle que me assegura ser também um indivíduo que convive próximo, que partilha conhecimentos, que padece dos mesmos sofrimentos, que busca expurgar todas formas de violência, que sente alegria quando os alunos perseveram, e frustração quando estes preferem o mais fácil e imediato, fruto da maldição de ‘todo-o-presente’… vou me formando uma mistura inquietante, arredia, que não se furta a presença de todos em mim; apenas tornam-se muitos os inscritos num só eu. Como é possível dizer que sou muitos num só? Bem, basta saber que a cada momento de suas inquietudes deixo-as se projetarem em mim, sem mais; e em suas histórias e desejos vivo como se fosse personagem inalienável, e que padece dos mesmos dramas, e se regozija das mesmas alegrias; e tudo assim reunido, num ponto impreciso que somos nós — eu e vocês — ressoam maneiras diversas de ser, que também são as minhas, e de ensinar e aprender, ao mesmo tempo, ora eu, ora vocês.

1ª Edição do “Curto Circuito de Música Contemporânea Brasil-Canadá” (2014)

~ É felicidade reconhecer as vozes que me habitam, pois de certa forma é também amor que vai, por ai, sendo irradiado a partir de centro nenhum. Assim, espaireço tranquilo na certeza de não haver virtude em sobrepor uma identidade, nas águas de um narciso, àquilo que tenho por fundamentalmente “nós”; porque isso seria enterrar-me vivo: suicidar-me sem perceber, e seguir numa existência que passa irrefletida. Que se realizem em mim é mais do que suficiente para viver uma vida pautada pelo exercício da liberdade. Para isso somam-se aqui todas as vozes…


{comentário} parecerá poesia, embora seja depoimento. Só há um problema, demasiado humano, no ensino formal das artes (aqui da música): a constituição da identidade, tanto de quem ensina como de quem aprende, como também de um meio de campo entre ambos. A identidade se constitui de tal maneira um drama a ser vivido que nos é difícil abordá-lo de frente. Mas é preciso tomar coragem e distância e tocar o dedo na ferida. Só assim, talvez, aprenderemos algo em meio ao exercício frágil de nossa existência.