# assim de manhã

a invenção do cotidiano

# pela manhã sinto meio mais seguro para escrever todas aquelas coisas que confirmarei ou renunciarei pela noite. Uma energia vital me preenche logo cedo, na forma de um impulso; e se por acaso dou com boas leituras e livros é redobrado o impulso da escrita: escrevo o que vem, o que vai de mim, o que surge por contágio; vou assim desaparecendo em minha história até por fim encontrar um outro termo de introspecção e parada; sinto-me novamente pleno, desobrigado das paixões, pulso levemente como uma doce brisa de encontro ao mar. Percebo assim que todo meu empenho é uma reconstituição do silêncio fundamental à vida que exala em mim; nas estruturas do silêncio me encontro como que à deriva. É como estar num barco que não oscila frente a plenitude do mar. Estar à deriva é a possibilidade de reconstituição do Eu que habita em mim, e quer crescer e permanecer. Talvez seja uma espécie de transcendentalismo a me ocupar, ou talvez porque haja demasiada concretude à minha volta; em todo caso não passo um dia irrefletido; dentro desta voragem dos dias que nos consome é preciso, pois, divagar para encontrar novas formas de viver sentidos outros.