ausência como outro lugar da experiência

Seminários de Educação UnB

~ Atrasado, a passos largos atravesso as alamedas da universidade rememorando as conversas com os alunos, quando me dou conta de que metade da classe estava presente na outra aula; “quer ver que hoje virá a outra metade”. Dito e feito. Lá estava a outra metade aguardando do lado de fora da sala; “olá, professor o que teve na aula passada?” A pergunta me estranha. O que dizer? Parece muito simples considerar que alguns faltam as aulas simplesmente porque não convém estarem presentes ou porque há algo mais interessante a se fazer; por certo há impedimentos, mas se os há é usual saber de antemão. Quando a aula é importante invariavelmente o aluno registra sua ausência; irá dizer antecipadamente os motivos, sejam quais forem, por que faltará. Mas nem sempre é assim. Por outro lado, dando as voltas por aqui, entendo a necessidade de faltar as aulas, por isso gostaria de falar do que se trata para mim a ausência. Pois nesta lógica dos bancos de alunos intermitentes perpetua-se o mesmo cenário, um mesmo conjunto de problemas. E todo o ensaio abaixo se dá em vista dos ambientes universitários.

:: outro lugar da experiência

1.faltar a uma aula é um respiro, uma janela que se abre num tempo que se julga ocioso. Acredito seja importante fazê-lo como forma de pôr as ideias no lugar, avaliar os caminhos interesses, propósitos e razões em jogo na tomada das decisões e escolhas​. Não há nada de estranho nisso. É apenas algo corriqueiro e necessário. Porém, é preciso se dar conta de que a ausência vem a propósito de constituir outra experiência noutro lugar: em casa, na rua, no parque e etc. Em todo caso, a aula que passou não constará nos registros do aluno. “Na aula passada” quer dizer algo que não integra a experiência do aluno ausente; está na memória dos outros (os presentes) mas não na sua. Sendo assim, não é possível atualizar uma experiência perdida, pelo simples fato dela nunca ter existido. Afinal, é bastante óbvio que não é possível reviver o vivido, que dirá o não vivido.

:: atualização, simulação e mercadoria

2. nem por isso a cultura moderna deixou de inventar seus mecanismos ilusórios de fabricação de eternidades. A repetição de experiências descontinuadas nos leva a crer que podemos de alguma forma desafiar o tempo, ou lhe ser indiferente. Inventamos mecanismos sofisticados mediante os quais julgamos nos atualizar acerca de coisa qualquer, mesmo não sendo elas parte de nossas vivências. Substituímos uma relação de vivência por uma outra de simulação. Numa nova forma de mercantilismo trocamos uma viagem por um conjunto de imagens, uma conversa cara a cara por uma sequência de comentários em post qualquer, uma leitura de um livro por um download (às vezes, bibliotecas inteiras), uma escuta musical por visualizações de YouTube, uma notícia por um acontecimento na vida concreta, um drama por uma alegria fabricada. Com isso perdemos nossa capacidade de lidar com as experiências porque em primeiro lugar não sentimos suas perdas; tudo parece matizado nas mídias digitais, entregue a eternidade, disponível ao toque dos dedos, pads e mouses. Ficamos assim mais míopes deixando nossas vidas e experiências a serem escritas por outros.

:: aula e acontecimento

3. na aula passada, após duas ou três horas de exposição, com máximo empenho, construindo um raciocínio sobre o tema da discussão em sala, causa-me enorme incômodo ter que resumir o impossível. De certo modo, nenhuma aula é explicável fora da aula. Toda a aula é um acontecimento, e depende muito das pessoas ali presentes, das questões, das perplexidades, das trocas e variações em torno de uma ideia. Não há conteúdo pronto. Toda aula é a posteriori. E custa tempo sedimentar. Mas a repetição do sentar em modo passivo para assistir uma aula leva a crer que a exposição de um conhecimento seja passível de repetição. Como explicar uma aula fora da experiência de aula, ao aluno que pergunta? Como falar de um acontecimento a um sujeito ausente na experiência em sala?

:: o tempo enquanto mercadoria

4. é preciso compreender a ausência não por uma moral subjacente no cumprimento da experiência, mas para que se tenha a exata dimensão do que se trata faltar. Faltar é ter outra experiência no lugar daquela em sala de aula. E não há uma forma de compensação ou equivalência de uma pela outra. É preciso encarar isso de frente: quando um aluno pergunta o que se passou em aula anterior (a mim pelo menos) é impossível dizer. Ainda que tente lhe explicar, esforçando-me, como muitas vezes fiz, todo o esforço é desperdiçado; nenhum comentário, nenhuma questão; apenas “Ah, tá!” Apesar da demanda, não é possível oferecer um relato de mesmo peso de experiência daquele por que passou o ausente. É claro, sempre será possível dizer mais ou menos o que se disse. Mas isto é apenas uma simulação grosseira, um jeito de dissimular uma perda. Isto é, propor uma troca impossível entre o que não se sabe, de um lado e de outro, em duas experiências distintas, em dois tempos e ambientes incomunicáveis, aquele por que passou o ausente, aquele que se passou o professor sem a sua presença. Faltar, portanto, é uma ruptura na frequência do presente numa atividade qualquer em que as relações humanas sejam determinantes.

Um exemplo : É como entrar no meio de uma palestra sem saber qual tema está em debate, de maneira que somos pressionados a escolher entre ficar ou, através dos parcos mecanismos e recursos de que dispomos, buscar entender o que se fala; ou isso, ou retirar-se e esquecer daquela breve ocasião em que se entrou no meio de uma palestra. A experiência da ruptura certamente é das mais interessantes, pois coloca à prova nossa capacidade de observação e entendimento a partir de uma posição singular, esta de estar deslocado em relação aos contextos.

:: conclusão

4.é preciso fixar na ausência um valor positivo, para que ao menos possamos nos dar conta desta lógica enunciada acima. É preciso compreender que a ausência implica no desapego ao que se passou; implica deixar se desprender de outra coisa, para no seu lugar ter outra experiência. Contudo, podemos passar o dia no sofá porque não apetece coisa alguma; mas não é disso que se trata uma experiência. A experiência é também criação de realidades. Por isso devemos cuidar para que signifique algo, para que não se perca aquelas potências de existir que tanto nos custa abraçar e administrar nelas as forças viventes que nos unem.


{comentário} esse pequeno ensaio veio a propósito de uma discussão em sala de aula, nas turmas de Seminários de Educação na UnB, onde, após a leitura do texto “Notas sobre o saber e o saber da experiência”, de Jorge Larossa Bondía, falamos sobre uma possível exemplificação do que se trata ter uma experiência. Muitas considerações foram feitas a propósito da experiência fora da sala de aula, dado um percurso que realizarámos no horário de aula, no campus da universidade, no que essa imagem da ausência veio à tona, razão desse pequeno ensaio.