comentário a uma conversa não registrada

~ Nossa conversa foi rica hoje. Reconheço. Mas afinal quando não é. Várias coisas me passaram na mente. Uma delas, queria te dizer, sendo exato, sobre a superação dos outros, das gerações novas substituindo as anteriores; qual seja o lugar que se quer ocupar destituindo o outro. Mas no teu caso as vozes que te possuem estão noutros registros; vai daí meu quase conselho: “cabe enfrenta-las na solidão, seja para amá-las ou detestá-las; e quem sabe espantar esse narciso daí.”

~ Penso nisso a propósito do que se julga conhecer a respeito de nós mesmos e que, entretanto, é indizível; um indizível que é constituinte porque sempre nos reinventando escapa as palavras, aos senso​s, as comunhões a nossa sempre estréia no mundo. Noutros registros me refiro a outros pertencimentos, múltiplos que sejam, nessa escala de valores repositivos que atravessa as gerações, numa roda perpétua, pelo que se instala uma imagem (na acepção ambígua de sujeito e projeção) no lugar de outra: amanhã eu, depois você.

~ Isso é enraizamento ou modo raiz; é o modelo arborescente de Deleuze, é todas as relações por filiação, subserviência e mútua sedução; tudo voltado ao propósito único de se perpetuar às custas dos outros; não raro, todos contra todos, num sistema coordenado para suprir os atores e suas referências existenciais. Esse mote que atravessa as gerações, a semelhança de Karnak a esmagar seus anteriores, é de uma brutalidade avassaladora. No entanto é eficaz, mas apenas para aqueles que se inscrevem nestes registros, que vivem as mesmas vidas, que se deixam seduzir, ou que já não percebem mais o terror dessas micro filiações a volta.

~ Interessante é você ter voltado essa condição de espelhamento dos desejos que se quer exclusivos dentro de uma coletividade voltada própria manutenção. Não é fácil estar em relação com as pessoas em vista de objetos e objetivos comuns; sabemos disso: comem os fígados uns dos outros. Mas que seja! Ocupam em nós outro registros insubstituíveis.