Como estudar, professor?

:: cultura universitária

Ontem um aluno me perguntou um tanto inquieto:

– Professor, como posso estudar? Quero dizer, pensando em composição?”

– Boa pergunta! disse no meu modo mais sincero. E fiquei alí pensando no que dizer…

Saber como estudar é o “x” da questão para alunos de composição. É claro, a maioria se vira como pode com aquilo que tem à mão. Pega um conselho aqui, outro acolá. Leva-os em consideração e, muitas vezes, com o passar do tempo, joga-os no limbo da memória até que um dia caia ou não alguma ficha.

De outro lado, nós professores nunca temos uma resposta aceitável de pronto (fora um ou outro iluminado saberá o que dizer), e, às vezes, acabamos inventando uma nova que sequer verificamos se funciona. Ou isso, ou repetimos o chavão conservador “comece estudando harmonia e contraponto”, adicionando quando muito um toque tradicional: “está tudo lá!”. Certamente, repetir isso não é totalmente inválido. Contudo isso: nos acostumamos a continuamente acrescentar coisas que imaginamos tenham existido neste “lá” (sabe-se onde?), perpetuando assim certa tradição em preencher o passado com as mais belas coisas, invenções e soluções artísticas.

E é assim que se faz, com grande efeito, para responder esta pergunta de modo muito convincente, isto é, basta apontar para o passado, sobretudo, se a pontaria cai sobre aquilo que nos mantemos ignorantes à troco de nada. Desta maneira, enxergamos competências insuperáveis em Bach, reinventamos processos de composição em Beethoven, super estimamos as clarezas harmônicas em Brahms, maximizamos as permissividades de estilo em Berg, extrapolamos os dizeres abstratos na música de Webern… Enfim, redimensionamos todas as coisas ordinárias que envolvem os mestres e suas obras, e adicionamos certo brilho para fazer delas nosso porta voz do passado ilustríssimo, que com vergonha desconhecemos…; Tudo digno de estudo, ainda que seja driblando um pouco as questões mais intimas de ensino. Porém, isso não faz sumir a pergunta. E algum aluno poderá com razão retorquir “Sim! Tudo bem! Mas começo por onde, afinal?”, pois quer dizer internamente “como vivo no presente com essas coisas belíssimas que me diz?”

…pequeno desvio para falar do desejo…

Você que está lendo, talvez ache que a pergunta dele é trivial, simplória, digamos, feita por algum noobie no assunto. Mas, acredite, não é bem assim. Quando alguém decide fazer da música sua principal atividade na vida (que é o caso deste aluno) essa pergunta ganha outra dimensão. Quem assim pergunta não está mais querendo saber como passar na prova mas como lidar com um desejo que se faz cada dia mais presente. Não é, portanto, o trivial que está em jogo. É antes toda a dimensão desejante que dá um passo adiante, se abre e se desprende dos contextos de vida em que era nascente. E é por esta razão, enquanto desejo pulsando prestes a adquirir forma, que a resposta nunca é exata. Professores podem apenas se deixar envolver pela pergunta e de modo bem sincero dizer “não sei! mas com certeza descobriremos juntos.” Pois, de modo algum há como esclarecer os percalços que estarão por vir e, sendo assim, irão determinar o processo de definição das escolhas do alunos desejantes por sentido. Tal questão (“como estudar?”) está ligada a um processo maior cuja demanda é por sentido de vida.

Como aluno, também fiz essa pergunta no tempo em que podia e não pegava tão mau perguntar. E o que me disseram (ou pelo menos assim interpretei) foi que saber estudar é saber administrar por um longo tempo a convivência próxima com um mesmo repertório, com um mesmo conjunto de matérias, muitas vezes, insossas que no entanto se revelam úteis com o tempo. Em geral, são coisas bem simples que damos pouca atenção. A premissa de fundo é que com o passar do tempo nossa percepção sobre determinado conjunto de coisas próximas muda substancialmente a ponto de enxergamos algo que antes não percebíamos por falta de exercício. É a partir deste enriquecimento que formamos nossos primeiros pontos de contato com o estudo nas relações do dia-dia.

Como professor esta pergunta me faz, sem dúvida, questionar como cheguei até aqui. Percebo logo de início que não tenho uma resposta clara para ela. E não seria muito errado considerar que pouco sei sobre como estudar, levando em conta que apenas sigo estudando como posso desde então. O estudo que faço hoje, posso dizer, é mais econômico porquanto a vida tenha me mostrado qual o foco das coisas, enquanto elas se mostram relevantes para o fortalecimento das relações humanas que atravessam o ensino.

Enfim, chego até aqui para dizer isso: se, por acaso, há uma meia-resposta possível talvez seja esta: estude aquelas coisas (não importa quais) que fazem sentido com a sua vida. Não perca tempo refazendo os passos e caminhos dos outros, pois isso não dá em lugar algum, já que cada pessoa é singular, seja professores ou algum ilustríssimo. Construa sua vida no cotidiano das relações humanas de modo que o estudo seja aí uma atividade compartilhada em que outros possam também participar e se beneficiar, seja ao toque de discussões fora da sala de aula, conversas de boteco e outros afetos compartilhados, ou até mesmo sob a forma mais engajada de grupos de discussão. Deixe que o “outro” seja seu companheiro de viagem, pois você vai precisar muito dele. E sobretudo, não se permita a indiferença, a insensibilidade, inconsciência, a solidão das “representações ilusórias do não-vivido”… Articule forças e referências para que a vida flua em torno daquilo que você faz com empenho único, para que assim haja sempre um fundo de sentido em tudo que abraça e o envolve em sua atividade. Talvez, afinal das contas, seja assim mesmo! O desejo de ser com a música algo diverso do ordinário, da frieza (do fundo opaco) do cotidiano, faz da vida musical um raro acontecimento, o qual vivemos abertamente… Boa sorte!