Conhecimento sem brilho e o Mestre oculto

:: cultura universitária

/1/ A pouco tempo atrás estavam três pessoas nesta plataforma. Vínhamos conversando, a caminho para o metrô, sobre o curso de composição na universidade; especificamente, sobre o sentido das práticas musicais históricas (de concerto) para nossa formação musical. Tema estranho para um final de noite, numa caminhada pela Cracolândia de São Paulo… essa discussão teórica chegou até nós de forma descontinuada e extraída de outra conversa encostada num balcão de lanchonete, onde dois deles, exceto eu, contrastavam opiniões. Pelo que se disse antes, toda a discussão surgiu por conta de um destes Mestres iluminados que de vez em nunca saem das sombras para dizer coisas inefáveis por aí…; seria mais um daqueles episódios que emendaria os papos, redundando numa ‘Serra Malta’ no famigerado bar “Amarelinho”, na esquina da Emesp. Mas desta vez não foi assim. Houve algum desagravo na cantina que desacordou a conversa. Pelo que vim a saber, O Mestre não estava lá, mas suas palavras, sim, foram reproduzidas por ouvido alheio. E o que foi dito é digno de interesse.

/2/ Agora andávamos, nós três, pelas vielas mau iluminadas do bairro da Luz, que dá acesso ao metrô, e o tema ali ganhou seriedade. Enquanto seguíamos em frente nos entrosando em nossas teorias de ocasião um pensamento me ocorreu: “que será que O Mestre diria se disséssemos que a história é uma piada, invenção de uma má fé? Qual seria sua irrefutável explicação?” Vamos dar alguns passos atrás para entender o sentimento corrosivo de nossa conversa pelas ruas do bairro da Luz, e o porquê desse pensamento que passou ali na minha cabeça. Vejamos só…

/3/ No balcão da lanchonete amigos, colegas de faculdade, discutem sobre a necessidade de se estudar composição na academia — eis como se referem. Os ânimos se exaltam porque uns acham perda de tempo, outros não; uns acham que a Universidade é um ambiente de formação crítica, outros dizem que tudo é apenas vaidade; uns se indignam quanto aos egos inflados dos professores, outros dizem que isso é bobagem, importa apenas se o professor é bom; uns dizem que lá se aprende muito pouco, outros que isso é uma questão de ponto de vista … uns e outros dizem e se contradizem, sem mais. E no fundo a sombra do Mestre.

/4/ Gostaria de me deter um momento sobre essa figura oculta do Mestre no discurso. Como podemos pensá-la? Neste relato O Mestre irá dizer que a Universidade é uma perda de tempo, porque lá ninguém sabe o que faz. E dirá ainda mais: que para não perder mais tempo deveríamos estudar as obras da história; ademais, observa ele que livros tampouco ajudam, pois, assim diz “tudo está nas obras”; e ficamos sem saber exatamente a que se refere este “tudo”. E quanta coisa há nesta observação trivial! … Entre o “dever” e o “tempo”! Não me surpreendi com o efeito das assertivas. Fiquei mesmo a pensar no que, de fato, foi interdito para que essas máximas pudessem ressoar à distância. Qual foi o diálogo anterior formado a partir daquele reconhecimento de campo, que todo palestrante faz quando está em frente à sua platéia, a observa, calcula as palavras, os efeitos de sedução, e assim lança mão de alguma estratégia de convencimento? Quando se vai palestrar vestindo o manto dos Mestres, tudo na fala orquestral reflete certo domínio nas artes de sedução intelectual. Trata-se de uma questão de técnica desenvolvida ao longo das décadas. E assim, uma pequena certeza — às vezes íntima porque se quer acreditar em algo somente nosso — se transforma para uma platéia de meia dúzia, num discurso fantástico repleto de leis universais e obras consagradas para demonstrar a eficácia de uma visão de mundo. Não se deve espantar com nada disso, pois afinal a cena é corriqueira.

/5/ Caminhando pelas ruas e vielas até a entrada subterrânea do metrô, nossa conversa foi se entortando para o sentido da educação artística-musical (haverá um?), e dali a pouco estávamos pondo em cheque a nossa relação com a música nas universidades. De um papo de botequim, onde palavras foram ditas, um clima de desestruturação foi consagrado. Ocorre que, em torno de uma diferença de opiniões — cingidas pelas assertivas de segunda mão — ressaltava-se fortemente duas posições: uma a favor do estudo técnico e histórico da música, que se julgava ausente nas universidades, e outra nem tão a favor da história quanto de uma formação crítica e social da música. Ambas soavam extremamente assimétricas e incompatíveis para serem pesadas numa única e só balança da educação. Mas lateralmente o sopro enigmático e arrebatador do ‘Absoluto Musical’, emanadas por autoridade oculta, causaram algum tremor ali. Um pouco ressabiados fomos lidando com aquele desconforto inicial, até nos vermos descendo a escada rolante, e depois a catraca, quando se disse “… e ele (O Mestre) diz:

“… que a Universidade não é o lugar para se aprender música. Lá não há quem possa ensinar com precisão as diferenças sutis entre as músicas e os compositores — por exemplo um Mendelssohn de um Brahms, havia citado — , isso sem falar no entendimento das OBRAS e escolas de composição na HISTÓRIA (imagino que tenha enchido a boca nestas palavras). Isso é mesmo um problema de falta capacitação dos professores”.

/6/ A pulga coçou atrás de minha orelha; não porque me incomodou a afirmação, pelo fato de eu mesmo ser professor universitário, mas pelo que está oculto e imerso nestas palavras óbvias, e devo dizer, prepotentes. Mas fiquei na minha! A suposta denúncia quanto a inutilidade da universidade, que ficou a flutuar no vazio, me pareceu esconder um contrapeso de uma moral sorrateira do ensino por detrás das artes de opinião, como se as palavras que realmente importam nunca houvessem sido ditas. E creio que nós três sentimos o mesmo; um sentimento de deslocamento forçado para fora de um eixo legítimo; como se o impróprio revelasse a nossa própria condição de ensino e aprendizado a dizer, nós (alunos e professores) ali presentes, não sabemos nada. Como definir essa desestrutura de sentimento face ao que sentimos como falha ou lacuna de formação (na música), e que afinal nos aflige a todo instante? Eis aí um terreno fértil para a manipulação…

: Parênteses

/7/ Internamente (nós com nós mesmos) nunca é muito claro o que nos falta saber para seguir em frente, a não ser — talvez isso — que diante dessa vaga sensação de ausência e precariedade de nossa formação educacional é preciso seguir adiante, criando certa resistência, independente daquilo que julgamos falho e ausente. Sem isto, sem essa disposição para enfrentar a vida e seus percalços pelo caminho, qualquer um, de duas uma, ou é vítima da indiferença, ou presa das soberbas alheias, expostas na maneira como Mestres colecionam alunos — pois quem diante desta fala teatral iria duvidar que a história é digna de interesse para o ensino? Vamos em frente nesse relato, um tanto literário…

/8/ Caminhando por aquelas ruas, num jogo rápido de raciocínio não foi difícil perceber a assimetria desta justaposição de circunstâncias idealizadas, de um lado o professor gabaritado para formar consciências históricas, de outro o educador bem intencionado, e consciente do papel social na formação de artistas, mas impreciso e incerto. As duas posições musicais (a favor da conhecimento técnico, a favor do social) simplesmente não batem entre si, pois pertencem a territórios diferentes. Mas nem sequer alargamos a conversa pela campo das diferentes fundamentações para cada uma, mas sim, pelas condições as quais O Mestre das sombras se fez presente. Pois, tudo era uma questão muito mais simples e banal: “Afinal sou mesmo um professor? Sou mesmo um aluno?” Com o impacto das palavras de autoridade sobreveio um sentimento danoso de desvio, de erro, de ignorância fundamental. E isso causou coisa estranha, até que num momento de lucidez, um de nós disse “se formos esperar o entendimento histórico consolidar em nossa formação, começaremos a lecionar após trinta ou quarenta anos de estudo”, algo cômico de se pensar. De fato! Mas não foi só isso que percebemos. Essa colocação, um tanto orgulhosa de si mesma, apresentava uma artimanha discursiva das mais óbvias: a denúncia das obscuridades e da semi-consciência das coisas que nos formam, por ocultação de uma suposta luz a brilhar no fundo opaco da história, que dizem alguns carregar. E isso foi a chave para o enigma das palavras ajeitadas para compor máximas semi-filosóficas.

/9/ Neste instante, o colega nos disse: “Na verdade, não existe tal coisa como conhecimento brilhante. No fundo um estudo qualquer, para que se transforme em arte, será sempre algo sem graça, chato, e desgastante. E por isso se trata muito mais de resistência do que revelação”. Sua fala nos inquietou naquela plataforma, de onde já começava a se ouvir o sibilo constante do vagão que se aproximava no túnel. Foi-se transformando em ruído, cada vez mais alto. Depois de um breve momento de pouca reflexão, o colega completou sua fala “o conhecimento é algo sem brilho. Se alguém quer brilhar, é outra coisa que acontece”. Nos dez segundos que preencheram sua fala e nossa curta meditação já nos vimos às portas do vagão, e ele se despedindo de nós, completava sua sentença “às vezes não é que o apaixonado seja o Mestre, mas o alunos é que o são…”

/10/ Nos despedimos ali, com o corte das portas automáticas, e seguimos viagem, eu e o outro, até as nossas destinações finais. Não trocamos mais palavra a respeito, mas caímos numa introspecção letárgica, da qual só fomos despertar com a abertura das portas finais. Uma segunda despedida silenciosa, e cada qual seguiu seu caminho noturno. Fiquei a pensar: a elevação das lacunas à categoria do conhecimento oculto — dizer algo tomando por pretexto a ignorância do outro, “todos são ignorantes, e somente eu posso lhes contar a verdade” — é expediente antigo para modelar a si mesmo algo extraordinário. Se alguém sai por aí dizendo coisas que todos desconhecem, a denunciar a falta de luz naquilo que se julgava conhecer, está querendo dizer que “a luz brilha em outras escuridões que não aquelas que tu crês enxergar”.

/11/ De tudo que nos acometeu durante essa conversa insólita, ficou o fato de que Mestres os há por ai; é aquele que orienta, ensina, sim! Mas provavelmente desfazendo de si próprio para isso. Como? Lembrando que aquilo que o define é sobretudo a partilha de vidas que se inscrevem em sua biografia variável. Vai daí certa responsabilidade comum e recíproca.

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{circunstâncias} este texto faz às vezes de uma sinopse de uma conversa maior entre mim e dois alunos, no momento que se viram perplexos e jogados contra o abismo. Dizer que a falta de conhecimento implícita na estrutura diária de suas relações de ensino é a razão pela qual a vida de cada um é uma expressão da perda de tempo, transtornou suas convicções mais íntimas. Isso não quer dizer, seja algo inteiramente negativo; sempre há os que relutam e transformam palavras prontas num esteio formidável para outras conquistas. Isso foi exatamente o que se deu. Fico contente que haja preocupação em torno da produção de saberes, a partir das relações de vida. Daí este registro em blog.