Crônica fabulosa de um antigo recusado
{Nota} o texto abaixo foi escrito há três anos atrás, após ter um artigo recusado em certo congresso anual, por motivos segundos referentes a inadequação às normas de escrita da chamada de artigos. Os motivos primeiros, nunca foram revelados, cabendo a mim deduzi-lo pelas obviedades.
1. Ontem recebi um comunicado da comissão … do congresso … recusando minha comunicação sobre certo autor ainda não academizado. O ser mitológico que o reprovou trata-se de um ser mui exótico que faria corar as bochechas do Grande Tolkien. Consta no bestiário da velha academia como um verdadeiro monta-guardas das boas normas das condutas tipográficas suspeitas. Seus estreitos olhos, apesar de herdeiros de certa miopia natural, se esforçaram durantes incontáveis eóns a vasculhar o amontoado de escritos acadêmicos e lá encontrar certas corruptelas de estilo: aspas inapropriadas, suspeitos pontos acima de virgulas, caixas altas em subtítulos nada humildes, notas de rodapé em páginas indevidas e outros facetas do gênero que enrubesceriam o mais progressista de seus condiscípulos.
2. Este ser a quem todos devemos ser temerários na hora de tomar emprestada a velha pena da academia, e nos resguardar com sapiente perspicácia, encontrou blasfêmias imperdoáveis, as quais decerto fizeram sua bile migrar a pontos sensíveis de seu atarracado corpo e provocar seu soberbo escrutínio. Coisas como tais selaram o destino da futura fala que ousara um gentil como eu ter durante cinco mas gloriosos minutos diante de uma platéia de eleitos: “caixa alta se usa apenas na primeira letra do título”, “seria melhor se houvesse subtítulo”, “as palavras chaves são mui genéricas”. E mais, mais imperdoáveis ainda: “citações não precisam de aspas”, “notas de rodapé apenas ao final do trabalho”, “não se deve numerar nada”. Por todas essas incorreções minha triste e malfadada tentativa de entrar para certos anais, apesar de habitar na severa equanimidade deste louvável ser enquanto um trabalho “muito bom!” e ser assim por este encorajado: “que logre publicá-lo em um outro momento” foi solenemente reprovada. Pois é meus caros, quem nos disse que as idéias bastam por si mesmas para se fazerem nas miríades literárias dos illuminati foi habilmente enganado. Não logramos menor êxito diante destes guardiões do escorreito dizer. A nós gentis ignaros nos resta o mundo…
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Com muito empenho e dedicação logrei o tal êxito vaticinado; publiquei-o um ano após o incidente na Revista Vórtex.
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