Criação e autocrítica… e sobre como nos condenamos à toa

Peça que escrevi num momento difícil de minha vida…

1| Vivemos uma cultura artística tão crítica em relação a tudo que se faz, que muitas vezes, sem perceber, caímos nas armadilhas de nosso próprio senso crítico. Ainda lembro de minha insatisfação no dia da estréia, quando resolvi emitir um juízo solitário dentro de mim. Uma vozinha chata, lá no fundo, condenava todos erros de escrita, de técnica composicional, de uma mão que se perdeu... Foi um instante pequeno que alí anulou toda a possibilidade de alegria. E não fiz outra coisa, desde então, a não ser criticá-la... até agora! Passado algum tempo, ouvindo-a novamente, e arranjado numa melhor perspectiva da vida, percebo que aquele juízo era todo estranhado. Não passava de um reflexo dissimulado de uma aquisição forçada das expectativas alheias. No meu íntimo queria mesmo saber o que todas as outras pessoas, a ouvir, tinham a dizer. Mas no temor de se ver perplexo (não saber o que falar) acaso a crítica fosse severa, adiantei-me na solidão. Dei um passo adiante e conformei minhas expectativas ao senso crítico comum que já paira no ar. Emiti juízos e bani ao limbo aquilo que havia composto para ocasião tão feliz e especial. Fiz da minha escuta e de meu prazer um ser aprisionado entre o tempo da execução e do discurso a ser dito. Enclausurei minha convicções e pus um ponto final. Cheguei mesmo a dar uma aula de meu erros para alguns alunos desavisados de meu gesto de auto aniquilação, e assim consolidar este espírito niilista tão comum.

2| Hoje ouvindo-a novamente me vem um largo sorriso. Ainda escuto falhas composicionais, mas ouço muito mais coisas interessantes, e tenho ideias passeando pela frente... e isso preenche a vida! Hoje entendo que minha sensação foi subjugada pelo senso crítico elaborado às pressas ante o receio de ser o último a perceber como faço o que faço. Chego a conclusão de que a compreensão criativa (porque fazemos o que fazemos) se deve mais ao caráter afirmativo de uma obra, uma afirmação da existência (conjunta) sob a qual nos perpetuamos do que uma fecunda e elaborada rede de pensamento a se estender por nossos afetos e pelas convicções alheias a se incorporarem num fundo crítico. Me parece isto: a criação depende da inexatidão de uma crítica, depende de sua distorção, e talvez de sua disfuncionalidade; mas sobretudo depende de um cenário onde se possa operar o desejo de criar e estabelecer uma relação com a vida. Creio, afinal das contas, que a criação, posta sob o olhar crítico, deve espelhar um processo de vida e dizer do que se trata viver pela criação.

Enfim... meus sinceros agradecimentos a André Mestre , Allison Balcetis e Roger Admiral pela magnífica perfomance!