invenções pirandellianas

ensaio sobre as relações furtivas do tempo na criação artística

{prológo} outro dia tentei escrever um ensaio sobre a percepção do tempo no processo de criação, sobre um ponto de vista pessoal; exatamente como o tempo se apresenta a mim quando estou criando. Foi uma tentativa estranha essa! O resultado foi uma ficção de passagem, num tom de literatura fantástica. Creio, porque estava envolvido com a leitura de um romance de Pirandello — *um, nenhum e cem mil* — fui contagiado pelo seu modo de escrita.

De acordo com o dicionário Repubblica.it “Pirandelliano”, significa:

  • 1. Del romanziere e drammaturgo L. Pirandello: teatro p.; le novelle pirandelliane || Relativo a Pirandello e alla sua opera
  • 2. Che si richiama ai temi fondamentali, ai personaggi, alle situazioni drammatiche, ambigue e paradossali, velate di ironia, tipiche della produzione di Pirandello: ambienti pirandelliani; situazioni pirandelliane || estens. Assurdo, paradossale: vicenda pirandelliana

:: invenções de primeira ordem — tema I

… não sei ao certo se delírio ou insight; outro dia olhando os ponteiros do relógio, simultaneamente, o olhar pousando sobre o móvel do piano de armário em meu quarto, o reflexo dos ponteiros refletidos no lustro verniz do piano espelhavam algumas idéias a passar pela minha mente. A primeira delas apontava um tempo sem medida, sem segundos e molduras, sem batimentos; era a estranha sensação como se ali tudo estivesse à pairar no ar num estado de paisagem prester a precipitar na passagem suspensa do tempo clicado. Minha sensação tinha por objeto, apenas um piano de armário e um reflexo sem duração, dos ponteiros a bater sem mim. Parecerá estranho dizer que os ponteiros possam bater sem mim, e isto pode levar a crer que estou em devaneio. Entendo. Mas isso apenas porque você não teve tempo ainda para avaliar esta situação, para refletir melhor sobre o tempo progredindo comigo, e num outro momento sem mim. Vejamos lá do que se trata.

:: interlúdio — transição

Em todos os chamados ‘dias em que vivo’, para ser exato, numa porção específica, que mais adiante chamarei ambígua, estão os finais dos dias: final de tarde, depois da janta, alguns minutos após a meia noite. São todos estes finais carregados por uma confissão, onde os relógios cessam por alguns instantes, no momento de dizer a respeito do que passou e como foi que se deu a minha relação com o este dia. São nestes momentos de latência dos tempos que me conformo com o duplo desconforto de ter que escrever a história de minha vida futura, ao mesmo tempo dividido, neste breve exercício de existência plena, entre o julgamento e a criação. E isto me levou a seguinte reflexão…

{comentário} A esta altura, havendo passado de um modo de escrita a outro, a intenção de relatar certa experiência particular do tempo se transformou noutra coisa, se transformou em processo de criação, onde as palavras iam brotando sem querer, indicando e sugestionando imagens; todas coloridas pela atmosfera de Pirandello. Fiquei tão fascinado com essa experiência, que segui escrevendo, e distanciando cada vez mais aquele ponto de sobriedade que desejava operar no discurso. Na verdade, fui lançado ao tempo da escrita, e em meio a ela renasci outro, totalmente estranho; me reinventei, por assim dizer, nascendo alguém que não mais aquele que iniciou pelas palavras a dizer coisas isentas. Acho, mas não sei ao certo, que estava de algum modo lidando com **Escrita Criativa**, mas nem sei o que é isso; ainda bem! Pois bem continuando nossa estória…

:: reflexão intermediária — tema II

… se há um tempo determinado a se viver de modo em que todos os finais de dias, antes de dormir confessamos aos nossos próximos (ou à nós mesmos) “Olha, hoje foi bom! Fiz tais e tais coisas”, redundando na hipótese feliz de que este dia, se sucede aos outros, qual seja, aparentemente foi o melhor e mais produtivo — ou ainda no caso inverso, quando passados os rituais ordinários da chegada à nossa casa dizemos “Que dia inútil! Não fiz nada!”, isso é assim porque formulamos uma hipótese de que podemos fazer algo com o tempo; não exatamente fazer algo do tempo, mas com o tempo; tempo conosco, aquele em que sei quem sou, e sou aquilo que faço com ele, seja ao meu lado, ou me ultrapassando de todo.
No entanto, diz-se por aí, com muito veemência mas pouca argumentação, outra hipótese a contrapor a nossa fé, que o tempo passa independente de nosso compromisso com ele; se pretendemos viver com o tempo ou não, ao tempo que nos atribuímos sendo alguém, isso pouco importa. O tempo passa, absolutamente! Pensa-se, sem mais, que o tempo apenas nos arrasta à um movimento sem fim; algumas vezes nos retorce ao extremo, noutras emite um sibilo constante de que nada mais, nada menos, estamos deixando o tempo passar. Não estamos de modo algum aproveitando o tempo, mas nos iludindo quanto a sua passagem inexorável por cima de nós. E nesta hipótese generalizada é o caso o qual estamos meio que à deriva, esperando outro momento de sorte, uma lufada de vento que nos tirará da inércia que nos toma por inteiro.
A razão desta insuspeita situação está nesta infeliz variação de nossos ânimos, dito acima, quando confessamos à nós mesmos, naquela porção de tempo definida, antes de dormir, como foi o nosso dia. À esta variação, é usual, imputar no mínimo dois estados de ânimos, um em que estou plenamente contente, embora na porção específica dos finais de dias, e outro em que estou descontente. Em ambos estou ‘com tempo’ algo animado e desanimado. O que nos dirá esta diferença de ânimo? Estar com tempo é dar-lhe alguma participação em nossa identidades? Haverá alguma alucinada finalidade? Oras, como podemos verificar esta hipótese?

{comentário} foi um feliz acidente suscitar, em meio a narrativa, a relação genética entre tempo e identidade. A relação é abstrata demais, e se dá absolutamente numa junção de dois termos irredutíveis, duas unidades justapostas, lado a lado, significando um processo um tanto enrolado. Contudo, reconheço, juntei duas coisas pensando em outra completamente diferente, e fui assim errando pelo caminho…

:: reflexão suplementar — recapitulação

… retornando ao início deste insight; o tempo neste delírio-ensaio se fazia pelo avesso da memória. Nada me recordava, nada trazia à tona que anunciasse a passagem do tempo: tempo era encerrado! “Vamos lá, hora de levantar e fazer algo…”, digo a mim mesmo, algo que havia esquecido e lembrava ser importante, naquele momento em que os ponteiros batiam sem mim, eis um pensamento que não surgiu enquanto absorto mirava os dois (ponteiros e piano). Sendo assim, havia este tempo que não fluiu, nem escorregou, nem se perdeu. Era tempo em estado puro, sentido há uma só vez em toda sua com gravidade embora sem ansiedade nem espécie.

{comentário} Em meio a este texto fantástico, de repente surgiu um subtítulo…

“ser estésico ultrapassa a si mesmo”

É curioso! Fui levado a perceber que esta sensação do tempo a pulsar sem mim, se abre enquanto uma dimensão, e tudo que se fizer nela ganhará valor ornamental e extraordinário. Vejo agora como isso possa acontecer na criação sonora: toco algumas notas, e componho uma sonoridade única que se suspende até perder energia. Deixa de existir: isso é tudo! Outra coisa é impedir este movimento natural em que decairá uma sonoridade para torná-la algo permanente, um pouco mais durável, durando tanto quanto se possa, para assim dar forma apropriada no tempo, registrá-la por fim na partitura. Tudo isso para que o tempo seja subjugado por esta sonoridade que me desperta à prende-la. Você se pergunta, agora, afinal de onde veio este exemplo de “compor uma sonoridade”, ou o que a música tem a ver com tudo isso? Em meu caso, para fechar essa narrativa, devo dizer que tem tudo a ver com uma sensação de desaparecimento do tempo em minha sensação. No entanto, isso: não foi devaneio, mas a certeza de que escapar ao tempo ou preservar a sensação de um dia feliz está suportada pelo exercício da criação artística. Quando componho músicas, minha sensibilidade, todo o meu ser em produção, não trabalha sob os auspícios do relógio, de modo que as medidas para que eu possa criar, e existir, tal e qual, criando, vêm desta célebre ilusão de que o tempo passa independente de nosso vontade ou ações, quando na verdade ele está é parado num estado de presença, decerto, indefinido, e naturalmente inapreensível. Nem por isso posso deixar de reconhecer isto: que o tempo apenas passa comigo, numa identidade que penso ser minha, embora seja de ninguém. Se deixo de lado o que me aflige a ser eu um produto, e encaro de frente, em qualquer dia que seja, a face perdida do tempo, percebo que a vida é pulsação lenta e criativa. Basta descentralizar as angústias cujo fundo é o tempo, ou a sua falta, e tomar como lema “posso viver sem me preocupar contigo”. Basta-me a inocência do passado e futuro ladeando o presente.

{comentário}à esta altura já estava deixando as palavras tomarem forma tal e qual um processo criativo, permeado de intuições e impressões, cujo a qualidade energética, como ocorre na musica, definem o processo de desenvolvimento dos ambientes e cenários, de modo quase autônomo: a música se cria enquanto deixo de ser quem sou, apenas uma imagem.

O que há de notável aqui, quando quero, é o fato de que eu possa escolher o bater dos ponteiros do relógio, tornando assim meu conviva mais íntimo. Escolho definitivamente dar-nos ao tempo comigo. E isso acontece quando resolvo criar e permanecer em contato com a minha inútil e sonora criação; o meu pouco de música. Criar, assim, me conduz a retomada do tempo, da banal sensação de estar por aí, em qualquer lugar, vivendo, meio à contragosto, meio à vontade, me atualizando nas porções de tempo em que resolvo dar tempo ao tempo.
Quando digo que os ponteiros estavam a bater sem mim, parecerá estranho, mas assim era porque não via sentido naqueles ponteiros se deslocando no espaço confinado do relógio; tudo que havia para mim era um piano e minhas ideias flutuando pela sala; esta altura você deve estar achando que eu perdi o juízo, talvez… mas isto não importa. Preciso que você entenda que este pequeno objeto, o relógio, é expressão de nosso pensamento confinado, circularmente confinado; é o círculo das angústias escolhidas para nos rouba a vida. E isso, meu caro, é o contrário da criação; um tempo fechado, dependente, preso na repetição dos ponteiros…

{comentário} Parei meu exercício de escrita por aqui. Mas creio que a sensação que ficou era de uma busca por um modo de existência criativa livre da sensação de perda de tempo que tanto se passa no processo artístico. Artistas bem o sabem quanto vai de energia e tempo no processo criador, em geral, razão das angústias. O tempo impregnado pela atividade artística não segue uma contabilização dos horários dos dias, das porções de tempo que separam algumas atividades regulares. O tempo da criação está mais para um estado sensitivo quanto àquilo que ocorre subitamente e, às vezes, permanece um tanto difuso e esquivo, na formação de um estado fértil e feliz.

Assim se relacionar com as sensações de qualidade tempo produzida e voltado à criação, torna-se no mínimo interessante considerar alguma forma de gestão que não seja apenas as inscritas nas agendas e calendários. Tal gestão de tempo demanda mais do que esforços intelectuais, mais do que um punhado de invenções, mais do que qualquer assertiva filosófica que se possa evocar para nos sentirmos confortáveis. Gerir uma forma de relacionamento com tempo é de alguma maneira compreender o modo de existência pelo qual se dá forma ao campo artístico de nossos desejos aos nossos planos de criação… !