micro estórias fantásticas

:: ficções e exercícios

{intro} recentemente, num blog de literatura, li um post sobre micro-contos de terror circulando pela web a partir de um desafio surgido em um dos fóruns da Reedit. A postagem comentava (link segue abaixo):

…abaixo 20 micro-contos de terror que vêm circulando na internet há algum tempo, desde que foi proposto uma espécie de desafio em um fórum do site Reddit, no qual seus usuários deveriam escrever a melhor estória de terror possível em apenas duas frases. Os melhores resultados da proposta foram reunidos nesta lista, cujas traduções seguem abaixo da lista dos micro-contos originais

Pois bem! Resolvi escrever os meus, como uma espécie de exercício de estilo. Certamente, não é fácil causar impacto em duas linhas (ou três como faço em alguns abaixo). Dentro da proposta ampliei o escopo para a categoria do “fantástico”, numa linguagem simples, onde os personagens se apagam no fluxo da ação das palavras. Caso vocês os leia, adoraria ouvir seus comentários.

:: micro estórias fantásticas e algumas de terror…

1.~ Enrico gostava de nadar. Toda vez que mergulhava até o fundo, ao olhar para cima via através d'agua outro de si mesmo, com rosto a um palmo da água, sorrindo de seu afundar.

2.~ A luz da vela acima de sua escrivaninha inglesa projetava uma sombra desigual no canto oposto da sala, onde se via nos contornos multiformes acanhados se esgueirarem seu gatinho preto de criança.

3.~ Por quê há tantas sombras neste quarto? — pergunto ao estalajadeiro. Para que não se percam de vista os mortos que aqui viveram — responde-me num gesto amplo, apontando em todas as direções.

4.~ Já era tarde quando deitado na cama assoprava a vela e via os mortos visitarem seu quarto, arrastando os pés no assoalho carcomido de madeira; e num gesto convulsivo observava que sua cama era nada mais do que uma mesa de cirurgia.

5.~ Acordando dentro de um sonho pavoroso, sonhava que esforçava-me para não mais dormir. E quando acordei definitivamente, não sabia se estava acordado ou se ainda sonhava, pois a cama a meu lado pegava fogo enquanto eu nela dormia.

6.~ Por quê se chama este vilarejo de Vale do Sussurro? – pergunto ao guia florestal. Quando os lobos saem à caça ouve-se, carregadas pelo vento, as vozes sussurradas dos desaparecidos, responde num sorriso malicioso.

7.~ Dentro de casa abri a porta para sair quando dou com uma parede de concreto que não estava ali. De porta em porta, em todas, a mesma parede de concreto e a seguinte inscrição: "aqui jaz vossa bela morada para sempre e eternamente".

8.~ Interrompo minha escrita para dar-me conta: tudo que escrevo desaparece de minha vida. Primeiro foi aquele armário, depois o espelho e a escrivaninha, e agora meu coração pulsando, bidimensional, num pedaço de papel anunciava: sou eu, e para sempre, um morto-vivo.

9.~ Quando já era tarde e assoprava a vela, e num gesto rápido acendia novamente o fósforo, aproximando-o da chama, via projetado através da chama na vidraça seu outro rosto desfigurado refletindo o espelho atrás de si.

10.~ Quando sobreveio o ataque agachei-me, apertando o joelho contra o peito, e neste esforço notei que meus braços haviam sumido; e logo após foi a minha cabeça rolando a assistir nos segundos finais os escombros fumegantes depositados na ravina verdejante.

11.~ Quando meu amigo veio-me visitar disse isso "estás morto! Como não o percebe?" Respondi com convicção "Sim, eu percebo! Mas quero me alimentar de teus tormentos de vivo, quando te vejo ajoelhado, rezando para que me espante daqui".

12.~ Na calada da noite, um rapaz maltrapilho realiza suas prostrações diante da estátua de Buda. O sorriso radiante ilumina todos os cantos do salão, onde encolhidos, com suas mãos invertidas e estampados nas faces o riso desgraçado dos fantasmas famintos.

13.~ Quem corre de ponta a ponta este pobre povoado há de encontrar outro mais além ainda mais pobre; se por acaso repete essa operação, correndo de povoado em povoado encontrará uma fonte repleta de cadáveres que através dos tempos escoaram por lá. E assim correndo não se dá conta que é apenas mais um semimorto a se ajuntar ali.

14.~ Certa vez a cobiça viajou no tempo, para um futuro longínquo, esperando encontrar riquezas. Mas tudo que encontrou foram as vidas despedaçadas que um dia foram também as suas. Ei-la agora prostrada aos pés da inveja clamando por perdão.

15.~ Toda vez que sonho com minha casa natal, vejo aquela mesma sala cujas portas nunca abri. Acordo! E da cama perscruto meu quarto; vejo que naquela sala estou, e olhando pela janela atormentado vejo meu próprio rosto quando criança colado na janela.