Notícias do bairro

# 1 Dona Júlia saiu pelo portão de madeira que dava a altura de seu busto, carregando uma carta. Não se saberá o que havia nela escrito, pois faz pouquíssimo tempo a escondeu embaixo de um xale xadrez pendente em seus braços, enquanto cruzava a sua frente Maciel. Andava a se esquivar do mundo, como se devesse algo ou alguma responsabilidade lhe sobrepesasse os ombros. Não se sabe. O que notou Josias de sua banca foi a acentuada suspeição com o que saía às pressas, não sem antes alternar olhares para os lados. Apertou os passos, alertando Josias, que nada tinha a fazer a não ser observar a vida alheia. Dona Júlia, segundo me disse, e já fazem vinte dias, virou a esquina, e voltou sem xale e sem carta dali uns minutos. Isso muito o intrigou. Pois cumprindo seu relatório​ semanal, a causa era Maciel que cruzara seu caminho. E todos sabiam porque, afinal era ele um dos de lá dos lados da General Osório; gente sedutora mas ruim até o fio de cabelo. Ao que tudo indica, Dona Júlia não quis confronta-lo. Sabia que esse gesto, assertivo, e que lhe perpetuara o título senhora de ferro, não era conveniente àquela altura. Era melhor deixar passar. Mas porque olhara tanto aos lados, antes da pisada firme até dobrar a esquina? Bem, isso Josias não sabia explicar. Todos nós desconfiamos daquela história que nos contou a seguir. O que dizer da reputação de um bisbilhoteiro senão que para não perder o hábito de viver a vida dos outros deve emendar história​s com a raspa do tacho?

Não era personagem digno de confiança Sr. Josias "pela metade", como preferíamos chama-lo. Era pela metade que vivia a informar os fregueses que iam ciscar cigarros e papéis do bicho em sua banca. Josias era arvorado e gostava de esticar o pescoço para fora de sua pequena banca, um cone de metro e meio de circunferência, para contar as novas do bairro. Sem ele o bairro, bem era outro bairro... Ele sabia de tudo e todo mundo. Chegamos a pensar que ele fosse um leva-e-trás do dops, mas era um tanto bocudo demais para isso. Em todo caso, dentre muitas versões para o sucedido, ele nos contou o que disse ser de primeira mão.

Foi numa terça-feira​ chuvosa que havia estado mais cedo para abertura da banca, que viu saírem dois homens da casa da Dona Júlia; "havia sangue neles! Juro por Deus!" Disse com tanta convicção e gestos nervosos, a esfregar as mãos em suas calças de sarja, que não pudemos senão ouvi-lo, abismados. Mas enfim foi nos contando tudo o que viu: que roupa usavam os supostos homens, como saíram cambaleando, um deles com a mão no antebraço como se o amparasse, e o outro, arrastando um pedaço de pau encardido, vestindo um terno surrado; "fiquei​ assustado! Logo pensei que a haviam matado. Mas logo depois, com o sol raiando, ela saiu pela porta, toda arrumada como se fosse as compras! O que pensar? Só pode ser o que estou dizendo, oras!" Rimos um pouco da perplexidade que ainda o arrebatava, e pessoalmente, julguei que ele vira o resultado de uma noite mal dormida sua e o escuro da manhã. Fui para casa, e vinte dias depois Josias pela metade saiu nos jornais, de um modo que eu nunca imaginaria possível.

Disseram os jornais que Josias havia sido da milícia especial, e por essa razão, soubera identificar a tempo a série de fatos conectados​ com o que a sede metropolitana fôra, da noite para o dia, trespassada de falsos alardes e informações desencontradas que obscureceram as investigações do caso do matão. Josias contou aos repórteres que tudo teve início em dois homens ensanguentados, passando pela avenida numa manhã de terça feira, mas não mencionara Dona Júlia. Fiquei pasmo quando abri o jornal hoje, no balcão da padaria, e li essa manchete “Dono de banca revela o caso do Matão”. Como era possível? Josias vivia de tramóias e fofocas. Era o oposto a um espírito detetivesco qualquer. Entornei meu café que desceu queimando, cruzei a praça, e tomei a Avenida das nações.

Quando cheguei na altura da banca avistei Josias em meio a um círculo de curiosos a rodear sua banca. Desacelerei os passos, acendi um cigarro, e fui sentar no banco do calçadão. Não quis causar mais alvoroço perguntando por Dona Júlia na frente daquelas pessoas. Creio ficaram por lá uns vinte minutos. E tão logo se foram “Josias que história é essa dos homens? E Dona Júlia, como ficou nisso tudo?” Ele olhou pra mim, como quem olha pela primeira vez; “não conheço nenhuma Dona Júlia!” Por um momento achei que estava de brincadeira, embora não houvesse razão para isso, dadas as circunstâncias aterradoras do caso. Mas ele não parecia brincar com minha exaltação. Insisti na pergunta; “mas já disse. Não conheço nenhuma Dona Júlia!” Chegou a ficar nervoso dessa vez, e tive que perguntar, imaginando que não pudesse me contar algo publicamente; “Josias sou eu, você pode me contar. O que aconteceu com Dona Júlia?” Ele olhou para mim, retirando os óculos de perto de seu rosto; “sim, eu sei que é você. Nos conhecemos a dez anos. Mas estou te dizendo, não sei quem é Dona Júlia”. Minhas reações devem ter sido tão desconexas que não consegui formar palavra. Olhei-o atônito, me demorei um pouco naquele gesto, totalmente perplexo, e fui embora pelo mesmo caminho.


# 2 Em casa, inconformado, andava de um lado para o outro inquieto, parando na janela, de quando em quando, cortina entreaberta, vidros cerrados, a olhar a movimentação do lado de fora. Passavam carros nada mais; nenhum a velocidade média, pensou. Era quase certo. Tudo não passava de engano. Porque Josias havia agido daquela maneira estranha? Não conseguia atinar as razões. Ah não ser fossem as mesmas que o implicariam mais tarde. Fumava como um louco, acendendo outro cigarro tão logo chegava próximo ao filtro. Não se pode dizer que meditava, mas que tentava em vão expurgar medo antigo. Estava escrito; Josias fôra da milícia especial. Como? Com pensamentos já bastante desordenados sentou no sofá e ficou olhando a televisão desligada, seu reflexo distorcido nela; cabeça apoiada no espaldar dormiu por um breve instante, com a vaga imagem de Dona Júlia a bruxulear. Sonhou que o mundo se apagava em noite, visto de uma sala de aula onde deveria estar; as luzes todas apagadas, saía correndo como todos pelas ruas da universidade, fugindo do escuro avançado, e um farol de carro piscava em meio a densa neblina chamando por seu nome; correu ainda mais para acordar suado na poltrona sua casa; "sonho estranho!", inquietou-se. Não soube precisar quanto tempo dormira; a roupa amarrotada a escorrer suor pela face "Preciso falar com Silas." Levantou-se e saiu de casa novamente.