O pêndulo

Andre Ribeiro
Jul 30, 2017 · 8 min read

{prológo} :: Um amigo disse «tua vida, a minha, a de todos nós é como um pêndulo; oscila incessante! E nesse movimento convertemos tudo noutra coisa. Repara, todos os paradoxos nascem disso». Conversamos horas sobre essa condição humana. Nossa existência conjunta foi tudo o que precisamos para pensar.


A vida oscila.
Voltamos nossa face a outra margem por onde repousam num belo jardim nossos desejos e esperanças. Somos assim efeitos de uma projeção intermitente como um cinematógrafo que projeta suas ilusões. É olhando certas imagens à distância de uma oscilação que vamos assim vivendo cada vez mais distantes de nós mesmos.

O pêndulo é toda a nossa existência conformada aos delírios de uma vida postergada pela incompletude que nos define. Vamos vivendo sem conquistas, pois estão todas escondidas em nossos corações.

Atados a este movimento deixamos de compreender que o peso é o que faz a oscilação. É pela clausura dos sentidos de uma vida submersa em profundezas irrecuperáveis que, como um Atlas a carregar o peso do mundo nas costas, somos incapazes de enxergar o que se passa tão próximo.

Toda a distância por que pautamos nosso exercício de viver é regida por esta proximidade cada vez mais densa e imperceptivelmente obscura; sutil ocaso. Não haverá libertação senão na soltura deste peso estranho que não chega a se sentir pesado.

Nesse ínterim vamos assim oscilando vagarosamente e freneticamente como podemos. E nossas paixões não cessarão de administrar nossos modos de viver e de exaltar o outro lado à distância próxima de nós mesmos.


Qual saímos dessa prosa (reino da abstração mágica) estamos em outro lugar: um velho amigo a contar para mais de trinta anos; sentados numa esquina de nossa infância, pedimos ao garçom alguns desejos: “quatro esfihas e duas cocas”. Comemos e sorvemos tudo avidamente como antes éramos felizes. Reparamos no tempo em que passamos ali, atados as questões fundamentais de nossas vidas, no que ele desatou o silêncio: «Compreendo que tu disse. Gastei dez anos de minha vida sem fazer nada. Apenas pensando nisso» Ele queria me dizer o quanto somos vítimas de nossas próprias intenções projetadas sobre outras coisas, nunca nossas, as que julgamos não nos pertencer. Falávamos sobre o desejo de viver uma vida que é a dos outros. Falávamos sobretudo de uma alteridade radical onde o outro não é apenas um jeito de ser mas é objeto de fascínio; a bem da verdade é coisa qualquer, muda a cada instante dentro de nossos sonhos. Reconhecemos, caminhando de lá para cá buscando sentidos em certas realizações, nada mais fazíamos do que medir tudo pelo grau de infelicidade que nos afligia de imediato. Era como se a cada passo na vida, tudo aquilo por que passássemos, e significasse para nós uma etapa, era como se tudo fosse convertido em algo de outra natureza alheia e distante de nossas condutas e projetos de vida. Como se fossem coisas que nos escapassem, ou que se furtassem aos nossos sonhos. Uma difícil questão se colocava adiante: “como viver desapegado de tais coisas?” Toda a nossa cultura era exercício da palavra e do pensamento. Mas pensar era algo absolutamente distinto de viver cru e nu os acontecimentos; era a sede vulgar de Criador. A imagem do pêndulo veio a propósito de uma aporia de sentido. Pensávamos sobretudo nesta forma paradoxal com que o indivíduo humano vive se estendendo sobre o mundo, trocando o fundamento de sua existência ao sabor do vento. Como exemplo falávamos de certas personalidades da vida atual que tendo iniciado suas vidas públicas de um modo esteticamente instituído — uma forma legitimada de se constituir socialmente — terminavam operando no outro extremo que de início tanto repudiavam. Foi no ensejo de tentar compreender este movimento, este paradoxo da existência, onde um indivíduo perpetua-se em extratos contraditórios, diz “Sim” e depois diz “Não” a coisa tida importante ou inalienável, como tal contradição estruturava um princípio de viver. Não era fácil responder ou situar tal questionamento. Contudo nos era claro isto: os paradoxos pelo que se é liberal consigo mesmo e intransigente com o outro revela uma questão mais humana acerca das paisagens que nos projetam limites. Para elucida-la toma-se como exemplo um conto de Edgar Alan Poe “O poço e o pêndulo”.

:: > clínica de um sujeito distituído

Escrito em 1842, Poe dá forma sensorial a uma angústia profunda, diametralmente oposta àquela em “Os últimos dias de um condenado” de Victor Hugo. A história de “O poço e o pêndulo” se desenrola a partir de um vulto que perpassa a mente de um condenado à suplício terrível na aparição fantasmática de seus juízes e de uma culpa que não chega a ser declarada. Diferente de Hugo que busca narrar a história de um homem no testemunho de uma personagem que recompõe seu processo social na leitura das inscrições nas paredes de sua cela, daqueles condenados que o sucederam — e assim matiza a história numa descontinuidade planejada para constituir uma revelação final, na supressão do sujeito — , aqui o mestre de Baltimore propõe um retrato do desespero voraz que conduz o indivíduo a um doloroso processo de abstração, na tentativa de assegurar a unidade de um sujeito estilhaçado em claustro inconcebível, ao ponto em que a reconstrução da consciência é sua única e vã possibilidade de interromper tal processo. É pois de um conflito tremendo, projetado o narrador ao primeiro plano da escrita, que Poe vai tecendo um retrato de uma lucidez característica a quem só resta pensar, analisar, ponderar. Se em Hugo a personagem medita longamente, e durante dias, aqui toda reflexão é infligida por um abismo de ansiedades e temores incalculáveis! Numa situação limite, surreal, o pensamento analítico é o mote chave desse conto, não fosse a única e breve entrada que Poe dá logo no início, indicando um outro tempo subjacente à narrativa — “Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras” — poderíamos crer que o relato passa inteiramente no presente;

“Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença — a terrível sentença de morte — foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. […] Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi. Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras,…”

Instalado num escuro, simbólico e real, onde vai descobrindo inimagináveis instrumentos de tortura — o poço repleto de ratos, a comida envenenada, o pêndulo feito de uma pesada navalha, as paredes de metal incandescentes, a prensa alucinante — o narrador é jogado a frente das situações, como se por elas pudesse retirar de seu pensamento o peso de sua desgraça para assim refletir e ponderar seu estado. O profundo horror da personagem é experimentado pelo filtro analítico de uma racionalidade, acima de tudo, livre das torturas das prisões. O tema sabemos é antigo. Sobrepõe-se à experiência do horror a convicção de que é preciso pensar e repor o senso perdido à razão tida como incorruptível.

“Fiz um esforço para respirar. A espessa escuridão parecia oprimir-me e sufocar-me. A atmosfera estava intoleravelmente confinada. Conservei-me ainda quietamente deitado, fazendo esforços para exercitar minha razão”

Poe vai construindo esse cenário insólito, na dispersão dos temores lucidamente premidos à razão do personagem, que recusa a enlouquecer. E eis o que mais interessa: confinado entre paredes de uma masmorra obscura ele (o narrador) se vê impedido de contar a sua história regressa; o passado lhe é furtado pela força que a realidade assustadora o impele a desgastar sua narrativa, buscando romper com os sentidos que revelariam a sua condição presente. Nessa experiência forçada ao extremo sua atitude é um exercício da observação e cálculo como na experiência dos ratos, roendo as amarras besuntadas com restos de carne, sobre seu corpo subjugado, na esperança de libertação.

“Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam as centenas sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pescoço; seus focinhos, frios, procuravam meus lábios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma determinação sobre-humana continuei imóvel. Não errei em meus cálculos; todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal, que estava livre.”

É de uma convicção incrível a estrutura dessa personagem na justaposição da narrativa interior à descrição analítica da cena que o oprime. Poe entende no fantástico uma razão sóbria, límpida, isenta de alucinações, quase como se a voz não pertencesse ao corpo em suplício; fala fora da corporificação que a constituíria noutros casos; aqui o exterior é o espelho projetado de suas aflições, configurado nos aparelhos da tortura psicológica; é o humano cingido. A tarefa sobre humana da personagem caracterizada pelo exercício da análise em meio ao terror, dissociada de psicologismos, é a sua própria condição de existência. É de se pensar como se daria sua evolução fora deste cenário aterrador. No entanto o conto é encerrado na entrada triunfal de seu libertador.

Livre! Eu apenas escapara de morrer numa forma de agonia para ser entregue a qualquer outra forma pior do que a morte. Com tal pensamento, girei os olhos nervosamente, em volta, sobre as paredes de aço que me circundavam. (…) Fugi… mas as paredes, a apertar-se impeliam-me irresistivelmente adiante. Afinal, para meu corpo queimado e torcido, não havia mais de uma polegada de solo firme no soalho da prisão. Não lutei mais, a agonia de minha alma, porém, se exalou num grito alto, longo e final de desespero. Senti que oscilava sobre a borda… (…) Um braço estendido agarrou o meu, quando eu caia, desfalecido, no abismo. Era o do General Lasalle. O exército francês entrara em Toledo.

Nota-se em Poe um exercício de constrição da existência de um indivíduo em imagens únicas e aterradoras, como a dizer nas horas fatais do que se trata fazer uma radiografia de um sujeito fraturado. Desconsiderando o fantástico, chegamos ao ponto em que as nossas próprias projeções de vida, partilhadas naquela esquina de nossa infância, compactuavam com essa forma de premir os anseios numa paisagem obstruída pelo excesso de clínica e laboratório de pensamentos. Éramos, por assim dizer, nossos próprios juízes e os aparatos de tortura; podíamos enxergar todas as variações na leitura de nossas vidas arrastadas no tempo do pêndulo derradeiro, cuja amplitude aumenta progressivamente, cada vez mais próximo, cada vez mais presente numa espécie de sensação final, com a qual lutávamos para romper com as amarras de uma vez por todas. Contudo, sempre foi claro que não é possível se libertar plenamente de todos aqueles mecanismos que desconfiguram nossos modos de ser, simultaneamente, indivíduos e paisagens. De alguma forma que não compreendemos éramos cativos da existência a volta. Uma resposta final poderia se dar na elaboração de uma forma de se desprender da tirania dos outros (juízes e algozes) em nós. Foi assim que ele disse «afinal, o que fazer senão seguir se desobstruindo? querer se libertar das amarras é princípio da vida. Mas enxergamos isto?»

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