# olhares e palavras

avessos metafísicos

# olhares da dúvida recaem quando me vejo projetado nos olhos dos outros; chego a duvidar se falam de mim ou de outra pessoa que as representa e que não sou eu. Aconteceu esses dias de um aluno escrever em uma de suas postagens: «agradeço ao professor pelas palavras que mudaram toda a minha concepção criativa», como se pelo discurso houvesse eu operado um milagre. O poder das palavras atrelado a uma personalidade que se admira é por demais intrusivo para quem não nos incomodemos de pensa-las. De um modo geral, as palavras direcionadas a uma ordem criativa, quando busca impactar, nos contextos onde se ensina alguma espécie de arte, elas são como que personagens envoltos em subscrições a uma cultura de fundo não esclarecida. Por essa razão, não raro, quer-se dizer uma coisa e se termina por se dizer outra. E não se trata aqui de entendimento entre duas partes em posições assimétricas — o que fala e o que ouve –, e sim que a comunicação das palavras passa por um filtro anterior desejoso por firmar histórias particulares na produção de sentidos concretos. Quem ouve (e é costume dizer: “ouve o que quer”) na verdade, quer outra coisa próxima a uma confirmação, por parte de quem diz, que vá recolocar os desejos e as pequenas certezas nas ordens das ações e tomadas de ação individuais. Contudo, é o caso segundo o qual nada é realmente dito, senão redito quanto as expectativas alheias e fragilizadas, aguardando o momento de realização de sua brevidade exata: saber que se está na direção certa. A confirmação das palavras se dá por um duplo processo de distanciamento daquele que diz em relação à cultura que o subscreve e aquele que escuta aguardando confirmação de suas expectativas, não raro, flutuantes e à espera de um território onde possa fixar a bandeira. São estas considerações minhas que me saltam no momento em que leio sua postagem. Em todo caso as palavras não estavam lá escritas, as quais tenho certeza não me recordo. De tudo resta apenas o silêncio e o sentimento atribuído.