Pós tudo, eis tudo !
Já faz algumas semanas que estive encostado naquele balcão da lanchonete, tomando um café a escutá-lo. – Mas como foi que aconteceu pra você? – Foi difícil sorrir e contar uma história virtuosa. Causa perplexidade dizer como foi que eu cheguei até aqui. Olhando-o nos olhos, um recém formado, ainda nos passos intermediários entre a saída da universidade e as incertezas de se encontrar na vida, um mau estar veio à tona. Ele balançava a cabeça cabisbaixo, em desacordo com a vida, querendo dizer “não faço ideia do que fazer a seguir…” Enquanto tomava meu café, pensava solitariamente “pois, eu também não meu caro!” Não disse isso, é claro, mas pensei comigo “essa cena já se prolongou demais”.
Alí estava um jovem afetado pela performance acadêmica, na qual fora espectador durante meia década, e que no resumo das horas felizes, como tantos outros, se deu conta da cortina caindo. Ei-lo agora fora da cena que o caracterizava um personagem silencioso, um receptor de todos os sonhos e virtudes travestidas de grandes honrarias; ei-lo agora encostado num balcão ordinário, a pôr a vida na balança comum do sentido das escolhas. Como dizer a ele que aquilo era só o começo das preocupações, e na melhor das hipóteses iria sucumbir ao desejo de se ver longe de todos os protagonistas de sua alucinante estadia nos palcos fantásticos da academia? Por onde iniciar meus conselhos que não fosse pela rejeição de tudo que vira e achava ter absorvido para uso próprio em sua vida? Faltaram-me as palavras para que dissesse coisa que valesse à pena. Cheguei a pensar num ato de consolação em que todos os esforços valem à pena, e que a vida nos reserva um propósito maior, eis o futuro, viva o presente… Contudo, seria desonesto de minha parte dissimular-lhe as frustrações e expectativas. Apostando as fichas nos sofrimentos e nas desilusões que ele (ou eu) acreditava ter herdado ao longo da vida universitária, alí expostos fariam apenas o efeito de uma encenação. Sabia no meu íntimo que nada seria fácil para ele. E por mais que quisesse atenuar-lhe as inseguranças e as questões impregnadas de melancolia, nunca diria nada de útil, já que eu mesmo nunca ouvi resposta que valesse a sair das bocas contemporâneas, herdeira dos fatos cotidianos.
Levantei pela segunda vez a xícara em direção aos meus lábios, observando o sombrio de seus olhos a perscrutar as coisas depositadas em cima do balcão. De repente, ele pega um paliteiro de plástico – quem é que faz uma coisa dessas? – indagou olhando pra mim. Voltando os olhos ao paliteiro, seu olhar penetrou no tubinho amarelo como quem vê algo se destacando. Rodeou-o na mão, virou de ponta cabeça, chacoalhou tentando tirar um palitinho. Saíram dois. Mau humorado falou – Minha vida é assim… vai pela sorte! Era mais que evidente o desamparo. Conversamos um pouco mais, bebericamos nossas xícaras, e desviamos a conversa para um assunto tolo qualquer, do qual já me esqueci por completo. Não conseguimos reproduzir o exercício do diálogo que noutros momentos viriam à tona nas salas de aula, que com muito empenho e atuação necessária vislumbraríamos uma saída aos nossos conflitos. Encostados no balcão não havia cena que pudéssemos reviver inteiramente, senão como uma lembrança sem sem nexo. Terminamos assim nosso café, e fomos embora sem dizer palavra.
– Até! Preciso dar aula
– Até! Também preciso ir embora. Subi as escadas, e ele saiu pela porta de entrada.
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Resolvi escrever este curta após ter presenciado, como professor, tantas entradas e saídas na universidade. No geral, aqueles que saem o fazem com mais dúvidas do que certezas. As escolhas lhes arrastam ao extremo da vida, diante do que buscam formas de apaziguar as inquietudes e manter os objetivos em consonância com andamento da nova vida. Muito me inquieta assistir tantas vezes jovens pós universitários se debaterem no processo da viva; menos glamour, mais incertezas e indefinições. Esta pequena história é real, aconteceu. Apenas foi aqui um pouco encenada. (Nota do autor).