primeiro dia de aula
#dias de aula {estudo} ~ 1

Caminhando pelo gramado decorre um bom tempo até que o olhar se ajuste a arquitetura do local. Um misto de parque Ibirapuera com blocos de concreto retangulares enraizados no solo vermelho como se tivessem caídos do céu. Forçando o olhar vê-se uma porta basculante vermelha dando acesso ao edifício térreo, sem andares. “O que é SG-4?”, pergunto ao funcionário que me conduz pelo campus. “Serviços Gerais” responde secamente. Não deixo de esboçar um sorriso incrédulo, que passa desapercebido no semblante de meu acompanhante. Agora um pouco mais próximo ao edifício os detalhes vão ficando mais nítidos. O aspecto geral é semelhante ao de uma casamata militar: uma estrutura retangular deitada no solo expõe alguns rasgos verticais que servem de janelas, e uma porta central, de dimensões iguais as das janelas, onde se ergue o avermelhado portão. Quando a porta é cerrada confere ao edifício a impressão de um bunker selado.
~ De alguma maneira o departamento de música da universidade foi inscrito neste edifício funcional, fato que meu acompanhante não soube explicar o porquê. “Vixe moço, sei não! Nada faz sentido aqui.” Nosso passeio termina na entrada do prédio com o dedo de meu acompanhante apontando a sala onde daria minha primeira aula. Era quatro de janeiro de dois mil e dezesseis. Não encontrei uma vivalma dentro do edifício da música. Com apenas um corredor interno, a semelhança de um cárcere, dispunha salas à esquerda opostas às da direita, cada qual com uma pequena janela vigia para que um olhar rápido pudesse verificar se cheia ou vazia. As salas mantinham o essencial para o funcionamento: cadeiras de braço, lousa e uma mesa de madeira de verniz escurecido, suponho, proveniente de alguma repartição pública; as gavetas sem trilhos não mais abriam, o tampo descascado continha uma infinidade de assinaturas e pichações indiscerníveis, resquícios de depredações a contar décadas. Custei a achar uma cadeira que servisse a este espólio doutras eras. De imediato, chama minha atenção um micro system enjaulado a altura da cabeça. Intrigado olho ao redor e vejo também um projetor dentro de uma jaula suspensa, pendente do forro; clausura de eletrônicos. Pergunto “mas o que é isso?” Olha-me sorrateiramente e diz “roubam as coisas por aqui, viu! Tome é muito cuidado!” enquanto fico imaginando os professores em reunião votarem pelo enjaular dos aparelhos eletrônicos. O funcionário se vai para o lado de fora do edifício. Perambulo um pouco mais pela sala vazia e abafada, e seguindo seu exemplo retorno ao ar livre.
~ Do lado de fora, em banquinhos improvisados, os funcionários contavam dias infinitos sentados numa sombra qualquer com os olhares vidrados nos celulares, única medida de tempo para se fingir fora daquela paisagem sem alma. Por essa razão um simples “Bom dia!”, como ocorreu tantas vezes, despertava mau humor incomensurável, como se o ato de levantar e andar dez passos fosse tarefa altamente excruciante. “Que foi?”; com muita calma concentrada eu respondia “Olá, sou o novo professor, lembra? Preciso que abra a porta. Pode ser?” A solicitação injetava mais irritação nos humores à beira de explodirem. Nenhum dos funcionários suportava tomar consciência de que pertencia àquele lugar. Afinal de contas, passar os dias debaixo de sombras variáveis, espantando mosquitos, e abrindo e fechando portas a todos os desorientados que por ali, e por acaso, passassem, constituía uma mitigação das penas de uma vida desperdiçada no bafo do verão, sem alento outro que não fosse a ausência de seres a interferir na monotonia pretendida. Por certo preferiam que lá nada acontecesse; queriam o despovoado para que pudessem, ao fim do dia, retornar as suas casas sem lembrança qualquer, sem queixa ou satisfação, mas apenas reiteração do desejo de que os dias passassem logo.
~ Foi por esta época de solidão anterior ao início do ano letivo que, como professor concursado sobre a promessa de trabalhar na pós graduação, fui destacado para a graduação; precisamente no ‘Curso de Verão’. Uma espécie de intensivo de férias para aqueles alunos que precisavam, desesperadamente, se formar. Entrar naquele edifício vazio, no auge do verão, para o meu primeiro dia de aula foi uma dura prova, convém dizer, cinco dias após o velório de meu pai. Iniciava o ano amparado pelo testemunho frio e silencioso das paredes de concreto.

~ Pouco a pouco os alunos foram chegando, uns acanhados, outros indiferentes, alguns animados; “Bom dia, meu nome é… antes de iniciar o nosso curso queria saber um pouco à respeito de cada um de vocês.” Feitas as apresentações, agora já num segundo momento, em que se intercalaram algumas conversas informais sobre a vida pós universidade (afinal a maioria estava para se formar) uma jovem atira palavras como quem atira pedras em quaisquer coisas para se livrar de peso insuportável; “o que não entendo é que vocês que defendem tanto a liberdade sejam ao mesmo tempo, absolutamente, os mais fechados para tudo que acontece a volta!” A violência com que a crítica fora feita num primeiro dia de aula levou tempo para ser processada em minha mente desconcentrada, haja vista como me mantinha suspenso em luto pelo meu pai.
~ Nem cheguei a responder, quando ela, de canto, esquivando seu olhar ressentido do meu, se deu conta de ter dito coisas sem pensar. No entanto, outras cabeças assentiram, e resumiram a vozinha incômoda em sua mente. Ainda tentei emendar as conversas; mas foi outro aluno quem disse “Olha, todos escolhemos estar aqui! Não é culpa do professor os problemas que enfrentamos. Cada um que lide com suas faltas de certezas.” Suas palavras suspenderam os efeitos da melancolia anterior, e entramos na aula, falando sobre estudo, educação e sentido da vida artística. Foi possível ver os semblantes desanuviarem, e esquecerem as encruzilhadas que frequentemente nos confunde o norte.
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{comentário} já faz tempo que mantenho o costume de tomar notas de minhas experiências artísticas e educacionais. Ao transcreve-las aqui desejo dar forma narrativa àquilo que se passa entre a experiência individual e o estado de vida ao redor. Acredito no esforço de tomar essas notas narrativas como sendo um exercício de reflexão sobre as ‘práticas de si’ na vida, por onde se inscrevem as experiências de ensino. De outro modo, à semelhança de um diário, ao refletir sobre aquilo que vivo posso tomar ciência das determinações que nos envolvem, e assim optar por melhores caminhos que suscitem um cuidado interior no exercício da docência.