# enquanto professor se volta a ser aluno

avessos metafísicos

# das relações que me atribuo tal e qual uma personalidade bem quista recordo apenas de uma situação concreta, quando fui professor no departamento de música da Universidade de São Paulo no período de 2013 a 2014. Fosse o desejo de realização ou ansiedade no cumprimento das promessas individuais, fosse o que fosse, me vi como que revestido de sacralidades, as mais ordinárias: ser professor de uma instituição renomada fez meus olhos voltarem àqueles tempos em que eu era estudante, ouvinte neste mesmo departamento. Um conflito de ordem profunda se instalou de imediato; como ensinar a ser o que não me ensinaram? Nos olhares e nos entendimentos das muitas pessoas foras da universidade minha entrada neste novo território era como que um termo final de uma realização, a partir do que nada precisaria ser mais feito, a coroa desceria lentamente em minha cabeça. Eram, pois, em suas impressões momento de alegria e usufruto. Sentia-me justamente o contrário. Aflito, era então professor instituição de prestígio. O que fazer com isto? A primeira medida que levei a efeito, a tomar raízes em mim, foi romper com essas roupagens de professor consagrado, e voltar a ser aluno. Tinha plena certeza que só poderia fazer algo nesta situação se compreendesse as forças que me moviam até ali, e que nunca cessaram de existir, enquanto eu ainda permanecia aluno. Decerto era uma espécie de inquietude fundamental que me movia. Não se tratava absolutamente de ensinar, mas de reconstruir caminhos, reabrir aquelas veredas antigas da promessa e da realização dos sonhos. Dei-me conta de que tudo estava perdido em algum canto da memória, encarnado em meus atos de vida e sensações, a coordenar todas as lógicas de minha existência. Sentia todas estas coisas como o vento frenético que assomava minhas percepções mais incisivas. Sem dúvida fui professor naquela instituição, mas apenas porque aprendi novamente a ser aluno, a reviver os traumas, as dúvidas, as facetas escondidas por debaixo do tecido a que chamamos de desejo. Fui me descobrindo, assim, uma pessoa realizada, traumatizada em algum sentido, superada em outros, de modo que posso afirmar saber ensinar na medida que sei o que consigo aprender. Está neste ponto toda a minha consciência de trabalho: só é possível ensinar aquilo que se vive enquanto se ama o que se faz, e se dá a plena atividade de uma convicção humana.