que semestre

~ {resumo de ação} :: encerra o semestre no descumprimento total do programa; alocado numa disciplina de educação musical para as turmas de licenciatura da universidade foi me proposto que lá dissesse tudo aquilo que constitui o panorama atual de minhas pesquisas em música chinesa antiga e/ou poéticas musicais contemporâneas. Desnecessário dizer que tal coisa não se cumpriu exatamente. Tendo falado duas ou três aulas sobre este assunto, dada a desconexão geral com que se esticavam as aulas, de certo modo inoportunas, tomei uma decisão inédita: joguei tudo para o alto, proposta e programa, e carreguei a turma através do campus; foram diversas aulas em que caminhamos pelos espaços públicos, cantinas, lanchonetes, bibliotecas, sebos, cafés, gramados, monumentos, descasos e ocupações. Em todos estes lugares, de pé ou sentados, falamos, observamos, conversamos, percebemos, dizemos, confessamos toda as nossas ex-in-sistências por lá. Foi como dar dimensão nova às vidas reunidas nesses encontros, e que tomamos por um conjunto. Cada um de nós despidos das roupagens aluno e professor avançou questões e emoções, sem programas a cercear o nosso espírito pretensioso. Afinal do que se trata a educação? A pergunta em estado de suspensão constituía o universo paralelo às nossas aulas-encontro. Julgamos pertinente que os diálogos formassem cada consciência em face do acontecimento preenchido de sonhos, desejos, práticas e decisões. Em cada encontro uma questão aberta se dispersava por nós — o que é a criação? como ser um artista? como música é trabalho? como se deve estudar? com que psicologia? qual vida profissional? — perguntávamos por coisas quaisquer absolutamente firmes de que tal prática se integrava às nossas vidas de alguma maneira. Tudo o que se passava nesses encontros, no exato momento, nos dizia como nos atravessavam as outras vidas e modos de relações dentro e fora da sala. Foram diversos relatos e percepções, algumas postadas em blogs e mídias sociais. Tudo para dizer que as experiências acontecem apenas se ficamos expostos às instabilidades e inseguranças de uma travessia, em cuja outra margem nos encontramos refeitos em um pouco mais certos de todas as coisas. A vida moderna e a falta de reflexão nos impede de compreender as descontinuidades de nossas vidas, assim como escurece as tomadas de decisão, uma vez que nunca se tem certeza do chão em que se pisa. Portanto, esse exercício que levamos a efeito durante um semestre formou uma espécie de prática, um guia sólido e tão flexível quanto o viver, para que deste modo nossos caminhos sejam pautados pela uma razão mais interna. O gesto nada ortodoxo de pôr abaixo um programa, oposto a um naufrágio, foi a melhor forma de dissipar com as fronteiras que nos se colocam quando escolhemos ser com alguém algo realizado em tudo aquilo que nos move a seguir adiante. Fechamos o semestre na certeza de que os outros não serão nunca mais iguais. De todos sabemos isto: nossas vidas precisam ser nossas!