sexto dia a sala vazia

:: dias de aula {estudo} ~ 6

~ um pouco sentado, um pouco de pé, ponho a solidão para descansar aguardando um qualquer; desatam-me os nós da consciência a contar as pichações e memórias atravessadas nesta sala de aula; chama a atenção aquele risco simétrico, quase imperceptível, no canto extremo da sala, logo abaixo do forro; uma espécie de insígnia estranha transparece por debaixo de um véu opaco de tinta branca recentemente pintada; em qual história se pode imagina-la, saber porque permanece ali? Certamente a mão que a inscreveu na superfície bruta não sabe das formas atuais deste prédio; cogito a possibilidade da marca ter sido feita décadas atrás, pois mesmo transparecendo por detrás da tinta recente é possível enxergar outros pigmentos de outras cores salpicadas por cima, entre o branco ralo e o vermelho da marca; no entanto é preciso examinar mais de perto. Mas devo dizer antes disso; quando este lugar está às moscas as velhas presenças vêm à tona, como esta árvore entre os prédios sem jardim e nem bancos, sem história oposta ao concreto armado todo sujo e suas janelas basculantes de falso abrir-e-fechar, e também essas grades hostis, repintadas tantas vezes, por onde se vê os banquinhos de madeira trazidos de casa pelos vigias, às vezes umas cadeiras giratórias com estofo saltando para fora em frente as mesas e gavetas imaginárias, saindo de lá nenhum apetrecho; há também estes caminhos de terra interrompidos atrás dos prédios e as bitucas espalhadas pelo chão (nenhum fumante), e o velho porteiro arrastando os pés, rosto encimesmado e as chaves dependuradas no cinto, encostado lá longe noutra margem da existência numa prosa clandestina, e as caçambas de lixo desapropriadas – nem sacos, nem lixos – somente tralhas amontoadas «objet trouvé», e o poste de luz estampado de alto a baixo com telefones de prostitutas, há também as rodas de tijolo baiano a volta de um latão de tinta para aquecer as poucas noites inventadas de inverno, se vê aqui a placa da morte pregada no grande Ypê..., os objetos situados na medida inveterada dos olhos se vão carregados nas imagens, sempre as mesmas noutras ordens desnorteadas. Se fossem histórias seriam restos desencontrados que ninguém quis encadear. O servilismo, entretanto, inflama, e ao redor todas as vozes segregadas, as que riscaram essas paredes no espaço da memória, se instalam enquanto coleção de estruturas ausentes; sentidos e significados evaporam num instante diante de ti.


Suspendo o devaneio para examinar melhor este risco simétrico, insígnia estranha, e me recordo a respeito do que pensava;

... / momentos antes de entrar no último devaneio da despedida, neste mesmo prédio, de frente as portas erradas encontro um ex-colega perambulando no vazio dos departamentos da música, e a palavra "departamento" logo soa uma extradição dos sentidos ao ouvido desacostumado tal como o meu; ele nem repara que estamos sozinhos. Pergunta: «para onde foram todos? Meio triste este lugar vazio, não acha?». Usa as palavras erradas ao se expressar; mas toda sua tristeza referida ao lugar contém apagados traços de uma satisfação que já não é mais plena; portanto hesito. O local de nossa despretensiosa conversa em nada é triste – nem monumentos, nem utopias –; tudo que se vê são uns restos inaproveitáveis de ruínas e desolação eternamente gestadas nas salas de aulas vazias. Quando lhe assalta a tristeza é uma alegria por não se dar conta de que o ausente é toda a condição de existência por ali.

«Nem tanto!» exponho; «triste é quando está ocupado», digo a ele sem pestanejar, «você não sabia que hoje é greve geral?». Ele nem chega a arregalar os olhos; mexe nas pastas a procura de algo, e se vê forçado a dizer alguma coisa «sim, sim! esse país não tem jeito. Que vamos fazer? Nunca irá mudar».

~ Não são melancólicas as frases desconexas com que se desculpa pelo desconhecimento das vidas ao redor. Penso, tal qual um estrangeiro, “o mundo gira em outras órbitas”. Segundo se diz por aí nas entrelinhas tudo se resume a certa normalidade porque sempre foi assim que se fez, de um modo bem desinteressado, para a vida seguir adiante sem a menor sombra das dúvidas. Não há crise ou miséria nestas salas; tudo é pretexto de estar no mesmo lugar em face das mesmas coisas, sem critério algum ou decisão que valha o esforço de mudar os cenários.

~ Um lapso de tempo se propaga entre nós, e ele se esforça em dizer «alunos são sempre assim: um dia estão todos, outro dia nenhum. Não há o que fazer. Vêm quando querem, e se vão viver a vida». Suas frases desconjugam as maneiras de precipitar uma conversa. Nada falo. Olho as paredes e sou absorvido pelos rabiscos e pichações. Embora as luzes estivessem acesas não haviam rodas de violão onde se joga conversa fiada. Apenas as luzes amarelas dos postes incidindo pelas frestas da casa mata nas salas perpetuamente vazias; exala cansaço. Meu quase companheiro, ainda olha para os lados em busca de alguém, e como nada encontra, volta-se a mim «bem, hoje vamos mais cedo para casa. Que tal isso?». Não consegui reunir esforços para dizer que sim. Esboçei meu melhor sorriso – o teu mesmo de agora – e fui-me embora antes dele.

~ No caminho dei de frente a uma grande árvore desfolhada, onde um cartaz amarrado a durex trazia «todos juntos, até o fim, resistiremos!» e a letra “E” encarnada, outro signo do incerto.

/... e aquela marca deixada para trás na memória da sala ganha dimensão. Se alguém riscou-a foi para demarcar um território — para mim — não há dúvida quanto a isso; protesto? em todo caso eternizada ali ficou, tal como esse tronco cuja estrutura se dissipa no cartaz no “E”!