uma carta para o futuro

: ensaio > “renascer é possível?”

Para renascer é preciso girar os calcanhares e olhar por cima do mundo a tuas costas; perceber o que não se percebe, recontar os dias passados que não se conta, enxergar o fundo de ficção que anima a todas as coisas – épuras e desejos. Filho nunca somos um, mas muitos debaixo de uma só pele que lançam nossa face contra o tempo. Se você me perguntar o que prezo mais nessa vida te direi com toda certeza é o resto de humanidade que nos subtrai dessa vida tola, que é a dos outros – os que vivem o fruto do desencanto do mundo, nas águas de muitos narcisos revoltados, sangue nos olhos, prontos a atirar pedras a menor das banalidades. Olha bem a tua volta e verá como muitos nem sabem porque vivem. Copiam uns aos outros nos exercícios mais fúteis; se perdem em ocasos, se debatem em dúvidas estúpidas, se disputam a tapas e intolerâncias nas ordinariedades de uma vida acabada...

Mas é nós?

Somos de outra sorte de coisas; somos feitos de outros acontecimentos deixados todos para trás. Somos todas as coisas deixadas de lado ao largo da existência pelas lentes autoritárias do capital, e que passa por aqui como o vento; graças a isso vivemos sonhando fora da ficção, fora dessa metamorfose de gentes sem esteio, sem estofo sem norte ou princípio humano. E assim renascemos todos os dias mais fortes e maleáveis.

Para renascer é preciso criar a coragem de um gigante que caminha sem nem se dar conta dos próprios passos. Nosso ímpeto é redescobrir a vida, desvelar o sonho, sonhar, voar, e inverter as leituras todas; a tudo nos pertence o viver simplesmente; tal e qual, se possa viver amando nuvens, córregos, riachos, bichos, casas, livros, pessoas. Somos eu e você de outra espécie humana: nascemos para sonhar e estender as margens de nossos sonhos a volta de todos; que se banhem conosco de invenções e artifícios se assim o quiserem, afinal, somos muitos. E por isso cá estamos a escrever.

Nem por isso pense que essas palavras traçam um testemunho. A escrita derradeira não está nem no hoje, nem no futuro; ela se reserva de um passado. Como dizer que aquilo que é teu fundamento todo de existir não se encontra aqui, nem algures? É tua respiração exalada que aponta este teu dilema, teu ser de nascimento. Você nasce no momento em que as brumas do ocaso se intensificam nas vidas editadas com o único propósito de satisfazer todos os desejos. Saiba que não somos estes. Aguardamos desde então cultivando nossos interiores, tão logo se revele a mão de Deus. Mas que Deus é este se não somos crentes?

A vida moderna e a estupidez caminham juntas; de nossa geração não se pode dizer nem que ela se perdeu, pois tudo que fez foi alargar as fronteiras amargas do inconsciente, liberando todas as pulsões indiscriminadamente. Cada indivíduo que existe hoje é um manancial de inquietudes e ilusões que não desembocam em riacho algum. Uma nova forma de irracionalidade está em cena na forma como os indivíduos se consagram inconscientes em todos os sentidos; sendo um destes o desejo de sobrevivência a todo custo, a custo da própria condição humana. Já não somos rodeados por aquela cultura humanística abraçada com as formas de emancipação dos indivíduos, onde os desejos ocupavam uma estante imaginária de projetos e irrealizações, onde a vontade era uma expressão provisória direcionada as planícies desérticas do Ser.

O humanismo extinto era uma cultura de ideias e fabulações, quase sempre ingênuas, mas de formação. Com ela nos balizava o exercício frágil da generosidade e compaixão. Isto anda a se perder diante de uma memória escassa. As atualizações sob a égide do algoritmo – uma nova forma de tirania – refletem o total desprezo pelo encontro, diálogo, compreensão, escuta e convivência. Todos os narcisistas operam sob a máscara da ausência de um futuro, por isso não se incomodam para o além de si. Em seu lugar (de um futuro) uma nova forma de teologia emerge em torno dos ideais de realização de vidas orientadas unicamente pelo desejo infantil de prevalecer em todos os cenários, como se a vida fosse feita de satisfações eternas digitalizadas e consumíveis. Nossos antepassados de classe já pensavam assim, embora nunca tenham realizado nada mais do que as suas muitas mortes. É preciso pois compreender tudo isso sobre o fundo sutil do ocaso (Eros beijando Hades) para que se tire daí um senso de vida. Nessas imersões vamos descolorindo as paisagens, pondo a mostra as verdadeiras cores por debaixo dos muitos véus da sedução. De nossas vidas provém uma riqueza inestimável: a de redescobrir a nós mesmos neste velho mundo novo