Sobre aeroportos, torcidas e elitização

No ano de 1968, a delegação da Seleção Brasileira desembarcava em Lourenço Marques (atual Maputo), capital de Moçambique, que à época era uma das colônias portuguesas em solo africano, para realizar um amistoso contra a Seleção de Portugal. Chegando ao aeroporto, os jogadores se deparam com uma multidão gritando em uníssono o nome de Pelé, fato que se repetiu no hotel, nos treinos e também nos arredores do estádio onde a partida seria disputada. No entanto, essa aglomeração ao redor do estádio seria o limite para a tão entusiasmada multidão, já que o preço dos ingressos era muito caro e apenas os portugueses mais ricos conseguiriam assistir à partida. Os africanos, apesar de toda a empolgação, ficaram sem ver o jogo. Isso te lembra algum outro caso semelhante?

Pouco menos de um ano atrás, no dia 20 de julho de 2016, a torcida do Flamengo comparecia em peso no Aeroporto Santos Dumont para recepcionar o novo reforço do clube, o meia Diego. Esse costume de receber o clube no aeroporto acabou se difundindo e várias outras equipes do Brasil aderiram à prática. Olhando além da festa da torcida, existe algum problema nisso?

Torcedores do Flamengo recepcionando o clube no Aeroporto Santos Dumont.

A festa que os torcedores fazem nos aeroportos cria uma atmosfera incrível de aproximação entre clube e torcida e isso passa longe de ser um problema (mesmo que alguns insistam em dizer o contrário). O problema está no fato de o torcedor comum, ou seja, a maioria da torcida precisar desse novo espaço para se relacionar de fato com seu clube de coração.

Com ingressos cada vez mais caros e, por muitas vezes, inacessíveis à grande maioria dos torcedores, o aeroporto surgiu como um novo espaço de interação do torcedor para com o seu clube. Uma verdadeira manifestação da exclusão do torcedor comum das novas Arenas e do Futebol Business. O torcedor precisou se reinventar para estar próximo do seu clube e para entoar mais uma vez o grito dos excluídos. Vamos tentar entender melhor essa situação.

Arenas, perfil do torcedor e preço dos ingressos

Com o anúncio do Brasil como país sede da Copa do Mundo de 2014, alguns estádios foram construídos, enquanto outros passaram por reformas. A necessidade de se enquadar num certo “padrão FIFA” foi a peça chave para a modernização dos estádios brasileiros, que agora passariam a ser chamados de Arenas. Agora mais modernas e mais confortáveis, as novas Arenas estavam prontas para receber o público. Mas qual público?

Uma pesquisa realizada e compartilhada pela revista Época, em 2015, revela que o ingresso brasileiro é o mais caro e inacessível do mundo. A mesma pesquisa mostra ainda que um torcedor brasileiro que ganhe um salário mínimo precisa trabalhar durante dez horas e 18 minutos para conseguir comprar o ingresso mais barato à disposição, o que mostra como o futebol, que antes era ‘esporte de povão’, está cada vez mais elitizado.

Com as Arenas vendendo mais conforto, mais modernidade e alguns serviços que acabam até mesmo fugindo da esfera do futebol, o preço do ingresso no futebol brasileiro disparou como nunca e hoje atrai um público mais elitizado, ao passo que exclui o torcedor comum que não pode bancar os novos preços.

Clubes como empresas e o futebol como negócio

Com a saída dos torcedores pertencentes às camadas mais populares, entra em cena o torcedor-consumidor. Ele paga mais caro pelo ‘espetáculo’ e deseja ser atendido da melhor maneira possível, com todos as regalias a que tem direito, o que acaba transformando as Arenas numa área de consumo, voltada para o atendimento de torcedores mais ricos.

Pesquisadores acreditam que esse processo de ‘elitização do futebol’ e do estádio como uma área de consumo tenha começado em 1999 com a reforma do Maracanã, que acabou reduzindo a capacidade reduzida. Outro caso é o da construção da Arena da Baixada, em Curitiba, estádio que teve como maiores inspirações os modelos ingleses, onde o estádio era voltado para um público mais rico e mais espectador do que torcedor. Começava ali a exclusão do tão folclórico torcedor brasileiro.

Um caso mais recente é o da Allianz Arena, ou Arena Palestra Itália, estádio do Palmeiras. Inaugurada em novembro de 2014, a nova Arena é hoje um dos maiores estádios do país, ainda mais quando o assunto é conforto. Moderna e com os mais diversos serviços à disposição do torcedor que pague o (caro) ingresso, o novo estádio é um ótimo exemplo do processo de elitização pelo qual o Brasil passa atualmente. Infelizmente, para o torcedor comum, os preços por lá também são altos e afastam grande parte da torcida que não pode arcar com os custos da nova ‘experiência palestrina’.

Ação com torcedores palmeirenses em partida disputada na Allianz Arena.

Iniciativas de sucesso e a volta da camada popular

Felizmente nem tudo está perdido para as classes populares que anseiam participar do espetáculo. Pelo menos não quando falamos de Internacional e América Mineiro, clubes que disputam a segunda divisão do campeonato nacional. A lógica é simples: ingressos mais baratos fazem com que mais torcedores possam ir ao estádio apoiar o time, gerando também mais receita para o clube.

O América Mineiro deu início, no começo desse ano, ao projeto de popularização do futebol. Com ingressos entre 5 e 20 reais, o clube mineiro obteve um aumento de 50% na média de público, além de alcançar um lucro de 15% maior na bilheteria. O diretor de marketing, Erley Lemos fala sobre a iniciativa:

“Uma pesquisa recente mostra que temos torcedores distribuídos em todas as classes sociais. Precisamos quebrar o rótulo, que vem de um passado muito distante, de que o América é um time da elite. Hoje fazemos questão de acolher a camada menos favorecida da sociedade e remar contra a corrente para que ela volte a abrilhantar o espetáculo do futebol.

Já o Internacional criou uma nova modalidade de sócio-torcedor, que também alcançasse as camadas mais populares. Sendo assim, torcedores que estudem em escola pública, recebam algum benefício do governo ou ganhem menos de um salário e meio poderão pagar a quantia de 10 reais por mês e garantir, pela mesma quantia, o ingresso para qualquer jogo do clube colorado. Sobre o novo projeto, o vice-presidente de administração do Inter, Alessandro Barcellos afirma:

“Nos orgulhamos de ser um clube de origem popular, por isso, a nova modalidade foi um tema bastante discutido. Fizemos várias análises e estudos para comprovar a viabilidade do projeto. O retorno dessa fatia de público vai ajudar a melhorar a ocupação do nosso estádio.

Todos sabemos do alto custo que é manter um time, ainda mais um time que pretende estar em alto nível, tanto em questão de estrutura quanto de elenco, mas o dinheiro não pode excluir os torcedores. É a torcida que sustenta e apóia o time, os torcedores são a alma do clube e não podem ser excluídos por questões financeiras, pois o futebol sempre foi questão de paixão e não de consumo.

As contas ainda devem ser pagas e ninguém está aqui para defender que uma pessoa ‘x’ é menos torcedor do que ‘y’ por sua condição financeira. Os clubes precisam achar uma forma de agradar gregos e troianos e deixar a experiência do futebol acessível tanto para um quanto para outro. Uma opção viável seria a criação de um setor com preços mais acessíveis, como a falecida Geral do Maracanã, ou o espaço da Muralha Amarela, famosa torcida do Borussia Dortmund. O importante é que o futebol volte para as mãos daqueles que o fizeram ser o maior esporte do mundo. Que o futebol volte a ser, como o esporte da visão do ex-técnico da Seleção Brasileira, João Saldanha, que defendia o futebol como um ramo da arte popular. Que o futebol possa ser arte, mas uma arte para todos e não para alguns.