Como eu fiquei viúva

Tenho 45 anos. Meu marido tinha 55.

Hoje faz pouco mais de duas semanas que ele morreu. Foi no dia 27 de abril. Nós havíamos comemorado em março, 10 anos de casados.

Naquele dia 27, passamos a tarde juntos, fazendo coisas caseiras até a hora de sairmos para pegar nossa filha na escola e de lá irmos para nossas aulas de tênis. Como fazíamos sempre, tivemos nossas aulas, mas ele jogou mais do que devia. Se cansou muito e depois de muito cansado foi desafiado a jogar mais um set. Ele ganhou os três jogos naquele dia e sacou bem o danado. Mas saiu muito suado, muito esgotado fisicamente.

Eram quase 8 horas da noite. Fomos andando até o carro, nós três, colocamos as raquetes na mala do carro, entramos e começamos a descer a serrinha de volta, uma estrada bem estreita curvilínea e escura, como a maioria das estradas pelas quais passamos aqui onde moramos.

Ele comentou que teve um “teto preto” quando levantou ali depois do jogo pra pegar um copo dagua. Que estava super cansado. Mais alguns metros e ele parou o carro numa curva e disse que eu deveria continuar dirigindo. Saí pela minha porta em direção à dele e ele à minha, mas ele não entrou no carro. Se jogou de costas no mato e colocou as pernas sobre o banco do carona, dizendo estar com sensação de pressão baixa, sentindo muito cansaço. A estrada era muito sinuosa, no meio do mato, sem luz, ninguém passava. O celular não ligava pra lugar nenhum e o Zé era pesado, estava quase desmaiado no chão e eu não conseguia colocá-lo no carro. Fiquei ao lado dele que estava semi consciente, não respondia às minhas perguntas e suava abundamnetemente, pálido, foi muito difícil levantá-lo sozinha, ele tinha uns 80 quilos. A Nina começou a chorar assustada, gritava que estava com medo que o pai morresse, eu tentava administrar aquela situação, pedindo calma — “Confia na mamãe” — até que o Zé num breve momento de clareza entendeu o problema e levantou um pouco a ponto de eu conseguir sentá-lo parcialmente e acomodar o resto com as pernas dobradas sobre o painel do carro e o banco reclinado. Desci a estrada e passei em frente à Unimed de Itaipava às 20:15. O pronto socorro que fecha às 8 da noite. Se você enfartar depois das oito em Itaipava está frito. Fui pela estrada em direção à Corrêas para deixar a NIna com a minha mãe e continuar até Petrópolis, no outro hospital da Unimed que fica no Bingen, a mais ou menos 40 minutos dali. Meu pai entrou no carro conosco e fui o mais rápido que pude. O Zé com muita dor, muito suado, muito pálido.

Ao chegarmos ao hospital, pedi uma maca urgente, mas a coisa foi meio lenta e demoraram alguns minutos para trazer uma cadeira de rodas. O Zé foi para a emergência sentado, lúcido, enumerando todos os seus sintomas. Peruntaram: “Ortopedia?” Ele apontou para o peito e respondeu: “ É coração.” Descreveu ainda muita dor no peito, muito cansaço, e uma sensação constante de pressão baixa, de desmaio.

Ele foi para a enfermaria e logo fizeram um eletrocardiograma.
O médico disse textualmente que ele não estava enfartando, porque o eletro estava normal, a pressão deu 11 por 7, normal, uma mocinha furou o dedo para ver glicose. Ela disse: “140, tá ótima.” Ligamos pra Nina que estava em casa preocupada, com seus 8 anos. Eles se falaram. Ele disse: “Nina, papai está melhorando, um beijo.” Enquanto isso, ele reclamava de muita dor no peito e da pressão baixa, pedia algum remédio, o médico negou todas as queixas, até o ponto da impaciência, quando disse em tom professoral: “Fique calmo, o senhor já está no soro, está deitado, não vai desmaiar” Foi quando ele disse pela última vez: “Estou desmaiando”. Seus pés começaram a tremer, seus braços também e ele teve ali na frente de todos na enfermaria uma convulsão forte. Me mandaram segurar seus pés para o alto. Naquele momento, o cardiologista de plantão finalmente percebeu que algo sério estava acontecendo e começou uma correria para reanimá-lo. Colocaram um ferro em sua garganta, respirador, massagem no peito, eu segurando suas pernas e queriam me tirar da enfermaria porque eu gritava que eles não sabiam o que estavam fazendo e pedia que fôssemos pro Santa Tereza. Eles gritavam: “Tragam uma maca.” E eu gritava mais ainda: “Cadê a maca, me digam eu eu pego a maca, vamos logo!” A maca chegou, eles levaram o Zé para o CTI. No caminho, ao lado do cardiologista de plantão perguntei enquanto corria: “Ele está vivo?” Ele me olhou, mas não disse nada e foram embora. Saí para a sala de espera, vi meu pai que acabara de fazer suas pontes de safena e aguardava, como aguardamos alguém que vai sair bem dali, e disse do meu jeito atabalhoado: “Fodeu!”
Ele fez uma cara desesperada e eu em segundos me refiz, segurei o meu desespero para não ter outra vítima comigo, sentei ao seu lado e disse da maneira mais calma que pude que achava que o Zé estava morto.

Ficamos mais de uma hora na sala de espera, com aquela certeza estranha de que o Zé estava morto, sem nenhuma notícia, até que resolvi andar por dentro da enfermaria de novo e encontrei um cara quem perguntei: “Você pode me dizer se meu marido está vivo ou morto?” Ele me respondeu: “Ele está numa parada cardíaca e estamos tentando reverter.” Eles esquecem que não somos idiotas, esquecem sempre. Revertendo uma parada cardíaca ha mais de uma hora. Depois de mais ou menos uma hora e meia da morte do Zé, que eu presenciei, recebi um telefonema, ali na sala de espera do hospital, de um médico conhecido meu que a pedido da equipe fez o trabalho difícil de me dar a notícia da morte do meu amado Zé pelo celular. Isso, fizeram uma tabelinha. Nunca mais vi o plantonista, dr. Aloísio, o cardiologista que interpretou todas as queixas e sinais como uma hipoglicemia. Eles deram mais um tempinho pra viúva se refazer naquela sala revestida de porcelanato com cadeiras de plástico e finalmente vieram me comunicar oficialmente e me deixar ver mais uma vez o meu amor. Entrei no hospital às 21:30, e quando resolveram falar comigo era algo em torno de 1 da manhã, quando fui orientada a ir à funerária, à minha casa pegar roupas, para voltar à funerária, para então ir ao cartório e seguir para o velório. Depois de dirigir 40 minutos de madrugada, com a saiota de tênis que usava, debaixo de uma chuvinha petropolitana bem fina, chegar em casa, entrar em nosso closet, escolher a camisa da Richards que a filha mais velha havia dado pra ele outro dia, a calça, o sapato que ele gostava, levar até a funerária, a 40 minutos da minha casa, cheguei na casa da minha mãe às 3 da manhã. Entrei no Facebook e enviei email aos amigos que pude lembrar e passei os piores momentos da minha vida, tendo ainda que manter alguma normalidade no café da manhã da minha filha, para quem eu não fazia ideia de como contar o que havia acontecido. Levei até a porta da escola, de lá passei no cartório para pegar a certidão de óbito e fui para o velório. Passei alguns dias virada, tive que contar para minha filha, na volta da escola que o papai tinha morrido. “Não disse?!” ela gritou e chorou.
Foi a tarefa mais difícil que tive na vida, além de ter que ligar para a filha mais velha, a irmã, a melhor amiga, etc. Tudo tão brutal. E assim meu doce amado amigo delicioso companheiro partiu.

O diretor do hospital me chamou, a mim e meu pai alguns dias depois para pedir desculpas pelo atendimento equivocado. Ele sentiu muito.

Está na hora de pensarmos em algumas mudanças fundamentais, que podem determinar a vida ou a morte de cada um de nós quando precisamos de um atendimento de emergência, independentemente de termos ou não um bom plano de saúde. Hoje me parece que se há uma coisa importante nessa hora é o pistolão, é o médico conhecido, com influência no CTI, na emergência, que dê um comando para que a equipe acorde, pare de ver a novela e aja como nós romanticamente imaginamos que deveria ser: O médico de uma emergência pode agir como quem realmente se importa, ouve e quer salvar aquele paciente que chega passando mal, ou ainda ele pode agir com paixão e vaidade e tentar descobrir mesmo que seja por um desafio pessoal e profissional, de que mal aquele paciente está sendo acometido e tentar reverte-lo, mas nunca com preguiça, morosidade, desrespeito. E a pior das moléstias que afeta os médicos hoje em dia, tanto nos hospitais como nos consultórios: não nos ouvem. Vamos lá, dizemos o que sentimos e aquilo que antigamente era suficiente para bons diagnósticos, hoje é ouvido com descaso, com deboche. Não nos tocam, não nos apalpam, não nos olham, não acreditam em nada que não seja uma ressonância, um contraste, uma câmera sendo enfiada dentro da gente. Sem essa parafernália, nós pacientes não servimos para nada. Querem nos invadir, nos violentar, nos entupir de radiação para depois sentados bem longe da gente em suas mesas, olhar os exames e os laudos dos exames e sentenciar: é isso, é aquilo. Mas não querem mais ouvir, conversar, perguntar sobre nossos pais, martelar nosso joelho, olhar pra cara da gente, pra nossa pele, ouvir nosso coração, nossa respiração, apertar nossa barriga.
Isso não.

Itaipava, maio de 2010 — A Viúva Verde

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