Falando de merda

Estou fazendo uma pequena obra em casa, que inclui um novo banheiro. Para ele funcionar tenho que ligá-lo à rede de esgoto existente na minha casa. Moro no mato, comprei ha 14 anos esta casa onde moro. O proprietário havia acabado de construir. Sou arquiteta, me incomodei com alguns acabamentos matados, mas no geral a casa era legal. Comprei e durante todos esses anos fui constatando que as maiores falhas estão nas instalações elétricas.
Fui então procurar o cano de 100 que deveria estar levando o esgoto primário (vulgo cocô) até a fossa que desaguaria finalmente num sumidouro, onde sonhamos que toda aquela bosta suma delicadamente penetrando a terra que ha de nos comer a todos um dia.

Surprise. O esgoto segue por duas caixas que não fazem nada além de uma passagem e vão diretamente para um sumidouro na parte mais baixa do terreno. Desde a descoberta, fiquei uns 2 dias entalada com a ideia de tanta bosta em um buraco de 6 metros e resolvi comprar um biodogestor que receberá todo o cocô da casa, tratalo-á, liberará um resíduo que poderá irrigar o jardim e o resto disso tudo bem tratado, aí sim, vai pro sumidouro.
Eu e meu caseiro abrimos uma das caixas de passagem, retiramos uma parte de terra que estava sobre a lama espessa. Pensei que acharia um crânio indígena.

Chamei então um serviço de limpa-fossa. Minha semana girou em torno de assuntos escatológicos. Todo mundo aqui em casa passou a pensar e falar em cocô. O pessoal da obra, raciocinando sobre os caminhos da merda. Eu entre a minha consiência ecológica e arquitetônica e a opinião do empreiteiro que achava que um cocô a mais não mudaria nada. Por ele , deixaria tudo indo pra mesma cova funda de 6 metros. 
O limpa-fossa chegou com seu caminhão à vácuo e um tanque com capacidade de 7 metros cúbicos de merda. Recebi os três funcionários que botaram a tromba pra fora, enfiaram no buraco do cocô - perceba como essa assunto é esquisito - e ficamos ali, durante meia hora batendo papo sobre o cotidiano de homens que passam a vida sugando cocô na casa dos outros. O mais velho diz que entra em casa, tira a roupa na área e segue pelado até o banheiro, porque a mulher não deixa entrar pela casa com a roupa que trabalhou o dia todo. Foi um papo muito animado.

A escatologia é a ponta do iceberg, porque sob essa caricatura, o que estava em jogo eram 14 anos de familiares, amigos, funcionários fazendo cocô relaxadamente aqui na mnha casa. Todo cocô que meu falecido marido fez durante todos aqueles anos estavam ali guardados. Ali tinha muita história, por um momento senti uma nostalgia. Conversamos muito sobre isso aqui em casa nesses últimos dias. Imagino quanto material genético hava ali dentro. Celulas tronco, talvez? Quem sabe a cura para o mal de Parkinson pudesse estar ali naquela montanha de merda. 
Agora os 7 metros cúbicos de bosta de tanta gente querida está na estação de tratamento das Águas do Imperador e meu sumidouro está pronto pra outra, mas agora recebrá tratamento VIP. 
Virei uma página importante da minha vida, me livrei daquela merda toda.

Não estranhamente, sinto mais leveza no ar.