//Resignificação do consumo: da indústria cultural à indústria criativa

Há quase 70 anos, a indústria cultural alterou a forma como entendemos e consumimos a arte e a cultura. Hoje, amadurecida e repaginada como indústria criativa, concentra seus esforços na impulsão dos segmentos artísticos e tecnológicos assimilando os aprendizados do passado.

O termo indústria cultural surgiu em 1947, no ensaio ‘Dialética do Esclarecimento’ publicado por Adorno & Horkheimer. Nele os autores criticam a arte na sociedade capitalista industrial, a partir do momento em que ela e a cultura se tornaram uma indústria de massa.

Conforme afirma Machado (2009), a indústria cultural traz arraigada em sua origem a transformação da cultura em bens de consumo, onde o indivíduo não possui um papel protagonista, mas de mero objeto consumidor. Isto pode ser um reflexo da revolução industrial, na qual o produto passou a ser fabricado em larga escala e consumido de forma massificada.

Desta forma, o termo indústria cultural carrega em sua essência a valorização da produção cultural humana com o objetivo de comercializá-la em bens de consumo padronizados, tangíveis ou intangíveis, atendendo aos anseios de uma grande massa. Sob esta ótica, a arte e a cultura tiveram seu capital intelectual influenciado pelo mercado de consumo, marcando, segundo LLOSA (2012) o início do declínio da arte.

“Os padrões teriam resultado originariamente das necessidades dos consumidores: eis por que são aceitos sem resistência. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série.”
- Adorno-Horkheimer, 1947.

Este contexto foi fortemente impulsionado pela tecnologia digital e gerou a necessidade de resignificar o formato de consumo cultural vigente, estabelecendo um novo modelo de produção: a indústria criativa.

A RESIGNIFICAÇÃO DO CONSUMO

De acordo com SANTOS &JUDICE (2007), entende-se por indústria criativa como o conjunto de atividades com origem na criatividade, nos talentos e nas habilidades individuais, com potencial para gerar renda com produtos ou serviços ligados a entretenimento, artes e lazer.

Pautada na cultura do conhecimento e da informação, esta indústria tem obtido um papel de destaque entre as grandes economias mundiais. Segundo MATEOS-GARCIA-BAKHSHI (2016), estatísticas oficiais do Reino Unido mostram que a indústria criativa foi responsável por cerca de 81,4 mil milhões de libras esterlinas, ou 5,2% do total da economia entre 2013 e 2014.

Hoje, a indústria criativa engloba 13 grandes segmentos de mercado: publicidade, arquitetura, artes e antiguidades, artesanato, design, design de moda, cinema, games, música, artes cênicas, escrita e publicação, software, televisão e rádio” (NEWBIGIN, J).

Mesmo com este cenário favorável, alguns autores mantém suas críticas quanto à desvalorização da cultura artística (capital intelectual e humano), ponto que sofreu alteração da indústria cultura para a criativa e que agora é afetado pelo domínio do campo da tecnologia sobre a arte.

“…o instinto me diz que não teremos amanhã nenhum novo Shakespeare, um novo Mozart ou Beethoven, nem um Michelangelo…, mas eu sei que teremos um novo Newton, um novo Einstein, um novo Darwin… Sem dúvida alguma. Isso me assusta, porque uma cultura desprovida de grandes obras estéticas é uma cultura pobre. ” (STEINER, 2016)

O CAMINHO DA INDÚSTRIA CRIATIVA

É difícil chegar a um consenso sobre este tema. Ao analisar os movimentos da indústria cultural, vê-se que a abertura dos núcleos artísticos junto ao grande público pode ter contribuido para a massificação extrema da cultura até a degradação do seu significado simbólico para apenas seu valor de mercado.

Parece que a padronização de temas imposta pelo mercado de consumo fez com que a arte e a cultura perdessem suas características mais relevantes: confronto, crítica e imposição de mudanças à sociedade.

Neste sentido, a indústria criativa foi incumbida de tirar a imagem negativa gerada por sua antecessora e garantir a preservação e evolução do capital cultural humano. Este é um grande fardo a carregar.

Mas ao encarar o avanço tecnológico como um passo na evolução humana, nota-se que a economia criativa permitiu uma nova descentralização e reconfiguração da produção artística e cultural. O indivíduo deixou de ser exclusivamente consumidor para se tornar um membro ativo, produtor de conteúdo.

Talvez esta seja sua grande contribuição até o momento e represente seu potencial de inovação. Pessoas criando com e para pessoas. Uma oportunidade para amplificar exponencialmente a liberdade criativa e imaginativa, produzindo, a cada dia, novas formas originais e disruptivas nos campos da arte e cultura.

** Artigo criado para a cadeira de Indústrias Criativas da Pós-graduação em Comunicação e Tendências da Universidade de Lisboa.

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Fontes:
• Machado, R M (2009). Da Indústria Cultural à Economia Criativa.
revistaalceu.com.puc-rio.br/media/Alceu%2018_artigo%206%20(pp83%20a%2095).pdf
• Mateos-Garcia, J & Bakhshi, H (2016). The Geography of Creativity in the UK: Creative clusters, creative people and creative networks.
www.thecreativeindustries.co.uk/uk-creative-overview/news-and-views/news-creative-businesses-growing-across-uk-regions
• Adorno, T W & Horkheimer, M (1947). A Indústria Cultural: O esclarecimento como mistificação das massas. Dialética do Esclarecimento — Fargmentos Filosóficos (p. 57–79).
• Steiner, G (2016). George Steiner: “Estamos matando os sonhos de nossos filhos”.
brasil.elpais.com/brasil/2016/06/29/cultura/1467214901_163889.html
• Mateos-Garcia, J & Bakhshi, H (2016). The Geography of Creativity in the UK: Creative clusters, creative people and creative networks.
www.thecreativeindustries.co.uk/uk-creative-overview/news-and-views/news-creative-businesses-growing-across-uk-regions
• Estratégia nacional de investigação e inovação. Diagnóstico de apoio às jornadas de reflexão estratégica. ICC Indústrias Culturais e Criativas. w
ww.fct.pt/esp_inteligente/docs/IndustriasCriativas_ENEI_Coimbra.pdf
• SANTOS, F R & JUDICE, V M M (2007). Indústria Criativa e Desenvolvimento Local: Um Estudo da Vesperata de Diamantina (MG). XXXI Encontro da Anpad.
www.anpad.org.br/admin/pdf/GCT-C437.pdf
• Newbigin, J. What is the creative economy? British Council — Creative Economy.
creativeconomy.britishcouncil.org/guide/what-creative-economy/
• Llosa, M V (2012). A civilização do espetáculo. Quetzal Editores.

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