Envelhecer

Medo? Experiência? Perdas? Ganhos? Satisfação?

Três gerações

pela década dos noventas vi as minhas avós envelhecerem. Quando eu ainda não era nascida, a minha avó materna teve um derrame, um acidente vascular cerebral (AVC), que a deixou com uma sequela de não poder mexer um braço. Ela, porém, gostava muito de conversar. No ano em que ela faleceu eu estava no cursinho pré-vestibular. Quando eu voltava pra casa depois das aulas ela perguntava como tinha sido a aula, como eu estava, o que tinha aprendido, etc. Eu sentia que ela perguntava com bastante interesse sobre a minha vida e os acontecimentos no geral. Eram momentos bem marcantes. Nos últimos anos da sua vida ela já não podia caminhar. Como não podia cobrir-se sozinha na cama, ela pedia ajuda, e logo em seguida agradecia. Mesmo quando já não estava com total lucidez, a presença dela fazia uma enorme diferença para mim. Quanta alegria tinha em viver, em ser cuidada, em ouvir as notícias no rádio para se atualizar sobre o mundo, em estar arrumada. Me ensinou a me valorizar. Hoje eu a tenho internamente. Viveu até os 85 anos. Para mim, ela é uma referência sobre como envelhecer.

Minha avó e sua prole

Já me fiz, por várias vezes, as seguintes perguntas: Como será quando eu envelhecer? Será que estarei com saúde? Estarei sozinha? Terei dinheiro suficiente para fazer as coisas que preciso? Sei que não é possível controlar tudo na vida para que eu não tenha nenhuma doença, para passar por essa fase sem nenhum sofrimento, e não é isso que eu procuro. Aprendi que desde que nascemos estamos envelhecendo e que — claro — nenhum de nós sabe exatamente quando será o dia da nossa morte. Essa é uma das poucas certezas da vida: que todo dia estamos envelhecendo. Mas falar sobre envelhecer é algo que muita gente, talvez você que chegou até aqui, não faz. Mas é muito necessário para poder chegar bem lá. O que significa? Num dicionário informal encontrei que envelhecer é a ‘ação natural do tempo que faz com que todo ser vivo envelheça, alterando sua aparência física, bem como as funcionalidades do seu corpo que passam a ser mais precárias.’ É um fato, todos estamos envelhecendo o tempo todo. Mas não se fala nisso.

A adaptação é algo que me tem instigado. A minha avó me mostrou o quão importante é estar atualizada e me adaptando constantemente ao que está acontecendo ao meu redor e comigo mesma. Temos a tendência de pensar que estamos prontos. Terminamos algum curso? Já estamos prontos. Não precisaremos estudar mais nada. Passamos por uma experiência marcante? Já não precisamos nos preparar mais, pois estamos prontos pra próxima.

Mentira. Podemos continuar a nos aprimorar. Sempre. Pelo menos sempre que estivermos vivos. A nossa criatividade, que nada mais é do que resolvermos problemas com respostas novas, só parará de ser utilizada quando morrermos. Adaptação. Essa é uma das chaves que nos abrirá muitas portas na vida.

Aprendi também que um aspecto importantíssimo conforme envelhecemos — ou seja, conforme vamos vivendo todo dia — são as nossas relações humanas. Podem ser com pessoas que conhecemos há tempos, com pessoas da situação atual ou com novas pessoas, mas a qualidade delas é o que importa. Podemos construir, manter e desfazer relações em todos os momentos da nossa vida. Isso nos mantém vivos. Uma amiga me contou que o sogro dela, que está com 83 anos e com câncer, fará um ano de casado daqui a alguns meses. Penso que essa é uma velhice que eu quero. Ativa. O afeto, as amizades, a sexualidade e outros prazeres podem estar presentes em qualquer fase da nossa vida. Basta nos abrirmos para ela — a vida — e para o que ela tem para nos oferecer. Novas boas relações quando velha. É isso que eu quero pra mim e desejo para você! E se colocarmos as lentes da criatividade, seremos ativos e protagonistas. E isso é outra coisa da qual podemos ter certeza na vida: nós podemos estar constantemente escolhendo sermos protagonistas das nossas vidas, dos nossos relacionamentos. Novas oportunidades. Novas respostas. Novos relacionamentos.

Ouvi o cantor e compositor brasileiro Eduardo Costa dizer, numa entrevista, que ‘é para machucar mais o pé do que ficar no celular’. É verdade. Penso que é importante sentirmos o melhor possível a fase em que estivermos vivendo, sendo crianças, jovens, adultos ou idosos, sendo ousados. Sendo seres humanos. Penso que envelhecer é saber usar adequadamente os nossos limites e as nossas potencialidades. E envelhecermos não é algo que acontece só quando estivermos idosos. Está acontecendo agora e em todas as fases da nossa vida.

Como estamos escolhendo envelhecer? Como escolhemos agir com o que a vida está fazendo conosco? Pensa nisso.


Se você enfrenta e afronta seu medo de envelhecer, o Arnaldo Antunes dedicou esta canção para você.

A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer
Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá
Pois ser eternamente adolescente nada é mais démodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr
Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer