A metalinguagem indireta de Batman V Superman

O fracasso de crítica de Batman V Superman tornou-se objeto de banalização. Até mesmo muitos que apenas utilizam a internet e não se interessam por cinema ou cultura pop podem ter se deparado com alguma manchete que noticiava a situação delicada do longa. Comentários e artigos acerca do assunto logo tornaram-se clichês saturados devido ao tsunami composto por um número exorbitante deles. Em um momento em que tantos possuem subconscientes programados para seguir restritamente o fluxo da influência generalizada que recebem, eles se multiplicaram como coelhos.

Por conta da minha ausência de interesse geral por filmes de super-heróis, embora existam alguns que aprecio fortemente, Batman V Superman era apenas mais um dos filmes que compunham grande parcela das manchetes de sites que cobrem cinema. No entanto, após cerca de pouco mais de um ano e meio da sua estreia, dei, enfim, uma chance para Zack Snyder me encantar, tal qual fez primorosamente em Watchmen.

A abordagem de Batman V Superman é esclarecida desde o princípio de maneira didática: um herói que tira vidas para as salvar e outro que se vê no papel de o parar, mesmo que inicialmente transpareça ser uma meta inatingível. Por outro lado, não é, em nenhum momento, um embate clássico entre o maléfico e o que se diz bom e verdadeiro, mas uma guerra entre o cinza e o cinza.

Porém, o longa é muito mais do que esse artifício narrativo que não tem caráter inédito tampouco exclusivo. Ele fala sobre si próprio sem explicitar que o faz.

A metalinguagem de Batman V Superman não se refere a tratar do código filme. Ele busca indagar sobre qual é a validade e relevância da existência de um super-herói. Tal questionamento é incorporado nas figuras de Batman e Superman, que, em diversos momentos da trama, vociferam um ao outro alegando que a maneira com que um age não é a mais ética e moral alcançável.

Uma figura comete atos destrutivos em escala de enorme tamanho, enquanto a outra os faz, contudo, em um outro sentido, em grau muito menor e por meio de métodos que resultam em consequências distintas. Enquanto um é a pura hipérbole, o outro é eufêmico, mas suas faces, juntas, são quase homogênicas. Assim, a hipocrisia reina com fulgor em ambos os lados e faz com que nenhum avalie a si mesmo profundamente.

Ambos se exibem como representações côngruas entre si. O sentimento individual-coletivo é o que motiva as suas ações, as quais executam de maneira privativa sem que os que serão afetados por essas nunca sejam ouvidos. A insatisfação da população para com o Superman é demasiadamente explorada no filme, assim como a referente ao Batman, porém, tal como a representação da sua imagem é pintada, vista sob um aspecto mais brando ante à do Homem de Aço. O desprezo é definitivamente presente.

Ao invés de ser egoísta e guardar a pergunta principal apenas para si próprio, o longa propõe, mesmo que aparente ser indireto, um diálogo ao espectador. As questões são postas de um modo que o meio de as responder esteja ligado ao sujeito. A importância ou não de haver heróis possui argumentos que são apresentados a esmo durante a trama. É como se Batman V Superman não apenas indagasse a ele próprio e à quem o assiste, mas também demonstrasse que possui opiniões individuais, entretanto relativizáveis e estendíveis ao outro plano.

Em seu final, Batman V Superman responde a própria indagação que uma vez propôs. O que levou Superman à morte é uma espécie de argumento derradeiro do longa para toda a discussão que o espectador tem com o filme. No entanto, não impõe de maneira autoritária o que acredita ser verdade. A sua visão deseja quebrar a falsa antítese que rodeava os personagens principais, mas democraticamente abre espaço para que quem assiste ponha a sua à mesa.

O falar sobre um tema utilizando o próprio tema é definitivamente um dos melhores aspectos de Batman V Superman: sutil, elegante e democrático. Uma metalinguagem não explícita impecável.