Remasterizações de videogames: a perda da forma original da arte

Com o surgimento do PlayStation 4 e Xbox One, uma parcela do público de videogames passou a vocalizar que ambos os consoles representam uma geração de remasterizações. Tal conclusão é fruto de uma análise superficial dos jogos remasterizados, que tiveram enorme força tanto no Xbox 360 como no PlayStation 3, além de se mostrarem no Nintendo Wii.
Embora seja uma prática adotada há décadas, a acensão da distribuição digital tornou-a mais comum do que antes via-se. O meio permitiu que muitos jogassem títulos há muitos anos lançados, os quais não poderiam ser jogados devido a sua inacessibilidade, uma vez que um usuário pode não ter possuído o aparelho onde tal título foi lançado primordialmente.

Além disso, em busca de torná-los palatáveis para o público que nunca teve contato no passado, alguns sofreram grandes mudanças, a exemplo de DuckTales: Remastered, lançado originalmente para NES em 1989, que recebeu uma versão repaginada em 2013. Oferecer apenas uma reimaginação da obra original é restringir a apreciação à expressão inicial.
A prática de remasterizações também é muito comum no cinema. Encontrar a versão original da primeira trilogia de Star Wars é uma tarefa que beira a impossibilidade. No mercado, são encontradas apenas edições onde têm-se inserções de cenas inéditas, melhorias no que concerne ao visual das antigas gravações, e trabalhos para tornar o som e trilha sonora mais aprazíveis ao público.
No entanto, apreciar as obras como originalmente foram concebidas é um sentimento que não virá se experienciarmos versões adaptadas para um tempo futuro, por menor que seja as alterações o em seu novo corpo; não tratam-se da arte original, mas variações dela.

De modo algum eu quero que isso soe como um manifesto contra ao desenvolvimento e publicação de remasterizações. Pelo contrário, é ótimo ter a oportunidade de jogar títulos que, caso não existisse a transposição para meios que possuímos, possivelmente não teríamos maneiras de acessá-los. Atualmente me encontro jogando a versão remasterizada de Metal Gear Solid 3: Snake Eater. Não trata-se da mesma que uma vez experienciei no PlayStation 2, mas sua variável que tentou adaptar o possível para que fosse factível ao público de videogames de 2011 e de anos posteriores.
Porém, eu não tenho acesso a versão original, seja pelo fato de que o Xbox 360 não a possui ou que não tenho mais em mãos o meu antigo PlayStation 2 com uma cópia do jogo. Definitivamente eu quero a apreciar novamente, mas não posso.
Imagine se toda e qualquer obra de arte tradicional fosse subjugada por outros que decidiriam se ela deveria receber uma repaginação a fim de adaptar-se ao momento da sociedade em questão. Pense um pouco como seria uma versão da Mona Lisa atualizada para o presente. De maneira alguma foi como Leonardo da Vinci a projetou. Apesar da arte ser um indivíduo onipresente que multa-se a medida de instantes, a obra deve ser alterada por seu artista, e ainda de modo que ele deseje que assim seja feito.
Como jogos geralmente são desenvolvidos por múltiplas pessoas, todas as opiniões divergentes se convergem a obra final que vemos. Não acredito, porém, que as atualizações para corrigir-se problemas técnicos do jogo sejam uma gritante mudança naquilo que uma vez foi finalizado, visto que, na maior parte das vezes, são os seus próprios artistas que fazem-nas. Em certo ângulo, tais correções ou aprimoramentos podem ser comparados a uma situação hipotética onde Michelangelo terminou a criação Pietà e acabou por deixar locais a serem lapidados. Ele não a adaptou para um tempo futuro, somente tentou fazer com que sua visão sobre a obra torne-se aquilo que de fato imaginou enquanto esculpia-a.
Um exemplo rápido e fácil é o remake de Final Fantasy VII. O que deixa a transparecer por parte da Square Enix é uma vontade de apresentar o jogo lançado em 1997 — três anos antes da minha chegada ao mundo — , mas sua reimaginação para o presente dos videogames não é o que o fez ser tão apreciado quanto foi lançado e em anos posteriores. É um novo quadro cujo o título se apropria de uma obra revolucionária (tanto para o bem como para o mal). Quando põe-se uma nova edição sobre a primordial e se coloca todos os holofotes a ela, o legado da original possivelmente não irá atingir o experienciador de maneira direta.

Embora o que eu tenha declarado aparente ser um completo manifesto contra as remasterizações, pontuo que não trata-se disso. Mesmo não possuindo o corpo completo concebido no passado, versões aprimoradas são um ótimo meio para jogar-se aquilo que não possuímos acesso, apesar de algumas precisarem de ser tratadas como títulos próprios e não ligados a um outro jogo — como, novamente, Final Fantasy VII Remake. No entanto é dever oferecer-nos a obra original, seja porque grandes mudanças foram inseridas ou certos detalhes adaptados para o novo tempo.
Contrariamente, videogames são extremamente relativos. Portanto, há uma imensa gama de casos nesse âmbito e cada um deve ser analisado, que podem ser inseridos em um campo isolado ou em um conjunto com vários outros similares.
Um jogo deve vir a nós com forma final de seu nascimento, seu corpo, entretanto, pode sofrer algumas alterações naturais ao meio, mas, ainda assim, deve permanecer com sua essência.
