Twin Peaks: Fire Walk With Me e a complexidade do incompreensível e do compreensível

André Alcântara
Aug 27, 2017 · 4 min read

Após algum tempo de ter começado a ver Twin Peaks, decidi assistir ao filme que se passa antes das duas primeiras temporadas. Porém, isso aconteceu apenas alguns meses depois.

Fire Walk With Me acompanha os últimos dias de vida de Laura Palmer, a qual tem sua morte como ponto de partida de toda a trama do seriado. O longa, lançado depois que a série havia sido finalizada, não trata-se apenas de uma prequel, mas a exposição das ideias que pareciam estar impregnadas a David Lynch enquanto produzia as primeiras temporadas. Porém, devido ao cunho comercial de Twin Peaks e por, na época, não possuir os louros que têm hoje, a sua imaginação precisou ser contida, somente para ser trazida à tona pouco tempo depois.

Na série, com as provas da investigação da morte de Laura, a multiplicidade de faces da personagem havia sido posta sobre a mesa. Mesmo morta e sem capacidade de ação direta que revelasse o seu eu, era possível sentir concreta e abstratamente a sua complexidade. A conclusão de um fato, assim como em diversos outros momentos da série, era quebrada facilmente pelas mãos de Lynch e Mark Frost. Era possível compreender quem era Laura Palmer, mas a junção final das peças se mostrava falha, pois existiam inúmeras outras formas de se pôr os fragmentos da real personagem.

O filme, por sua vez, busca elucidar o entendimento acerca de Laura.

Laura Palmer é o complexo a ser compreendido. Apesar de o filme mostrar, por diversas vezes, a personagem de maneira objetiva e concreta, lacunas ainda restam para sua total compreensão. A diversidade de Laura não provém do seu eu individual, mas é oriundo da clara interferência de outros personagens. A cada nova atuação de um em sua vida, a sua gama de faces parecia se dividir e formar novos pormenores que se condensavam ao todo e eram expostos eventualmente de maneira não coordenada. Não é possível determinar quando uma nova Laura se fará presente. Elas surgem.

A profundidade da personagem nunca se mostra por inteira. É como se descêssemos ao oceano, mas, em determinado ponto, nos deparássemos com um acidente geográfico. A nova a fundura se exibirá apenas se a elevação for ultrapassada. Conforme descemos, novos obstáculos naturais surgem. Conforme subimos, os ultrapassamos da mesma maneira. Assim é Laura Palmer.

Apesar de tudo, ela é a coisa compreensível. A coisa que conseguimos pegar com as mãos e, por mais difícil que seja entender o todo, interpretar de modo concreto. Porém, ainda assim, há espaço para concebê-la de modo subjetivo. Eu não confio na objetividade de David Lynch.

O incompreensível, entretanto, permeia Fire Walk With Me, e, para ser sincero, anda de mãos dadas com a compreensibilidade de Laura Palmer.

Embora o surrealismo esteja sendo explorado de maneira muito mais intensa na terceira temporada de Twin Peaks, o filme o abordou através de uma mistura de profundidade e superficialismo. As alegorias eram pinceladas e jogadas no meu rosto. Formas e cores começaram a surgir, mas o fluxo de informações não era acompanhado da capacidade de compreensão. As obras esculpidas ao longo de Fire Walk With Me queriam enamorar o sujeito. Elas não desejavam dizer algo para o todo.

O filme traz espíritos do Black Lodge que parecem querer falar com cada um que assiste ao longa distintamente. É já uma falha busca ansiar por encontrar a solidez em algo que se deforma e se forma na mesma proporção. Eles são a coisa incompreensível.

Não é possível compreender a complexidade daquilo que não pode-se entender. As entidades da outra dimensão gritam, mas, ao mesmo tempo, estão mudas. Você fala por elas, e, portanto, representam aquilo que deseja. Apesar de completamente incompreensível, os personagens do Black Lodge têm o complexo formado pelo espectador.

Diferentemente de Laura Palmer, os espíritos têm seu caráter alterado não por outros agentes da trama, mas por você; só para você.

Fire Walk With Me foi capaz de me ensinar a importância do não entender e entender caminharem juntos. Mesmo sendo extremidades divergentes, de alguma maneira, elas se conectam. É como se uma fosse o membro da outra, mas não um vital. É possível viver sem uma mão, mas não sem os pulmões.

As pinturas alegóricas desafiavam e, ao mesmo tempo, acariciavam a minha capacidade de absorção, dizendo baixinho para que eu determinasse o que via. A concretude me socava quando não era capaz de compreender determinado fato. Porém, me dava uma recompensa ao entender.

O filme é como uma grande bola transparente em um campo de neve.

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Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Sergipe (UFS)

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