A incrível arte de ser agente de viagens no Brasil

Confesso que não gosto muito de pessoas que só reclamam ou criticam tudo, e o nosso cenário atual nessa terra com palmeiras onde canta o sabiá é quase uma piada pronta da desesperança, mas hoje, com quase vinte e cinco anos de turismo nas costas, sinceramente pensei em jogar a toalha.

Não porque o câmbio está de fazer inveja às maiores montanhas russas do mundo, de tanto sobe e desce que já estamos orando: PTAX nosso que estais nos céus…ou porque a cada dia nosso governo nos brinda com alguma decisão estapafúrdia, sem fundamento legal ou em franco desespero para amealhar dinheiro (alheio) que cubra seus rombos desonestos e estratosféricos, usurpando da população seu sofrido dinheirinho, esvaziando suas reservas, junto com seus sonhos de consumo, de viagens, de ter sua casa própria, ou simplesmente ter carne à mesa diariamente.

Vi a grande mãe Varig definhar, o OAG e o Index virarem museu junto com a caixa de bilhetes, o fax e o telex, vi as tias da Disney falirem e serem substituídas pela internet ou guias lacônicas com uma bandeirinha junina e flexibilidade zero, e, num cenário de guerra, quase sem comissão das aéreas e em franca concorrência com as OTAS, estou assistindo às pequenas e médias agências de viagens sangrarem entre grandes corporações que têm cacife para passar quase incólumes pelo cenário atual pois seus acionistas muitas vezes especulam em vários mercados simultaneamente, dessa forma evitando que a crise num setor os leve a falência total.

E, quando você pensa que já viu de tudo nesse ramo, vem um deputadinho criar mais um inútil projeto de lei (3496/15) que caracteriza como infração a prática de preços abusivos no fornecimento de produtos ou serviços turísticos, pois na sua visão (míope), esses preços “impedem a consolidação de um mercado turístico doméstico forte e pujante no País”. Oi?!?

Ele cita o exemplo dos preços dos hotéis na Copa do Mundo de 2014. Mas alguém do PRB paulista por gentileza peça pra ele incluir na pauta que os passageiros desejam pagar menos de trezentos dólares num hotel decente em Nova Iorque no Reveillon. E que se recusam a pagar mais caro na semana da Black Friday em Miami. E que não vão gastar cinco mil reais em Gramado no mês de dezembro, nem aceitam diárias de novecentos reais em resorts all inclusive no Nordeste! Ou seja, a lei da oferta e da procura vai acabar porque uma pessoa burrocrática que trabalhava numa rede de televisão (ou seja, super experiente em turismo…) resolveu tirar da cartola mais uma possibilidade de grana fácil: multas. Não bastasse essa estupidez de interpretação do negócio e do mercado em si, ele vai além:

“COMPENSAÇÃO A MUNICÍPIOS
 Para incentivar a concorrência mais leal entre as empresas do setor, o projeto prevê a destinação de recursos federais para municípios “em cujo território nenhum fornecedor de serviços ou de produtos turísticos tenha recebido penalidade por essa infração”. Esses recursos viriam do orçamento, do Fundo Geral do Turismo e de bancos públicos federais.
 O relator do PL disse que, dessa forma, turistas terão maior segurança jurídica (do que será que ele está falando???) e o Turismo fortalecerá a economia brasileira. “O setor e a atividade econômica local não sofrerão mais com a imprevisibilidade dos preços e a oscilação da demanda”, apontou.”

Fonte: Panrotas (12/02/2016).

http://www.panrotas.com.br/noticia-turismo/politica/2016/02/deputado-quer-punir-precos-abusivos-no-turismo_123351.html?newsletter

Além de não ter noção, ele não indica que medidas de controle serão utilizadas para determinar que municípios receberão esse dinheiro, qual a finalidade e prioridade do uso dessa verba, que diabos é segurança jurídica num país onde uma operadora fecha da noite para o dia sem dar satisfação aos clientes, para depois de seis meses reabrir com outro nome sem nenhum tipo de punição? E, como é obvio que não haverá nenhum município que se sujeitará a fugir dos preços criados com base na demanda, ninguém receberá dinheiro nenhum, gerando mais um caixa dois, mais um financiamento de sítio em Atibaia, ou quem sabe mais um triplex no Guarujá.

Curiosamente, sou confiante de que muitos clientes ainda busquem os serviços de uma expert em turismo que lhes indicará uma excursão adequada ao seu perfil e orçamento, com guia falando português, ou a melhor rota dentro de poucos dias fazendo vários países, ou um hotel bom e barato no centro de capitais icônicas, que tenha apenas uma cama confortável e um banheiro limpo, alías, adivinha o que mais custa num hotel? É justamente uma cama confortável com um banheiro limpo!

Sei que ainda há pessoas que, junto com seus agentes, tecem fios de roteiros, preferências, amizade, confiança e aprendizado mútuo, que nos enobrece e acrescenta. Não sabemos tudo, mas sabemos onde conseguir tudo, onde buscar a melhor solução para cada desejo de viagem, seja a trabalho, lazer, evento, premiação, núpcias, presente.

Entre tantos malabarismos para fugir do IRRF que deveria taxar os bens do cidadão e não suas férias, temos que pesquisar CADA serviço em vários fornecedores em busca da melhor relação custo x benefício, e cada cotação se tornou um forfait histriônico…

Devemos escapar de operadoras que estão quebrando e deixando passageiros na mão, ainda temos que recolher quase 40% do lucro em impostos, fazer um atendimento rápido E de qualidade, o que seria perfeitamente viável SE não fôssemos interrompidas o dia inteiro por ligações, whatsapp, visitas não agendadas, pessoas ansiosas que só especulam ou fazem leilão sem valorizar o trabalho do agente, retardatários em busca de dicas para destinos que não adquiriram conosco, emails incompletos onde temos que adivinhar a conta-gotas o que de fato o cliente deseja ou ainda pessoas que nos acusam porque, semanas depois que fizemos uma cotação, ficam indignados porque não há mais vaga no hotel desejado ou a tarifa aumentou de um dia para outro. E nos culpam por termos arruinado suas tão sonhadas férias! Nos julgam por um poder que, lamentavelmente, não temos.

Ser agente de viagens no Brasil não é só uma profissão, é um amor inexplicável numa área em que as entidades têm mais ego que representação legal, sem poder nem visibilidade reais; é trabalhar sob constante e às vezes desumana pressão, com variáveis mutantes segundo a segundo, onde muitos acreditam que, porque viajaram a vida inteira, serão bem sucedidos como profissionais em seu âmbito familiar e de amigos; onde alunos de turismo se inscrevem aos montes nas faculdades porque gostam de viajar, mas detestam história, geografia e gente. E têm pouca ou nenhuma paciência…

Ser agente de viagens no Brasil é muitas vezes ser comandado por alguém com mais dinheiro e menos experiência na área, o que gera uma distorção de valores, prioridades, planos de ação, causando apenas frustração e ressentimento.

Ser agente de viagens no Brasil é um exercício diário de tolerância, esperança, amizade, conhecimento e discernimento. Ou pelo menos deveria ser assim. Mas o que mais temos entre os colegas de profissão são pessoas de classe média/baixa, com pouca cultura, quase nenhuma vontade de aprender nem de se reciclar. Que vendem viagens como quem tira um pedido de um colchão, e acham que realizar sonhos é coisa do gênio da lâmpada. Que não investem tempo nem dinheiro em treinamentos, congressos, workshops, cursos, palestras. Que se acomodam com suas contas-correntes e só vão a eventos com boca-livre, em restaurantes que não teriam condições de freqüentar por conta própria ou com bebida a vontade. Já ouvi histórias onde chegam a ligar para as operadoras que estão oferecendo treinamento GRATUITO para saber o cardápio! Isso mesmo, o menu. Não perguntou o tema do treinamento, quem viria dar a palestra, a duração, nada…só queria comer de graça! Mas iria dependendo do que seria oferecido DEPOIS. É mesmo o fim dos tempos. Troféu vergonha alheia. Sem contar os vexames homéricos dos bêbados de plantão que não compreenderam ainda que, em eventos corporativos, você não é você. Você é sua empresa!

A boa notícia é que, na crise, a mediocridade bóia e fica fácil descartá-la. E o profissional que não se esmerar, der dicas, cuidar do seu passageiro como quem planeja um casamento ou planta uma semente, nos mínimos detalhes, com respeito, cortesia, conhecimento e qualidade, será banido sem dó nem piedade. Aqueles agentes que não se atualizarem em novas mídias, concorrência, novos canais de distribuição, as abençoadas regras tarifárias, em economia, conflitos mundiais, catástrofes sazonais e das promoções relâmpagos, se tornarão parceiros do telex, e já podem buscar outra profissão.

E, mesmo nos reinventando, ainda haverá cliente culpando o agente porque o hotel da Disney com plano de refeição grátis onde ele planejou (há anos) se hospedar mas só te pediu dois meses antes do embarque, não têm mais disponibilidade. Haja poder, não é mesmo?