Sobre dizer não.

Dizer não é uma das formas mais honestas de amor.

Amor em primeiro lugar a si mesmo, uma forma de evitar se auto-mutilar. E amor ao outro, seja o outro quem for: um filho, mãe, chefe, terapeuta, namorado, esposa, pretendente, CEO, admirador, amigo, cliente.

Numa semana em que uma agência de publicidade recusou um trabalho para um cliente porque ia contra seus princípios de inclusão social, senti que o mundo REALMENTE estava mudando. E me senti parte dessa mudança!

Pensei em todas as avós aposentadas e já meio cansadas, que começam a ter que refazer sua agenda por causa dos netos que os filhos planejaram ter para ELA cuidar. Porque, se ela não cuidar, talvez ache que isso signifique falta de amor à família.

Lembrei das pessoas multi-tarefas abraçando mais uma profissão para trabalhar da meia-noite às seis porque precisa pagar o cursinho caro do filho, a cirurgia de alguém, uma hipoteca maior. E, se não der tudo o que o dinheiro puder comprar, será acusada de egoísta, de não amar nem se sacrificar por seus entes queridos.

Pensei em vários relacionamentos onde as pessoas arrastam correntes para não perder o convênio médico, ou o status quo. Porque acha que ser separado ou divorciado é o mesmo que mostrar para a sociedade que fracassou como companheiro (a).

Pensei em quanto nos permitimos ser abusados, usados, esgotados, espremidos, até que possamos finalmente cair numa cama, doentes e exauridos, quando nem sempre haverá alguém para cuidar de nós com a mesma ternura, disponibilidade, tempo e dedicação que tivemos outrora com os outros.

Nós somos os outros, e os outros estão em nós.

Fazer algo por mim mesmo me prepara para ser melhor para o outro, numa eventualidade. Me torna mais capaz, disponível e saudável para desfrutar a vida com liberdade às minhas escolhas, respeito a quem eu sou de verdade, e também me proporciona mais discernimento, sangue-frio ou até mesmo recursos financeiros para ajudar quando e se necessário. Todos são capazes, mas quando ajudamos demais, aleijamos o outro. Amputamos as pernas dos nossos filhos ao impedir que voem, caiam, se levantem e cresçam sozinhos. Nos quebramos para evitar que o outro se quebre. Até que nosso corpo diga não. Não agüento mais. Não quero mais. E, quando uma doença, um tornado, uma separação ou o desemprego nos derruba, é porque algo na nossa energia está gritando e nos recusamos a ouvir.

E é aí que aprendemos a dizer não.

Não para os filhos, porque os educa e os deixa livres para serem responsabilizados por suas escolhas. Não estou falando só de crianças de cinco anos que estão formando seu senso crítico, mas de “crianças” de trinte e poucos anos que se comportam como se fossem incapazes.

Não para o chefe que dá uma ordem sem sentido, porque não conhece o processo, e você aceita sabendo que vai se lascar, mas tem medo de perder o emprego.

Não para uma proposta fabulosa de ganhar dinheiro, mas que vai consumir o seu pouco tempo livre com a família.

Não para sua neta favorita, porque você a ama muito, mas quer fazer aula de balé, de mandarim, viajar, namorar seu companheiro, e não está a fim de voltar a trocar fraldas.

Não para seu médico, terapeuta ou tarólogo se ele te deixa plantado horas esperando, como se o tempo dele valesse mais que o seu.

Não para um cliente que não quer pagar o quanto as coisas custam, ou faz leilão com o seu trabalho em troca de serviços centavos mais baratos que encontra na internet.

Não para nada que contrarie sua moral, seus valores, sua liberdade, seus bons costumes. Não para quem não te respeita. Não para quem, no fundo, não liga para você.

Depois de viver relacionamentos abusivos por medo de ficar sozinha, agüentar grosseria em troca de favores, me matar de trabalhar pra atender expectativas alheias e agüentar calada para não ser mal compreendida ou menos amada, hoje digo com toda a tranqüilidade do mundo, e muita paz: dispensei meu terapeuta, recusei uma proposta de emprego, deixei minha filha passar frio, troquei de médicos, não aceitei um convite de namoro no dia dos namorados e me recuso a aceitar chantagem emocional.

Acabou a auto-mutilação.

Acabou o medo.

Acabaram as cobranças sociais.

Eu sou. Eu sou mais eu, eu sou capaz, amada e plena. Por mim mesma. Se for pelos outros, ótimo! Se não for pelos outros, ótimo também! No mínimo, Deus nos ama e admira a todos, e está sempre ao nosso lado, e isso é MUITO!

O medo nunca mais falará mais alto ao meu coração.

Porque eu amo. Amo a mim e amo a vocês que se dispuseram a ler esse textão. E, se forem honestos consigo mesmos, entenderão meus nãos. E passarão a dar os seus, quando tiverem vontade, sem medo nem julgamentos. Apenas, por amor.

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