Cenas de ódio

Para dar vazão ao que corrói

As veias de raiva tomavam-lhe a garganta. Os olhos arregalados, injetados de um vermelho-sangue, assustavam os passantes. Foram, no entanto, os berros, dados ao largo de qualquer discernimento ou sensibilidade, que a fizeram perder o controle e vociferar:

— Você é um oportunista, sim! Você é um tremendo oportunista folgado do caralho! Ela mal morreu e você já veio aqui, sem pesar as consequências pra absolutamente ninguém — já veio aqui aprontar das suas! Porque era vantagem pra você! Exclusivamente pra você!
 — Cala a boca, sua cretina! Sua criança que se descontrola e bota a família inteira contra mim! Se eu pudesse te dava uma bica!
 — Desce a bica que é daqui pra delegacia, seu imbecil! E não fuja da porra do assunto, porque, se não fosse eu ter dito qualquer coisa, você não teria vindo aqui resolver a cagada que fez! 
 — Vai se foder! Sua ridícula do caralho! Agora tá todo mundo me ligando achando que eu aprontei, que eu ferrei com tudo! 
 — E foi mesmo você quem ferrou com tudo; se você não tivesse aprontado nada, não estaríamos tendo esta discussão. Seja responsável pelas porcarias que você faz!!! 
 — Vai se foder, sua lambe-cu do caralho. Você se faz de mártir o tempo inteiro, banca a “idiota-santíssima-guardiã-da-família” de atitude impecável. Traíra! Você é uma traíra, não passa de uma traíra! 
 — Me chama do que você quiser, mas, muito diferente de você, eu estive e estou aqui o tempo inteiro, inclusive pra fazer pesar na sua cabeça o que você faz de errado e não assume, mesmo prejudicando todo mundo.
 — Filha da puta traíra, cretina, ridícula (…)! 
 — Pode continuar. Minha atitude em relação a você não vai mudar. Não mais. Aliás, nunca mais.


— Ele arrumou o computador?
 — Não sei e não quero saber.
 — E ele continua bravo?
 — Não sei e não quero saber.

.

.

.

— Você viu se ele comeu?
 — Não sei e não quero saber.
 — … Sabe… Ele ainda é seu irmão.
 — Só no sangue e no sobrenome. 
 — Não fala assim.
 — É a mais pura verdade.
 — Não fala assim… É ruim. Não se deve pensar dessa maneira, nem dizer essas coisas.
 — Sinto muito, mãe, mas isso é um problema mais seu do que meu.


Tive um sonho.

Estávamos em quatro: eu, minha avó, meu pai e a amante de meu pai em um vagão de trem. Eu estava sentada ao lado de minha avó; meu pai estava sentado ao lado da amante. As duplas estavam uma de frente pra outra, de modo que minha avó ficou à frente de meu pai e eu fiquei bem à frente da amante dele. Nós quatro nos olhávamos em silêncio.

Eu segurava um facão entre as mãos. Ergui-o e botei a ponta dele na garganta da amante de meu pai. Minha avó permaneceu ao meu lado, altiva, com ar de serena aprovação. Ela olhava para meu pai como quem dissesse “você não vai impedi-la, porque é um covarde incapaz e todos nós sabemos disso”.

Empunhando a faca com a mão direita, comecei a perfurar, len.ta.men.te, a garganta da amante de meu pai. Conforme a lâmina fazia aquela travessia sinuosa, tive uma percepção bem sensível da resistência da carne, o que me fazia segurar a faca com mais firmeza a fim de rasgar até a última fibra daquele pescoço.

A amante de meu pai engasgava, mas não reagia. Meu pai encolhia, diminuído pelo olhar de minha avó e por minha determinação. A amante dele morrera e o facão ficara cravado naquela garganta.

Acordei.

Like what you read? Give Andrea Wirkus a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.