Colapso

Pequeno texto sobre desemprego

Auto-retrato, Gustave Courbet (1844)

Marcela acordou com cara de bunda. Fez seu 98º xixi matinal desde que ficara desempregada. Trabalhava num jornal de grande circulação de Recife que, como tantos outros no Brasil, botou pra fora uma parcela considerável de funcionários graças à crise e a um número cada vez menor de assinantes.

Sobreviver aos primeiros 20 dias foi ok; “estou aproveitando as férias forçadas”, ela dizia aos amigos. Dormia até tarde, cozinhava, botava em dia as leituras que, entre rotina e plantões, acabavam ficando pra depois.

Já no segundo mês, o “ócio” deixou de ser produtivo e ok passando a incomodá-la. Os amigos e ex-colegas continuavam levantando às 7h para chegar ao trabalho às 8h, 9h, enquanto ela tomava café às 10h e abandonava os menores livros logo nas primeiras páginas, tamanha a inquietação. Não podia mais lidar com aquele arrastamento de dias e intensificou a procura por emprego: inseriu o currículo em três sites especializados; tentou contatos pelo LinkedIn; preencheu diversos formulários online de processos seletivos; encaminhou e-mails para conhecidos de colegas e pediu a inúmeras secretárias que agendassem horários com editores. Obviamente o número de currículos encaminhados era muito maior do que o de entrevistas marcadas. Por sua vez, o número de entrevistas marcadas era também maior do que a esperança de conseguir a vaga ao fim de cada uma delas. Tendo trabalhado em grandes redações desde que se formara, há cerca de 10 anos, a inexperiência em agências menores não chegava a conquistar os entrevistadores (e o que não faltava nas dinâmicas eram concorrentes).

O desespero começou a tomar conta à medida que o tempo passava e Marcela fazia resgastes na poupança para fechar as contas do mês. Amigos pediam que amansasse os ânimos e tivesse paciência: em breve, ela estaria correndo de novo.

Da parte dela, no entanto, observar todos correndo não ajudava. Um senso crescente de inutilidade passou a fazer parte de sua rotina e só amainava à noite, quando o mundo parecia voltar para casa e cuidar da própria vida sem culpa. Ela então tinha algumas horas de paz até que a inquietação a atirasse pra fora da cama com olheiras profundas e aparência frágil. A ansiedade ácida lhe queimava as paredes do estômago: comer havia se tornado uma obrigação meramente fisiológica assim como tudo que não envolvesse encaminhar currículos, atender correndo às chamadas de números desconhecidos de telefone, ou caçar oportunidades na internet. Não passasse boa parte do dia fazendo isso, Marcela daria maquinalmente um jeito de conceber o pior cenário possível para si e passava a imaginar-se esmilinguida, dormindo de favor no sofá de um amigo qualquer, cuidando ocasionalmente das crianças de um ou outro vizinho por uns trocados, vagando silenciosamente pelas ruas da capital pernambucana queimando cigarros e agradecendo a deus por não ter mais familiares vivos com cujo sustento se preocupar. [Pensando bem, este até que era um cenário favorável, visto que seus pais estavam vivinhos da silva e nada indicava que isso pudesse mudar dentro de 3 anos ou mais.]

À proximidade de um surto, Marcela ligava para o melhor amigo e chegava perto de chorar ao telefone. O amigo não compreendia aquelas crises cada vez mais frequentes e preocupava-se sem poder fazer grande coisa. Às vezes dormia na casa dela, o que a distraía e tranquilizava até a saída dele, pontual e engravatada, na manhã seguinte.

Marcela era um animalzinho encarcerado, dentro e fora do jogo. Descrevia a sensação em uma espécie de diário com toda a lucidez: “sou um tipo de paladino do colapso nervoso moderno”. “Na nossa sociedade, não existe sofrimento mais sintomático do que a inutilidade — perdi o emprego e me comporto como se tivesse perdido o propósito”. “Pudera. A vida gira em torno disso”.

Às 11h, o telefone tocou. Era a funcionária do departamento de RH de uma agência onde ela fizera uma entrevista na última semana. “Você foi selecionada”.

Marcela desfrutou como rainha de seus últimos 5 dias em casa antes de começar a trabalhar novamente.