Olhos de gato

Para tentar aquecer a alma

Tem gato em casa. Minha mulher tá sempre me pedindo bicho, eu digo que não quero ainda, mas é: por algum tempo vai ter gato em casa. Chegou ontem. Assustado, encolhido e quieto. Tão logo abri a portinhola da caixa, tive que puxá-lo pra fora, do contrário se afundava ali e ali ficava. Daí foi correndo se meter embaixo da cama, num espaço que conta menos de 20 cm entre o forro do box e o chão.

Eu tenho tido medo à noite. E saber que tinha outro bicho de olhos arregalados no mesmo espaço que eu não ajudou. Fiquei me sentindo responsável quando não queria me preocupar com nada. Além disso, parecia que o bicho tava espreitando tanto quanto eu. E aí eu agachava, chamava, tentava acarinhar, ele remanescia encolhido. Eu tocava o foda-se, deitava inquieta. Queria que ele passeasse, que fosse explorar a casa, comer, cagar, qualquer coisa. Mas não, ele continuou ali.

E aí a cada barulho noturno, eu olhava pros lados e imaginava o gato olhando tão fixo quanto eu. Pra porta, pro canto do quarto, pro interior do armário. Resolvi que dormiríamos com a luz acesa. “Isso deve acalmá-lo”, pensei. Só que não me acalmou.

E aí eu simplesmente fiquei deitada, encarando o teto, com o sono pesando sobre as pálpebras teimosas e o coração apertado. Pensando em como eu nunca dei tanta atenção a cada passo dado em uma caminhada, ou a cada movimento de sobe e desce do tórax (ou pelo menos não como tenho dado nos últimos dias). E imagino o gato sob a cama fazendo exatamente a mesma coisa: dando passos desconhecidos e prestando atenção a cada um de seus sinais vitais, porque, afinal, ele vive momentos de tensão e estranhamento.

Às 4h30 da manhã pego no sono, pensando que as pálpebras do gato devem estar tão pesadas quanto as minhas e que devemos ambos dar uma chance ao descanso. Não tão surpresa, desperto às 9h, deito a cabeça no chão e o gato me encara com os mesmos olhos assustados da madrugada anterior.

Quero que ele coma, que beba um pouco d’água, que se aproxime da caixa de areia, que se sinta acolhido. Não consigo tomar o café da manhã, preparo uma macarronada para o almoço que abandono após a quinta garfada e sinto um incômodo na boca do estômago. Finalmente entendo que santo de casa não faz milagre e deito com o gato no sofá. Monto uma pequena caverna pra ele entre almofadas; encolhido, ele fica lá me encarando com os olhos arregalados. Enquanto encaro de volta, começo a pensar em como certas batalhas nos botam sozinhos numa arena diante de inimigos e monstros que ninguém mais vê.

Estranhamento. Tô tendo que administrar uma perda grande. Quando ando por aí, parece que tem uma ausência no mundo que afeta a minha caminhada. É uma perda que come parte importante da minha rotina e rouba uma presença única do meu cenário de [poucos] afetos. Mais do que isso, é uma perda que machuca muito uma senhorinha que continua a trilhar aqui uma caminhada de 2 pés, onde antes havia 4.

O gato não tinha onde ficar, por isso veio parar aqui. E eu imagino que, tanto quanto eu, ele se faça as mesmas perguntas: “por que isso está acontecendo?”… “Quando as coisas vão voltar ao normal?”.

Lá fora, o mundo caminha a passos largos, os nossos aqui vão tão miúdos… Mas é. Uma hora… Uma hora, penso eu (enquanto o gato finalmente fecha um pouco os olhos), a gente deixa de se perguntar, porque as coisas do jeito que estão terão virado outras. E aí não vai mais fazer sentido perguntar-se por que, ou quando, porque haverá outra noção de normal, de familiar, de rotina e de conforto.

Então assoma uma ternura bonita diante da batalha do gato — que, no fundo, é bem a mesma que a minha. Ele cede uma piscadela lenta como quem sabe que estamos numa mesma caverna, lutando sozinhos com nossos estranhos. Faço um carinho nele. Amanhã vai ser outro dia.