[rush]

é uma contenda atravessada
às vezes os pés ressentem a areia
mas os olhos não distinguem a linha
que cinde o mar e a madrugada
mora nessa praia deserta,
numa noite que não termina,
uma mulher que se move solta
cujo rosto a lua ilumina
ela caminha nua
louca pra entrar no mar
a água beija-lhe os pés
o ventre contrai em marés
mas ela tem medo de se afogar
a brisa sopra suave
sobre a pele que arrepia
e a vontade cobra o impulso
que o receio tenaz adia
ela olha para a lua
para a linha que não está lá
e a noite que continua
não importa aonde ela vá
é a permanência inabalável
das coisas em seu lugar
ela cede ao desejo antigo
porque o desejo cansa de latejar
o mar lhe envolve enlevado
o sal queima-lhe os poros
as ondas embalam o corpo
no bálsamo tão esperado
é impossível precisar
a medida da insensatez
pode a água inundar os pulmões
de quem não mergulha nem uma vez?
e ela flutua inebriada
acolhida pelo entendimento
de que nada vira nada
se não houver movimento
a noite interminável
de repente vira dia
e ela pode contemplar
a linha que antes não via
