A fina trama de raízes: o IV Encontro Nacional de Agroecologia

Há um sentimento duplo que perpassa todos organizadores do IV Encontro Nacional de Agroecologia, realizado em Belo Horizonte entre os dias 30 de Maio e 4 de Junho de 2018: esgotamento e amor. É tão difícil conseguir expressar a infinitude de sensações e sentimentos que fluem em nossos corpos a partir dos 4 intensos dias de vivência com mais de 2.000 agricultores e agricultoras familiares, integrantes de comunidades tradicionais de todos os recantos do país. Foram dias de cansaço e grito, ansiedade e denúncia, trocas e anúncios, explosões e encantamentos, um encontro-potência que descortinou desejos fortes de colaboração, pertencimento, identidade e resistência. O IV ENA foi construído no suor, no afeto e na solidariedade.

Foi mais de um ano de organização, entre costuras políticas e acesso a recursos públicos, com engajamento de comunidades e braços, mãos e cabeças de voluntários de todos os estados do país, na difícil equação de fortalecer a resistência democrática que as experiências agroecológicas assumem em meio à conjuntura de um golpe político. Há, no entanto, processos e sujeitos invisíveis que costuraram todo o encontro por dentro, a partir de seu desejo e seus afetos enredados em solidariedade. Desde a confecção das bolsas pela Ocupação Dandara, em BH, protagonizada por mulheres e envolvendo toda a comunidade, até todo e cada agricultor e agricultora participante do evento, na doação de alimentos de produção agroecológica própria, o ENA tem as marcas das mãos e pés calejados pela dura lida dos povos do campo, da cidade, das florestas e dos mares.

Cerca de 4 dias antes, a greve dos caminhoneiros estoura em todo o país, provocando o desabastecimento generalizado de produtos (principalmente óleo diesel, gasolina e alimentos) e o trancamento massivo de rodovias por todo o país. Houve dúvidas quanto a realização do evento: como as mais de 2.000 pessoas chegariam a BH? Notícias de grupos de agricultores que desistiam de participar pela inviabilidade da logística chegavam de todos os cantos. Mesmo assim, diversos grupos, principalmente de estados longínquos do Norte e Nordeste reafirmaram que iriam fazer o possível para chegar e confirmaram sua participação. Em meio a adversidade: o IV ENA permaneceu confirmado, disparando uma rede de comunicação intensa sobre postos de gasolina abastecidos em meio às rotas das delegações e sobre a loucura logística de transportar todos para os pontos de saída dos ônibus. Até o último dia, a ansiedade e o medo de dar errado era presente em todos.

Enquanto isso, na cozinha, a equipe de cerca de 30 cozinheiras, mais voluntários que apareciam ocasionalmente, trabalhavam arduamente durante 10 dias para cozinhar os alimentos para todo mundo. Em determinado momento, em meio ao desabastecimento generalizado, as comidas não viriam mais e o desespero pairou, invocando rezas e incenso para dentro da cozinha pedindo a Deus uma luz. Remanejos e mudanças de última hora foram necessários em todas as equipes de organização do evento: não tinha gasolina na cidade para transportar as coisas de um lado para o outro. Para tudo deu-se um jeito.

O primeiro dia foi um dia de gestão da catástrofe. As caravanas de todos os estados chegavam, apesar da tensão e das dificuldades da viagem, e esperavam o credenciamento, que atrasou e gerou uma bola de neve que seguiu até a noite. Malas perdidas, nomes que não estavam nas listas, as estruturas ainda em montagem, as mais de 2000 pessoas querendo orientações e informações, os alimentos que faltavam para poder alimentar a todos. Os olhos cansados eram visíveis em todos. Mesmo assim, eram cores que passaram a invadir o Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Gente de todo tipo pulava dos ônibus e se espalhava pelas geodésicas de bambu dispersas pelo parque, construídas depois de muito esforço pela produção. Indígenas de tantas etnias, quilombolas, raizeiras, benzedeiras, faxinalenses, geraizeiros, ribeirinhos, quebradeiras de coco, jongueiros entre tantas outras identidades e fazeres, LGBTs, fazedores de cultura, comunicadores, rappers, artistas, cozinheiros.

Em pouco tempo, o colapso, a ansiedade e o medo tornaram-se solidariedade, luta e resistência.

Comidas chegavam com todas as delegações. Mandioca, pirarucu, pequi, cupuaçu, cacau, hortaliças variadas, farinhas de diversos tipos, azeite de babaçu, geléias, pães, batata doce, tucunaré, camarão seco, licores, polpas de sucos. "O Brasil é mandioca. Do Sul ao Norte, a mandioca é comida por todo mundo e processada de milhões de formas diferentes" me confessa a cozinheira Patrícia Brito. O medo do desabastecimento torna-se a riqueza da abundância brasileira sendo doada pelos agricultores que viajaram milhares de quilômetros para chegar à BH. Rapidamente o evento tornou-se completamente auto-organizado: todo mundo se ajudava nas dificuldades, desde a perda de uma criança, à limpeza geral do parque e aos cuidados na Tenda da Saúde, a esperança era reconstruído em meio às denúncias de um Estado de exceção que há tempos expropria recursos naturais e espolia os povos e comunidades. A agroecologia emerge como uma bandeira que unifica as lutas, organizadas ou não, ao mesmo tempo que preserva as singularidades, os modos de ser e viver, as especificidades de cada resistência.

A intensidade de atividades simultâneas era impressionante. Rituais indígenas, oficina de cosmética natural, feira livre de produtos agroecológicos, ciranda das crianças, seminários de intensos debates e enunciações, tendas dos biomas construídas pelos próprios agricultores, vivências nas experiências de agroecologia de BH, rodas de samba autogestionadas, troca de sementes abarrotada de biodiversidade, plenárias indígenas, de jovens, de mulheres. Foram inúmeros ENAs que beiram o infinito, com vivências particulares da cada um presente que expandiram a potência de ação e ampliaram os laços de felicidade e amor que une os trabalhadores e trabalhadoras da terra, construindo na prática a sociedade que se deseja a partir do corpo, do vínculo e da união.

Fotos: Leandro Bugni

Seria impossível descrever o que foi o ENA. Apesar das dificuldades de todos, reafirmamos a construção de um mundo a partir dos desejos e dos corpos em expansão, na construção conjunta da multidão. Como disse Maria Rodrigues, liderança do Assentamento Bela Vista em Iperó, no estado de São Paulo, “Nós não somos frouxos. Na nossa vida nada veio fácil. Se precisa ir de chinelo, vamos de chinelo e se não tiver, vamos descalços. Porque a gente é povo de luta na construção da agroecologia”. O ENA foi movido pela força do amor, dos sorrisos largos e abraços apertados de companheiros que já estão há tempos na mesma luta, na mesma jornada e caminhada pelo fortalecimento de todo povo que cuida dos territórios e que constroem comunidades baseadas no comum. É força e potência instituinte que se desafia a construir o novo mundo, no esperançar e no compartilhar, desde a semente geradora até os frutos em sua generosidade. Foram milhares de pessoa em uma construção afetiva não hierárquica e colaborativa que fizeram o evento ser o que foi: uma bênção que acalenta e fortalece, trazendo a história do mundo para mãos calejadas e ombros cansados.

Foto: Indy Gouveia

Um banquete para todos, alimentos produzidos com persistência, trazidos de longe num ato de rebeldia contra o isolamento e o medo, cozinhado por muitas e muitos a partir de memórias e laços de amor, servido pela solidariedade e pela comensalidade, com o simples objetivo de mostrar que a soberania e a segurança alimentar e nutricional são as principais ferramentas de diálogo do movimento agroecológico com a sociedade. Não seremos subservientes à lógica capitalista, privatista e imperialista que busca controlar nossas vidas, nosso conhecimento, nossa identidade e nossa potência. O banquete é nosso principal anúncio: é a agroecologia que irá te alimentar e te suprir, construída a partir de conhecimentos e práticas tradicionais manejadas por agricultores e agricultoras, a partir de relações baseadas na justiça, na equidade e na solidariedade, ocupando e construindo o espaço público e a democracia enquanto comum.

Eu vi o povo unido em construção, se ajudando, se reerguendo dos golpes que tentam, a qualquer custo, nos destruir. Eu vi a força que nasce dessa união, do encantamento pela biodiversidade e da resistência que surge e emerge da indignação e do reconhecimento de uma potência em comum. Frente ao colapso, apresentamos o amor e a luta como resposta. Como disse a Natália Almeida em seu texto: "Depois de dez dias de casa cheia a impressão é que por fora tudo faz silêncio e por dentro somos multidão". O silêncio da chegança em casa, no retorno do ENA, olhando para trás e vendo tudo o que foi vivenciado e trocado, esconde uma sutil e indecifrável nuance que ecoa em todos os corações: o inaudível grito da multidão. Como diz um poeta popular nordestino: o meu povo é um rio caudaloso que desce do interior para o mar.

Foto: Cecília Figueiredo
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