Encontros diários: passagem de metrô

Ciclista, morador de Benfica, trabalha na Zona Sul. Figura de baixa estatura, nordestino.
Vai de bike e volta de metrô. Já teve duas bicicletas roubadas. Deseja comprar outra: quadro de alumínio (mais leve) e freio à disco. Tem medo. Chega tarde do trabalho, passa por caminhos perigosos. Se pudesse, teria uma, com certeza!
Por enquanto, aceita a situação e vai andando por aí numa barra forte enferrujada, descuidada e pesada. — “Só assim pra não levarem”, diz ele.
Relatou as aflições pelas quais passam os ciclistas dessa cidade. Já ouvi as mesmas histórias, em contextos diferentes. Ric@ ou pobre, o sufoco é o mesmo. 
Quanto mais fundo entro neste diálogo, mais me identifico com ele.
Entre seus feitos, citou que já pegou a Av. Brasil. Foi até o Lote 15. Não, foi um pouco mais longe. Duas horas e meia pra ir, três pra voltar.
- “Vento contra, daquelas carretas, sabe?”
- “Já morei na Praça Seca. Também usava bicicleta.”
Ônibus? Não quer mais saber disso não. “Como eu entendo esse cara”, pensei.
Uma voz fria e robótica nos interrompe: “Estação Maria da Graça, desembarque pelo lado direito”.
Me despeço ao sair, mas ele diz que também desembarcaria ali.
Na saída da estação, dei-lhe um CTB de Bolso. Não sabia se conseguiria ler ou, se lesse, compreenderia aqueles códigos e textos numa língua diferente da que estava acostumado.
Folheou algumas páginas, fez cara de interesse e guardou o livreto.
Poucas palavras. Ando meio desacreditado do presente e temendo o que vem pela frente.
E temi aquele instante que a gente estava se separando, também.
Tenho plena noção que o percurso dele é muito pior que o meu.
“Boa viagem até sua casa. Se cuida”.
Nada de “vá com Deus”. Não, por favor. Não tenho solicitado proteção divina faz tempo.
E, uma vez mais, invadiu me um sentimento de raiva à tod@s aquel@s que podem fazer alguma coisa, e nunca fazem. Sim, políticos e suas politicagens corruptas. E todos os outros exploradores da esperança alheia.
Dos ladrões que roubam trabalhadores solitários que voltam tarde pras suas casas. “O homem é o lobo do homem”, pensei.
Benfica? Muito difícil. Aquele rapaz? Quem escutará sua voz?
Pedalo pela vizinhança vazia e desconfiada. Desconfio, também.
A raiva desaparece, como uma onda que quebra na areia.
Influenciado pelo maracatu, que ainda reverberava no corpo, canto em voz alta uma loa que fala de orixás e invoca proteção.
Sorrio e me sinto acolhido pela música.
Dias melhores virão…