Game of Thrones – sete temporadas depois

Ficou bastante claro que os roteiristas da premiada série da HBO, na falta de material original para se inspirar, beberam de outra fonte bastante extensa das Crônicas de Gelo e Fogo: as teorias dos fãs. E há um problema sério em seguir teorias: adivinhar o “fim” ou um determinado evento é fácil, requer apenas um pouco de atenção à algumas passagens deixadas pela obra (ou foreshadowings, para os iniciados) e traçar uma conclusão mais ou menos lógica a respeito, mas contar a história de como os seus personagens chegam lá são outros quinhentos.

Se você resolver reler os livros, por exemplo, vai descobrir menções quase que literais aos acontecimentos do Casamento Vermelho (terceiro livro) durante as visões de Daenerys Targaryen na Casa dos Imortais (segundo livro). Caso queira consumir drogas mais pesadas e procurar nos fóruns, você vai encontrar listas e listas de teorias sobre os mais diversos tópicos da série, desde os personagens mais insignificantes até os “protagonistas”. Desde aquelas que afirmam que todos os conflitos não passam do resultado de uma “Grande Conspiração dos Meistres” da Citadela para acabar com os Dragões e a Magia, até aquelas que afirmam que Game of Thrones é uma série de ficção científica ambientada num mundo pós-apocalíptico (a famosa Longa Noite, por exemplo, seria um período de Inverno Nuclear — e é uma teoria que faz bastante sentido, para ser bem sincero). Enfim, há de tudo por ali.

A série da HBO parece ter escolhido dentre essas teorias aquelas que são mais populares para dar prosseguimento à sua história. Talvez o autor tenha contado aos showrunners como ele espera acabar a sua história — e é possível que tanto livro quanto série tenham o mesmo final — mas também é possível que a forma como cada um for construído seja a diferença entre amar e odiar toda a obra. E, ao meu ver, a série optou por entregar exatamente aquilo que sabe que os fãs já amam. E há um problema nessa escolha.

Vou tentar me explicar melhor abordando três dessas teorias que os fãs esperam se concretizar nos livros.

1. Cleganebowl

O que é? Essa teoria diz que Sandor Clegane, o Cão, está vivo e que vai lutar contra o seu irmão, Gregor, a Montanha.

Como está armado nos livros? O Cão está vivo (procurem pelo personagem do Coveiro em um dos capítulos da Brienne no quarto livro) e será o campeão da Fé dos Sete contra o campeão de Cersei Lannister num julgamento por combate (tal qual aquele que aconteceu entre Oberyn Martell e a Montanha) para provar se a Rainha é inocente ou não dos seus crimes (adultério, fornicação, conspirar para matar o Rei, etc).

O que foi que a série fez? O Cão reaparece como membro da Fé dos Sete, mas encontra a Irmandade Sem Bandeiras e vira uma espécie de Profeta do Deus Vermelho que parte para uma jornada para além da muralha a fim de capturar um zumbi e o levar para Porto Real para provar para todos que os Caminhantes Brancos existem. Ao ver o seu irmão, Clegane literalmente anuncia que “você sabe como vai ser seu fim”, mas ao mesmo tempo parte para o norte e deixa o conflito de lado. Talvez ele retorne em algum momento e lute com o seu irmão (agora zumbi) por algum motivo qualquer, nem que seja para que isso simplesmente ocorra de uma vez.

2. Valonqar

O que é? A teoria de que Jaime Lannister irá matar Cersei Lannister.

Como está armado nos livros? Durante a sua infância, Cersei Lannister escuta as profecias de Maggy, a Rã, e, numa delas, a feiticeira afirma que ela encontrará seu fim pelas mãos do Valonqar, o irmão/irmã mais novo(a). Cersei sempre acreditou ser Tyrion, por isso tem tanta raiva do irmão, mas as maiores evidências apontam para o Jaime (vamos lembrar que nos livros ele é um personagem muito mais complexo do que esse da série que tem a profundidade de uma colher de chá – pelo menos até o penúltimo episódio dessa temporada). O Jaime dos livros não aceita muito bem a ideia de sua irmã o ter traído — e a Cersei dos livros está muito próxima de se tornar uma mistura do que havia de pior nos Reis Aerys Targaryen e Robert Baratheon: louca e bêbada. Não é difícil de imaginar que em algum momento (pode até ser depois de virar rainha por algum motivo) Jaime resolva matá-la tal qual fez com Aerys, a fim de impedir alguma grande cagada que sua irmã planejasse fazer ou fizesse no futuro.

O que foi que a série fez? Jaime é um dos personagens mais mal tratados pela série. Seu cativeiro em Correrrio, a jornada com a Brienne e a perda de sua mão, que nos livros fazem com que ele se torne um novo homem, foram jogados no lixo e o personagem virou mais uma vez um capacho da Rainha, ou seja, a mesma coisa que ele era no primeiro episódio da série. É possível que o desfecho seja o mesmo, mas a série resolveu inventar mais um filho para o casal que só existe mesmo para morrer de uma vez e justificar melhor uma eventual loucura da Rainha. O Jaime dos livros já teria tomado a decisão de matar Cersei já no final da temporada passada, afinal a mulher realizou exatamente aquilo que ele havia jogado fora a sua honra de cavaleiro para impedir — a explosão de uma parte da cidade com fogo vivo. Na série essa motivação se dá com a recusa de Cersei de se unir com os demais na luta contra o exército dos mortos.

3. O Dragão de Gelo

O que é: aqui são duas teorias, mas eu prefiro a segunda: a) existe um dragão de gelo adormecido dentro da Muralha e ele vai ser despertado eventualmente; b) um dos dragões da Daenerys vai morrer e virar um Zumbi.

Como está armado nos livros? Melisandre sempre fala que o sangue real tem o poder de despertar dragões e é dito que a Muralha é uma construção mágica, e como a Melisandre agora (nos livros, pelo menos) reside na Muralha, talvez tivesse algum dragão escondido ali. A outra ideia é a que a Dany lutaria contra os Caminhantes Brancos e, no meio da batalha, um dos seus dragões morreria, sendo depois transformado em um zumbi.

O que foi que a série fez? A série adotou a segunda opção (felizmente), mas fez de uma maneira muito porca, na esperança de que a cena final do penúltimo episódio nos fizesse esquecer de todas as loucuras que aconteceram durante ele. Em primeiro lugar, o plano: uma mistura de Game of Thrones, Sete Samurais e Esquadrão Suicida — uma turminha do barulho que vai se meter em altas confusões para além da Muralha, a fim de capturar um caminhante branco que deve ser levado para Porto Real para convencer os outros do perigo iminente e forçar uma aliança de todos os que respiram contra o seu inimigo em comum. Whaaaaaaat? Ok, é meio merda, mas faz algum sentido. Aí vamos aproveitar esse plano para fazer a tão esperada batalha entre os dragões e os zumbis e já matar um dragão de uma vez. Penso no seguinte diálogo nas reuniões de roteiro:

- Mas a Daenerys tá longe pra cacete, como é que a gente vai fazer com que a mensagem de socorro chegue lá tão rápido? Não tem WhatsApp nessa época ainda!

- Bom, vamos assumir que nas últimas temporadas os personagens já adquiriram o poder do Teletransporte da Casa do Roteiro Fraco da Ilha das Incongruências e aceitar que a mensagem chegou lá depois de algumas horas. E que a Daenerys levou também algumas poucas horas pra chegar no lugar.

- Mas e os inimigos que cercaram a nossa trupe, o que eles fazem nesse meio tempo para dar tempo para os dragões chegarem?

- Bom, quem sabe não fazer nada sem nenhum motivo aparente e apenas esperar seja uma solução. Se lembre que no final do episódio eles só vão se lembrar do olho do dragão se tornando azul. Se duvidar dá até pra fazer uma cena de romance no navio.

E assim foi feito.

Vocês entendem o que eu estou querendo dizer? É muito legal ver essas coisas na série e eu posso enumerar muitas outras que eu também tenho vontade de ver na TV ou ler nos livros. Eu adorei ver o Mindinho morrer pelas mãos da Arya a partir de uma ordem da Sansa, mas eu odiei aquela disputa idiota entre as duas irmãs cujo único propósito foi criar um conflito impossível para fazer aquele “ta-dah” no último episódio. É recorrente afirmar em certas narrativas que os protagonistas nunca morrem pois estão sempre vestindo a “Armadura do Enredo”. Em Game of Thrones os personagens tornam-se idiotas, mudos ou sem memória pelo mesmo motivo, pelo visto. Não faz sentido para o personagem, mas faz sentido para a trama, então dane-se o personagem.

É preciso ter um pouco de coerência, se não com os livros, pelo menos com aquilo que a série mesma já exibiu ao longo dos últimos sete anos. Vamos nos lembrar que a mesma Arya passou temporadas inteiras praticamente caminhando para chegar de um lugar ao outro.

É claro que eu entendo que há limitações numa adaptação e que os produtores não tem dinheiro nem tempo ilimitado para fazer tudo 100% como queriam. Mas isso não me impede de apontar os erros que eu vejo durante o caminho. O grande mérito de Game of Thrones sempre foi o de contar uma história fantástica “realista”, isto é, uma em que os personagens agem como seres humanos, com motivações e desejos próprios que volta e meia entram em conflito uns com os outros. Era a história em que não era tudo preto ou branco, mas sim um amontoado de vários tons de cinza.

Ao término da sétima temporada só posso dizer que — se isso ainda está presente — é apenas numa camada escondida lá fundo, em poucos personagens. Game of Thrones se tornou a série do preto ou branco, do fogo contra gelo, do bem contra o mal. Ao meu ver, se tornou exatamente aquilo que — lá no início — nós celebrávamos que ela não era.

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