Que tipo de esquerdista eu sou

Um texto sobre minhas posições políticas, e como transitei entre vertentes até me tornar algo como um esquerdista liberal

O canto de cisne do socialismo

Acho que sou de esquerda desde que criei minhas primeiras formas de consciência política, na adolescência. Também considero que me atraí pelas utopias de esquerda por causa da minha formação religiosa, como cristão evangélico.

Eu via as histórias da Bíblia, as pregações dos profetas, do Cristo e dos apóstolos. Nada daquilo me parecia condizente com a sociedade brutalmente desigual que eu percebia no Brasil e do mundo dos anos 1980.

As primeiras utopias políticas que formei tinham relação com as revoluções socialistas e a implantação de uma sociedade sem classes e sem propriedade privada dos meios de produção. Meus heróis foram Lenin, Trotsky, Che Guevara.

Não haveria possibilidade de uma sociedade mais justa sem a superação do capitalismo. O socialismo tinha de ser implantado pela revolução, desapropriações, estatizações. O programa do PT em 1989 era o meu programa para o Brasil. Eu ainda nem votava, mas já era um apoiador.

Socialismo democrático e outras nuances

Aí as leituras começaram a enriquecer um pouco essa visão de mundo, além das conversas com pessoas de esquerda com uma visão um pouco mais ampla. Talvez os livros de memórias do Fernando Gabeira tenham sido os primeiros a me por mais a par dos problemas daquelas utopias socialistas de inspiração soviética e oferecer modelos alternativos. A autobiografia de Trotsky me pôs a par de uma crítica contundente do modelo stalinista (e só muito mais tarde eu saberia que o próprio Trotsky não teria feito muito melhor).

Quando comecei a estudar história mais a sério percebi que o leninismo era apenas uma das vertentes da esquerda marxista, e passei admirar (mas não ler) teóricos como Rosa Luxemburgo e Gramsci. Percebi também que o marxismo era apenas uma das vertentes do socialismo e da esquerda em geral, e comecei a me interessar pelos anarquistas.

Sobretudo, abandonei completamente a ideia de que algo de bom pode ser implantado por revoluções armadas e ditaduras de classe. Não sou ingênuo, sei que situações revolucionárias eclodem por diversos motivos em diversos momentos de crise aguda. A diferença pra mim é que parei de achar que uma revolução socialista é algo que eu deva desejar, ou pelo que lutar. Do ideal revolucionário passei, totalmente convencido, ao ideal reformista.

Na pesquisa de mestrado estudei intelectuais e o Partido Comunista Brasileiro nas décadas de 1920 a 1960, e fui percebendo que suas posições eram difíceis de defender no século XXI. Fui me interessando por intelectuais de uma esquerda mais independente. Entendi que o PT surgiu como nova esquerda, em reação às visões autoritárias da tradição do marxismo soviético no Brasil. Minhas afinidades ideológicas com o partido aumentaram, somando-se às boas experiências do PT em administrações municipais na década de 1990.

Esquerda: culturalista ou econômica?

Quando comecei a acessar internet, já na década de 2000, passei a ler uma miríade de bons pensadores e analistas que escreviam em blogs. E passei a entender que algumas das principais lutas das esquerdas eram comportamentais. Direitos de minorias, questões de orientação sexual, refugiados, identidades culturais, tantas lutas mais importantes do que meramente combater desigualdade de renda.

Ou seja, as pessoas podiam até melhorar seus rendimentos, patrimônio e conforto material. Não necessariamente se sentiriam melhor. Aliás, as percepções de classe são muito bem analisadas por E. P. Thompson em A formação da classe operária inglesa. Tem um trecho muito interessante em que ele discute com historiadores ingleses que estudaram o operariado do século XIX e demonstraram por estatísticas que a vida dos trabalhadores estava melhorando. Thompson argumenta que pouco importa o que dizem os dados e estatísticas — os trabalhadores em suas falas nas fontes achavam que estavam piorando. A economia material estava progredindo, mas as relações sociais estáveis às quais eles estavam acostumados desapareceram de forma brutal.

Com Foucault também fui aprendendo que o poder não se concentra no Estado, e que tomá-lo de assalto pode não significar nada em termos de melhorias para os oprimidos. A opressão está nas instituições, na família, nas relações pessoais, em toda a parte. Faz parte da natureza humana, eu diria.

O fracasso do desenvolvimentismo

O último bastião do meu esquerdismo tradicional foram as questões de política macro econômica. Mesmo não trilhando mais com o marxismo soviético, e reconhecendo a importância primordial das lutas identitárias, eu continuei achando que política econômica de esquerda seria favorecer o setor produtivo, crescer o PIB e distribuir renda.

Ou seja, eu estava com as principais políticas de Lula e Dilma. Mas o 1º mandato de Dilma serviu pra provar o meu erro e de grande parte da esquerda em geral. Coincidiu também com um forte aumento do conhecimento econômico de alto nível disponível para não especialistas como eu.

Fosse em blogs ou em livros de divulgação para o grande público, cada vez mais tive acesso a pesquisas em economia. Que contam atualmente com uma quantidade fantástica de dados disponíveis (como não existia há, por exemplo, duas décadas) e de sistemas eletrônicos de tratamento.

Você deve ter pensado, claro, no livro do Piketty — O capital no século XXI. Não foi a única leitura que me demoveu de muitos conceitos (devo citar pelo menos outro livro importantíssmo: Porque o Brasil cresce pouco? do Marcos Mendes). Eu fiz minha resenha do Piketty aqui, dê uma olhada.

Hoje eu tenho a impressão de que os economistas liberais sabem mais como reduzir desigualdade do que os chamados economistas de esquerda. O marxismo clássico ficou ainda mais velho.

E as coisas na economia brasileira pioraram muito o dia que Lula trocou Palocci por Guido Mantega.

Um esquerdista liberal

O que sobrou do meu esquerdismo? É difícil definir exatamente meu programa. Hoje eu tenho mais dúvidas do que certezas, ao contrário de quando eu tinha 17 anos.

Mas acho que posso me definir como um esquerdista liberal, ou um liberal esquerdista. Não tenho nenhum problema com economia de mercado, desde que ela seja disciplinada por um sistema tributário distributivista e forte regulação ambientalista e de direitos humanos básicos.

Na verdade, não é que “não tenho nenhum problema com economia de mercado”. Não desejo, de maneira nenhuma viver em algum lugar que não tenha economia de mercado. Do mesmo modo que não desejo, de maneira nenhuma, viver em sistemas políticos sem democracia eleitoral, liberdade de associação e de opinião.

Sim, você entendeu — sou um social democrata (no sentido clássico do conceito, não no sentido em que ele é assumido na sigla PSDB). Sou liberal em economia, assumindo que o liberalismo autêntico não concebe um mundo sem oportunidades iguais para os seres humanos desenvolverem seu potencial. Como Piketty, não acredito num mundo onde a riqueza herdada seja maior do que a produzida por trabalho e inovação. E acho que o crescimento da desigualdade de renda e patrimônio é uma severa ameaça à democracia.

Faz tempo que minhas utopias saíram da URSS ou Cuba e passaram para a Escandinávia. Enxergo mais socialismo na experiência dos kibutzin do que em qualquer coisa (mas sei que aquilo só foi possível no contexto da grande migração de refugiados de guerra).

Tem muita coisa que estamos precisando mudar no Brasil e no mundo. E a primeira coisa que precisa ser reconstruída, quase totalmente, são os movimentos de esquerda. Desde 2006 eu venho procurando um partido ou movimento político que me represente no cenário brasileiro. Meus votos têm oscilado, desde então, entre PT, PV, PSOL, PDT, Rede.

A lava-jato, o impeachment de Dilma e o governo Temer estão pulverizando as antigas divisões políticas brasileiras. Pode ser que a gente vire uma Argentina, sem partidos nem líderes modernos ou relevantes — que é o que está acontecendo também na Europa e EUA. Eu preferia que virássemos um Uruguai, com hegemonia de uma frente de esquerda moderna. Cresce a importância dos debates sérios da Ciência Política e precisaremos de estudos fundamentados para pensar uma reforma política decente.

As dificuldades estão aí, trabalhar pra melhorar isso.

P.S. este texto faz parte de uma série, que inclui:

Que tipo de evangélico eu sou