Que tipo de evangélico eu sou

Uma reflexão sobre fé evangélica, teologia liberal, esquerdismo político e heterodoxia doutrinária

Escrevo para mim mesmo, sobre minha experiência religiosa, como exercício de elaboração. Publico na esperança de ajudar pessoas com dilemas semelhantes a se sentirem menos estranhas em sua fé.

Ecumenismo

O primeiro ponto que quero ressaltar sobre minha fé é que não é uma fé exclusivista. Sou cristão, protestante e evangélico tradicional — entre uma miríade de classificações possíveis.

Mas minha posição no espectro religioso é essa por uma série de motivos e fatores que pretendo explicar em outro texto, que poderia se chamar Porque sou evangélico. Pra resumir a ideia, pra mim este lugar é o melhor pra se estar em toda a gama de experiências religiosas possíveis.

Mas não porque eu suponha que minha religião é melhor que outras, mais certa, mais perfeita ou mais verdadeira. Sou plenamente consciente e muito crítico dos limites e contradições do meu segmento religioso, da minha igreja, da minha fé.

Assim, defendo o respeito e o diálogo inter religioso. O budista, o muçulmano o judeu, o praticante do candomblé não são pessoas que eu quero converter. São pessoas que eu quero respeitar e conviver, se possível aprender com a experiência deles. Acredito que as várias religiões tem problemas sérios, como a minha, e fatores positivos e válidos, como a minha.

Defendo também o respeito e o diálogo com quem não tem religião — ateu, agnóstico, sem fé, o outras classificações possíveis. Acredito que existem motivos de sobra para não ter religião nem fé — os problemas das religiões existentes são suficientes para motivar esta posição. Não acho que essas pessoas precisam ser “trazidas” para a fé. Elas podem estar muito bem onde estão, e eu sigo aprendendo muito com elas e com sua experiência não religiosa. No mínimo, aprendo a não ser tão inocente com a minha fé.

Sou um cristão ecumenista: ao contrário de muitos evangélicos, e todo o fundamentalista (vou precisar outro texto para definir fundamentalismo), considero que o cristianismo é uma religião multifacetada. Católicos, Ortodoxos, os vários cristianismos orientais não nicenos, Luteranos, Anglicanos — todos são tão cristãos quanto nós evangélicos. Em um outro texto, talvez eu pudesse definir melhor o conceito de evangélico em relação a outros ramos do cristianismo.

Sou um evangélico que defende a unidade: batistas, presbiterianos, congregacionais, adventistas, quadrangulares, assembleianos, etc (e muito etc) somos irmãos na mesma fé. As diferenças doutrinárias são tão pequenas (forma de batismo, detalhes de governo da igreja, santificar o domingo ou o sábado) que não vale a pena insistir nelas, mas nas imensas quantidades de semelhanças que nos unem na mesma fé e nos mesmos formatos de culto. Eu poderia estar em qualquer uma destas igrejas, estou na que estou por muitas contingências, mas certamente não por ser melhor que as demais.

Teologia e conhecimento científico

Muitos cristãos pensam que existe um conflito profundo entre ciência, filosofia, pesquisa acadêmica e a fé. O conhecimento humano atual seria inimigo da fé verdadeira. Esse pensamento é tão arraigado que muitos cristãos nem fazem curso superior, ou escolhem apenas áreas mais inócuas para a fé, privilegiando os cursos tecnológicos e fugindo das ciências humanas como fogem do diabo.

Eu não. Tenho formação acadêmica em história e trabalho como professor de ensino superior e pós-graduação nesta área do conhecimento. Por dever profissional e pureza de consciência não posso sustentar uma fé que vá contra o conhecimento que tenho nesta área.

Mas como faço para conciliar as coisas? Não é tão difícil, se você souber que existem muitos cristãos assim, que não pretendem uma fé cega, um combate entre fé divinal e conhecimento humano.

Tem aí toda a teologia do século XIX, do século XX e do século XXI lidando com estas questões de maneiras interessantíssimas. O único problema é que essa teologia sequer chega aos seminários e faculdades teológicas, quanto menos aos púlpitos. Seguimos vivendo da exposição requentada de uma anti teologia avivalista e conversionista. Na maioria esmagadora das igrejas é o que tem pra hoje.

Apesar da horrível aridez intelectual com que se convive nas igrejas evangélicas, posso dizer que no Brasil isso não é certamente “privilégio” dos evangélicos. É parecido com o que você deve viver no ambiente do trabalho, nos almoços de família, etc. Ou seja, embora o evangélico comum seja conservador, retrógrado e anti intelectual, ele não difere em nada do brasileiro médio de outras confissões religiosas.

Fé e política

No ponto anterior, sobre teologia e conhecimento humano, eu disse que as igrejas evangélicas praticam uma anti teologia conservadora e arcaizante. Evitam o diálogo com diversos campos do conhecimento e consideram fé e doutrina como coisas estanques e imutáveis — algum tipo de verdade absoluta a ser aprendida de forma estanque, positivista.

Meu consolo é saber que o principal motivo para as pessoas defenderem isso é por mera política. No pior sentido da palavra. O fundamentalismo é especialista não apenas em impor uma visão doutrinária como se fosse o único cristianismo possível. É também especialista em obter fontes escusas de financiamento e em galgar os degraus do poder dentro e fora das instituições eclesiásticas.

Sabe o típico pastor evangélico que prega muito bem, no púlpito e/ou nos meios de comunicação, dirige uma igreja que cresce bastante e ostenta um tempo maravilhoso (já pronto ou em construção), ganha altos salários e tem ligações políticas (ou muitas vezes exerce cargos comissionados e/ou eletivos)?

Pois é — esse é o tipo de gente que conduz a vida eclesiástica da maioria dos evangélicos, nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países de eclesiologia derivada das experiências evangelicais anglo-saxãs.

Preciso dizer que minha fé não tem nada com isso. Me recuso a aceitar que esses pastores sejam sequer cristãos. Trato-os como meros aproveitadores da ingenuidade e da fé dos outros. E me recuso a deixar eles dominarem os sentidos do que seja ser evangélico.

Durante muito tempo foi mais fácil sair da igreja do que enfrentar esse modelo de evangelicalismo. E de fato, o fundamentalismo é um evangelicalismo expulsor. Trata com as dissidências ou divergências pelo aniquilamento: expulsão do rol de membros, dos cargos, das instituições; negação do status de cristão ou de evangélico a quem pensa diferente.

Então preciso afirmar pra mim e para quem mais se interesse, que sou evangélico e sou de esquerda. Que não vejo nenhuma coerência entre fé bíblica e poder político ou institucional, muito menos sucesso financeiro (se não concordar comigo, mostre alguma coisa no Novo Testamento).

Penso que igreja é uma comunidade de fé. Uma assembleia de irmãos. Não existe ninguém melhor ou superior ao outro. Existe apenas o reconhecimento da experiência e/ou da liderança moral ou espiritual de alguns irmãos, que pode se articular de várias formas, mas deve evitar o autoritarismo doentio que vivemos na maioria das igrejas.

Penso que ser cristão ou ser evangélico exige um compromisso ético na vida profissional (pense na noção de vocação em Lutero e Calvino), na vida financeira e na vida familiar e comunitária. O cristão é (deveria ser) sobretudo alguém que trabalha para o bem comum, que tem o próximo em mais alta conta que a si mesmo. Que só pode dizer que ama a Deus, a quem não vê, se amar o próximo, a quem vê (é o que diz a carta de João).

Direitos Humanos

Esse amor a Deus que só se reflete no amor ao próximo é a base do cristianismo. Acho difícil você encontrar um evangélico que discorde de você neste ponto. Acho difícil algum evangélico discordar de que o Cristo dos evangelhos é justamente esse modelo de amor, a ser seguido.

Então porque tanta gente que se diz cristã ou evangélica vive e prega tanto ódio? Não sei, e não faz o menor sentido pra mim.

Só entendo que ser evangélico é, deve ser, tem que ser, defender os direitos dos mais pobres, dos mais fracos. Se entristecer com os mais ofendidos, andar com os excluídos.

Defender os direitos civis e as garantias de integridade das viúvas, dos órfãos, dos divorciados, dos presos, das prostitutas, dos homossexuais. Lutar pelo fim da violência contra a mulher, ser contra as várias expressões do machismo. Porque entre os primeiros cristãos, e assim está no Novo Testamento, não existia judeu nem gentio, escravo nem livre, homem nem mulher. Não há diferença de status — embora a maioria das igrejas hoje sejam meros organismos para criar diferenças de status e reforçá-las. Isso não é cristianismo bíblico é um desvio da fé.

Ser contra a violência, os espancamentos, as humilhações. Ser como Cristo foi com a mulher adúltera que seria apedrejada ou como ele foi com a samaritana que foi buscar água. Ou como ele foi com as crianças, os cegos, os coxos e os leprosos que tentaram se aproximar.

Nós evangélicos somos como os judeus piedosos daquela época — estamos sempre ali para impedir que essas pessoas cheguem a Deus, porque não são puras na nossa definição. Ora, lembremos de Cristo e façamos o exercício de trocar os personagens fariseus ou saduceus dos relatos pela palavra “evangélicos” e vejamos se a carapuça não nos serve.

Seria o caso de pararmos de nos orgulhar bestamente da leitura da Bíblia, sairmos das leituras domesticadas e dogmáticas e começarmos a confrontar nossas formas de vida com o Evangelho. Garanto que sobraria pouco, muito pouco das nossas certezas e da nossa ridícula superioridade.

Que tipo de evangélico eu sou

Então isso aí é mais ou menos o tipo de evangélico que eu sou. Gostaria de imprimir isso numa camiseta, mas ficou meio grande. E sequer consegui entrar em definições importantes, que deixei de fora.

Mas espero que este texto sirva pra me lembrar de que tipo de evangélico eu sou. Sirva também para incomodar alguém que pode rever alguns posicionamentos. E que sirva, principalmente para confortar alguns que estão enfrentando os processos de exclusão sempre movidos pelos fundamentalistas.

Não, meu irmão, minha irmã — você não está sozinho, não está errado. Não te falta fé. Se te servir de consolo, lembre que se Jesus vivesse hoje da forma que viveu milhares de anos atrás certamente seria imediatamente expulso de todas as nossas igrejas.

Eu passei um certo tempo evitando esses assuntos, porque sempre corro o risco de ser excluído. Acho que encontrei uma comunidade de fé capaz de me aceitar desse jeito aí. Depois de um tempo congregando lá, com irmãos que conheço há muitos anos, devo ser recebido como membro na igreja local. É um passo arriscado pra mim. Só não pretendo mais fugir disso.

P.S. este texto pode receber novos textos para compor uma série, postarei os links abaixo

Que tipo de esquerdista eu sou