um legado que não verás nunca mais 

você
que foi embora sem pagar um almoço
não o chamo de canalha
naturalmente com o que tinhas
mal valeria a um mendigo sua graça

você
que teve a sorte de não ter-me por perto
precisou de ânimo por não ter sido lembrado por mim
por motivos banais ou impressos nas garrafas vazias

você
que por noites combateu as dores na garganta
é agora presente incrédulo que floresce em mim
pede-me para voltar e despeço-me
no final dessa rua numa longa viagem

você
que nunca veio me visitar
e não deixou o verão se prolongar para que eu fosse até a porta
teve dias para se preocupar onde iria dormir depois das perdas materiais

você
que nunca me esnobou
que não teve profissão que lhe rendesse ficar
como os outros que caminham pelos mercados
foi encoberto pelo desconforto dos abraços que lhe amaram

você
e outros além de você
tiveram que engolir toda a merda sem lambuzar a camisa emprestada
que sem falar foi contestado por ser um legítimo idiota
por vezes teve a bondade de ser o erro de uns para apenas ser gentil

você
que por vezes só quis estar sozinho
e sozinho ficou até o último dia de sua vida
testemunhou o fogo que impulsiona no homem as palavras
e no homem deixou um legado que não verás nunca mais

Like what you read? Give Andreev Veiga a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.