O Que Aprendi em Dois Meses de Adoção de um Filhote

Meus amigos bem sabem que falei por anos “quero um daqueles vira-latinhas bem feínhos” sempre que comentava de planos futuros. Sem qualquer planejamento maior que 24 horas, eis que em 19 de agosto de 2016 eu fui presenteado com o vira-lata mais lindo do Brasil, que logo ganhou o nome Boi.

Ele foi resgatado por dois amigos muito queridos junto a seu irmão, que ficou com eles. E Boi veio pra cá matar a vontade de cuidar de um cãozinho em casa que eu tinha há tanto tempo. Na época ele tinha seis meses e eu não fazia ideia de como criar um filhote na situação que ele chegou, o que me fez passar a noite (tô falando, foi mesmo da noite para o dia que ele veio para cá) lendo a respeito.

Valeu a pena pesquisar. O aprendizado de verdade, contudo, veio com o tempo. E hoje, dois meses depois, compartilho um pouco do que a vida me ensinou nesse tempo — ou melhor, o quanto eu consigo perceber que aprendi.

##Cada Marco É Importante

Eu que nunca liguei pra nenhum tipo de celebração de um mês, um ano, ou toda uma fase de vida (olá, formatura) comecei a me atentar a pequenos fatos que deveriam ser comemorados desde que ele chegou. A primeira vez que me fez carinho, a primeira vez que me chamou para brincar, o dia que foi conhecer o Ibirapuera, quando aprendeu a brincar de bola e o tão aguardado primeiro xixi no jornal — mesmo as pequenas coisas mereceram um monumento na minha memória, o que só me deixa mais ansioso para os próximos marcos em nossa trajetória.

##Paciência, Paciência, Paciência

Um dia antes do Boi chegar, uma amiga que também adotou uma vira-lata me disse o que ecoa na minha cabeça diariamente: “Tudo é uma questão de paciência”. Eu sabia que ele uma hora confiaria em mim, que em algum momento aprenderia o básico e, na hora certa, minha casa seria a casa dele também. Enquanto nada disso acontecia, só me cabia esperar, o que me leva à próxima questão.

##Tudo Tem Mesmo Seu Tempo

Uma outra amiga, outra que adotou dois vira-latas que, assim como o Boi, tinham sido vítimas de violência dos donos anteriores, me disse que cada um deles teve um tempo muito distinto de adaptação: Enquanto um estava bem em um mês, o outro só se soltou de fez depois de um ano e meio. Com o Boi, o progresso tem vindo aos poucos, meio que em ondas. A evolução na primeira semana foi gigantesca, mas diminuiu o ritmo depois de um mês e segue firme dentro do ritmo dele.

##Até os Cães Têm Dias Ruins

Como eu disse, a depressão dele foi ficando cada vez menos absoluta dentro da primeira semana. Ele praticamente só chorou nos dois primeiros dias. Às vezes, estávamos caminhando e ele se sentia bem para, do nada, se sentir culpado e voltar a se encolher. Isso passou, mas não quer dizer que alguns dias sejam mais difíceis que os outros. Ou melhor, algumas horas são piores. É um susto que levou aqui, um tempinho que ficou sozinho ali e, pronto, o humor leva uma rasteira.

##Minha Casa Pode Ser Aterrorizante

Para quem vivia no mato, a cidade grande é certamente de dar medo, mas eu nunca imaginei que meu apartamento em um bairro (que eu considerava) sossegado poderia assustar tanto. Máquina de lavar, vizinhos entrando e saindo do elevador, televisão, ventilador — tudo é uma ameaça em um primeiro contato do filhote. Com o tempo, foi acostumando (ainda não com o ventilador, não vejo a hora #ProjetoVerão), e até a construção acontecendo na esquina passou a ser algo interessante de se observar de longe, ao invés do medo que causava antes.

##A Palavra Dita É Fundamental na Confiança

Li isso em algum lugar naquela madrugada antes dele chegar, sobre como seria importante que eu usasse as palavras certas repetidas vezes para que ele fosse me entendendo cada vez mais e aprendesse a confiar em mim. Um amigo que veio conhecê-lo no último fim de semana comentou que gostou muito de ver “a comunicação entre vocês”, e isso foi algo que eu mesmo notei. Ele não aprendeu ainda os comandos básicos de “vir” e “sentar” (e como fazem falta!), mas sabe muito bem o que é passear, esperar, comer, cenoura, maçã e conhece cada um dos brinquedos por nome — inclusive, o comando de “pegar” tal brinquedo e “dar” (quando ele traz até mim e solta o que está na boca) já foram domados pelo filhote! Outra coisa bem legal que aconteceu nesse sentido foi no dia que ele chegou — na verdade, uma hora depois de ser apresentado à casa nova -, quando levei ele à feira e uma garota e sua mãe vieram conversar e disseram que tinham oito cães adotados. Em certo momento, a filha olhou nos meus olhos e, com o dedo em riste, disse: “E você precisa conversar com ele, tá? Conversa sim, conversa sempre, que uma hora ele te entende”. E isso me lembra o próximo item.

##Muita Gente Ama Cachorros

A grande maioria das pessoas na rua, na verdade. É muito comum a gente passear e alguém passar e dar um sorriso olhando para ele na coleira, e tão comum quanto uma pessoa parar e querer brincar com meu Boizinho. Nessa, já fizemos alguns amigos pelo bairro. O pessoal da empresa do lado de casa conhece nós dois por nome, uma moça que encontramos toda semana foi quem nos recomendou o veterinário e já ficamos amigos de vários outros donos de cachorros, com seus respectivos filhos, aqui pelo bairro.

##Um Elogio do Veterinário Conta Muito

Tive cães a vida inteira, praticamente, mas essa é a primeira vez que cuido sozinho de um. Daí, ir até o tal veterinário que a amiga indicou e ele ter coisas muito positivas para nos dizer é um baita motivo de orgulho — melhor ainda, é um grande tranquilizador. Ele está bem, ele está forte, crescendo, “é muito bonzinho” e “vai ser seu companheiro por muito tempo ainda”. Só sorrisos.

##Como É Importante Um Nome Legal

“Boi” faz muito sucesso: É irreverente, de fonética amigável, fácil de falar e difícil de esquecer. Melhor ainda é o quanto ele dá liberdade pros amigos criarem todos os apelidos possíveis: Bovino, Bebê-zerro, Vitela, Churrasco, Pit Boi, Boi Magia, Boi-nitão etc. Ele mesmo aprendeu super rápido que esse era seu nome, questão de três ou quatro dias. Curiosamente, as pessoas de mais idade são as mais críticas em relação a isso. Uma senhora para quem entregamos sorrisos toda semana, quando ela passeia com a enfermeira na pracinha de manhãzinha, sempre me pergunta “mas por que Boi, hein?” com cara de desaprovação, e uma vizinha se recusa a chamá-lo assim, tendo escolhido Touro como apelido.

##Minha Casa Nunca Mais Não Terá Cheiro de Cachorro

Fazer o quê, né? ¯\_(ツ)_/¯

##Faz Muito Bem Ter Alguém para Cuidar

Não é uma questão nem de responsabilidade, nem de estar à vontade com um compromisso desses, é pela naturalidade do que significa cuidar e ser cuidado. Morando sozinho há tanto tempo, foi bom poder parar de pensar em um para falar “nós”. De comprar cenouras e maçãs a mais, de planejar a agenda para ter tempo de estar em casa perto da hora que ele precisa comer e dar um jeito de, mesmo doente, sair no frio porque ele precisa caminhar (aconteceu já).

##A Adoção Foi Minha, Mas Foi Para Ele

É claro que eu prefiro vê-lo com o rabo abanando a perceber que ele está com medo. Se eu pudesse escolher, ele viria sempre que eu chamasse e estaria pronto pra brincar ou receber carinho, mas eu não posso mudar o passado dele — francamente, tenho pouquíssimo controle também sobre o futuro, só posso me dedicar a dar meu melhor, e o compromisso é esse. Eu sempre quis um daqueles vira-latinhas bem feínhos, mas Deus escolheu me mandar um todo bonito, e também todo cheio de particularidades. Se eu gosto ou não gosto delas, pouco importa, porque o amor tá aqui para cobrir tudo isso. E com prazer.