Homofobia Enraizada

(Não posso falar por todas as pessoas que passaram por isso, mas posso contar a minha história).

Eu cresci numa família católica, fiz catecismo, crisma e frequentei a igreja até por volta dos meus 14 anos. Cresci nesse instituto que diz que ser gay é errado e que você vai para o Inferno, simplesmente por ter nascido assim.

Mas eles não acreditam que você nasceu assim, eles acham que foi uma escolha, que por volta da idade que se entra na puberdade surgem duas portas, uma diz “hétero” e a outra “homossexual”. E com certeza você, com sua alma pecaminosa, escolheu a segunda. Chega a ser irônico que ninguém que é hétero acredita que precisou passar por essa escolha. (Dica: ninguém precisou).

Sendo assim, você cresce acreditando que seu eu é errado, que você esta completamente e eternamente condenado. Dentro de casa, as pessoas dizem coisas horríveis e sem sentido sobre aquilo que claramente não sabem, muito menos fazem questão de aprender algo sobre. Você é condenado o tempo todo por ser assim, mesmo que eles não saibam que estão te condenando. E você aprende a se condenar também, se recrimina o tempo todo, não podem surgir pensamentos que não condizem com o que alguém a 2000 anos pregou.

E dessa forma, com esse pensamento já pregado dentro do seu ser, você começa a frequentar a escola. E nesse local, onde existem pessoas que cresceram com várias religiões e crenças diferentes, você percebe que a homofobia atinge todo mundo, não esta atrelado somente a religião. Já é algo que esta concretado na sociedade. E obviamente você não conhece aquilo com o termo “homofobia”, parece ser na verdade algo natural, pois você também aprendeu a acreditar naquilo.

Você se sente diferente, gosta de coisas ditas de menina e se relaciona melhor com elas, os meninos não gostam de você ou parecem somente achar que você deve ser zoado. Por que alguém que é diferente só pode ser o “viadinho” ou o “esquisito”. É nesse momento que você toma consciência que é realmente diferente, não se encaixa naquela roda de meninos e você começa a achar que esta errado, que tem algo realmente quebrado dentro do seu ser e você precisa de alguma forma consertar.

E a vida sempre vai jogar ironias na sua cara. No caso, a escola que você estuda, apesar de ser católica, levou um grupo de pessoas para conversar com a turma sobre o desenvolvimento, sobre crescer. Um dos temas apresentados por eles foi a homossexualidade. Aquele grupo tenta demonstrar que é algo natural e que não tem nada de errado. Você começa a ganhar confiança, mas não quer que as outras pessoas descubram que esta se identificando com o tema. A ironia esta no fato de que seus colegas de sala, por volta de seus 12 anos, começam a discutir e argumentar como aquilo é errado, como um ser humano vai crescer gostando de pessoas do mesmo sexo? Chegam a fazer chacota, deixando os adultos sem graça e sem resposta. Aquelas risadas, você ainda consegue ouvi-las na sua cabeça. E você precisa sair dali, não quer continuar ouvindo como é errado ter esses sentimentos que estão dentro de você. Então fala pra um professor que esta passando mal, começa a chorar. Talvez isso faça as outras pessoas te acharem mais gay ainda, mas você não se importa, pois não precisa estar mais naquela conversa, que esta te consumindo.

Você sente por dentro que esta errado e que precisa se encaixar naquele grupo, e principalmente, não quer ir para o inferno. Nas suas orações diárias, pede a Deus que no dia seguinte acorde sendo uma pessoa “normal”, talvez as pessoas vão gostar de você assim. No entanto, não acontece, você continua a mesma pessoa.

Então você coloca na sua cabeça que se fingir ser hétero, aquilo se tornará verdade. Tenta se apaixonar por meninas, acredita que quando o beijo acontecer, magicamente você será transformado e será como se tudo tivesse sido criado na sua cabeça (Quase uma Princesa e o Sapo, mas da perspectiva do sapo). Só que você não beija ninguém, mantém amor platônico por algumas meninas, nada se concretiza. E por alguma razão desconhecida, você passa a se amar mais um pouco, aceita onde sua vida se encontra, que suas amizades são com meninas, que é o “esquisito” e não tenta se aproximar dos meninos.

Chega o colegial, escola diferente, pessoas diferentes, talvez mais maduras. Nada melhora, na verdade tudo vai por água abaixo. Todos os intervalos passam a ser sozinhos, você prefere ficar na sala e comer lá, do que ter que enfrentar as pessoas lá fora. Por isso, você continua sendo o estranho, ou como alguns dizem, uma pessoa “extraordinária” (não no sentido bom da palavra).

A espiral que vai se formando dentro do seu peito só aumenta, pois os professores são na sua maioria homens. E talvez por consequência, homofóbicos. As piadas saem da roda de alunos e passam para o plano dos professores. Eles não fazem piada da sua cara diretamente, riem dos gays em geral e um deles chega até a fazer uma versão escandalosa de como seria sua visão de um gay (todos riem. Como é engraçado!). Existe uma enquete de qual o professor mais gay da escola. Tudo isso como se fosse ruim. Todos tem opiniões de quem é o mais gay, eles parecem se orgulhar do posto em que foram colocados, e fazem mais piadas, mais gozação. Até os professores te acham estranho, um deles chega a dizer pra sala que se te apertassem demais, você diria que “gosta de um negão” (enxergo dois preconceitos aqui), e você se encolhe na cadeira.

Negue-se. Negue-se ao máximo. Você não tem valor para estar aqui no mundo, você precisa se transformar, precisa achar uma forma de encontrar a outra porta, precisa se reinventar. Então a pessoa introvertida que você é esta sempre mais e mais calada.

No cursinho, você, talvez por outra ironia da vida, fica num grupo de meninos, parece que eles gostam de você. Você gosta de estar com eles, finalmente aceito por aquilo que te renega e que ao mesmo tempo tanto almeja. Começa a falar de meninas, coisas que nem acredita, se sente incluído. Mas nem tudo são flores, um dos meninos é claramente gay, com uma voz mais fina, tem trejeitos, você gosta dele, acha uma pessoa engraçada e conversa com ele na aula. Até que um dos meninos do grupo chega em você e diz “para de dar moral para esse tipo de gente”. Você sabe que esta errado, mas para de falar com ele, começa a exclui-lo, por que você quer ser normal, quer estar naquele grupo de meninos. O buraco no seu coração fica cada vez maior.

A faculdade chega e você continua fingindo ser aquilo que não é. Na verdade as coisas não mudam, você ainda fica sozinho no primeiro ano, continua comendo na sala para não enfrentar as pessoas. No segundo ano faz amizade com as meninas, os meninos desconfiam de você. Dentro do seu peito tem uma urgência. Aquilo que você é precisa ser aceito por alguém, principalmente por você mesmo. Então surge uma coragem e você diz para si mesmo aquilo que é: G-A-Y. Uma libertação.

Agora você precisa abraçar aquilo, mesmo que implique em não contar para os outros. Descobre sites de relacionamento, conhece um cara legal, dá seu primeiro beijo, começa a se achar bonito, interessante, a vida vai finalmente se alinhando e entrando em você. O inferno deixa de dar medo. Se for para ficar eternamente queimando por aquilo que você é, vale pelo menos aproveitar enquanto pode.

Seus amigos te aceitam, sua família te aceita. Começa a namorar. As amizades começam a ficar mais reias e aquele medo que você tinha vai se dissipando. O sentimento de não pertencimento não existe mais. Você encontra sua tribo, encontra o amor, o amor próprio. Joga todas aquelas dúvidas e coisas ruins fora. Aquelas pessoas de cabeça pequena, você as deixa no passado.

Mas não deixa de pensar como seria sua vida se tivesse crescido em um lugar diferente, onde estaria tudo bem ser você mesmo, onde ninguém é descriminado por aquilo que é, onde a homofobia já não esta enraizada desde pequeno. Um lugar que você é muito mais do que a sua orientação sexual.

Não tem como saber, somente projetar essa sua visão para o futuro. E entender que hoje se encontra num meio com as pessoas que você escolheu estar, que te amam do jeito que você é, onde não existe o preconceito. E você espera que aquelas pessoas do passado aprendam a olhar para os outros. Você entende que talvez Deus não vá te condenar, o ódio esta nos homens.

A vida esta aí pra ser vivida, e certas raízes são na verdade parasitas, e aquelas portas não existem de verdade.