Pensar com imagens (Livro)

Após saborear as páginas do livro de Enric Jardí, experiente ilustrador espanhol situado em Barcelona, decidi escrever algumas linhas acerca de sua obra, intitulada “Pensar com imagens”, lançada ano passado (2014) no Brasil pela editora Gustavo Gili.

Figura 1

Jardí apresenta uma proposta instigante desde a capa do livro, a qual me chamou atenção por não se tratar de uma “capa”, propriamente dita. Em lugar disso, há apenas uma frase sobre fundo branco com a seguinte provocação:

“Este livro aborda como imagens podem ser usadas para expressar ideias. Antes de folheá-lo, faça o seguinte exercício: imagine como você representaria o mal de Alzheimer com uma imagem. Agora, pode virar a página.”

Me vi seduzido a adentrar no conteúdo do livro, que apresenta a seguinte imagem como resposta ao instigante desafio:

Figura 2

Sou levado a refletir sobre a capacidade de síntese que Enric se propôs a atingir. Como representar o esquecimento e as sérias decorrências a quem é acometido por seus sintomas? Para ilustrar esse cenário, o artista apresenta uma composição (Figura 2) na qual uma fotografia cujos rostos de familiares já não podem ser reconhecidos. A supressão sígnica de suas identidades foi produzida a partir de uma iconografia remetente às imagens não localizadas em um navegador, linguagem visual inteligível ao público familiarizado com a informática. Arquivos não encontrados. Uma sincera e relevante representação sobre o tema.

A partir desse ponto, o autor coloca uma série de outros trabalhos de sua autoria, nos quais ele buscou traduzir conceitos editoriais — em sua maioria, ligados à economia e questões sociais —por meio de composições gráficas cujos elementos se articulam com as percepções e interpretações dos sujeitos que com elas interagem. Por isso, Jardí coloca que “a intenção desse livro não é descrever aquilo que se vê, mas sim como funciona o que se vê”.

Dessa maneira, a dinâmica do livro segue um ritmo no qual, ao fim de cada página, é lançado um desafio para o leitor imaginar como representaria determinada situação ou fato. Assim, formula-se na mente de quem lê uma espécie de briefing da então desconhecida composição gráfica da página seguinte, onde finalmente é confrontada a ideia que se imaginava com aquela que foi proposta graficamente por ele para representar o tema.

Figura 3

Na figura 3, por exemplo, o autor denunciava a degradação do estado de bem-estar social ocasionada pelas pressões dos mercados financeiros.

O rodateto da página esquerda indica o assunto chave que é abordado na análise da composição gráfica, como: linguagem visual, composição, somas de elementos, conotação, metáfora, signos, tipos de signo, cores etc.

Figura 4: visão geral do layout ao longo do livro

O fluxo do conteúdo do livro mantém as ilustrações na página esquerda, espelhada pelas análises, na página direita. Nesta, o autor eventualmente adiciona notas complementares nas laterais, ora aprofundando determinados termos do design gráfico e da semiótica, ora dissecando fatos relacionados ao contexto cultural das ilustrações.

Figura 5

A proposta didática de Jardí é diluir os fundamentos teóricos da composição gráfica ao longo das explicações sobre cada ilustração apresentada. Desse modo, no folhear das páginas, o leitor pode relacionar mais facilmente um conceito semiótico a determinada função exercida por um elemento gráfico na ilustração, associando-o aos diversos exemplos analisados. Na imagem ao lado, Jardí ilustra as previsões econômicas para o ano seguinte após uma retrospectiva pessimista do ano vigente, explicando o sentido conotativo presente na linguagem visual adotada.

Além de bastante didático, o livro é recheado de conteúdos que podem embasar obras gráficas das mais diversas, indo além das ilustrações, como projetos editoriais, logotipos, iconografias, dentre outros. Leitura mais que recomendada para designers e outros profissionais de criação.


Jardí, Enric.(2014). Pensar com imagens. Tradução de Priscila Farias. 1 ed. São Paulo: Gustavo Gili. 125 p.

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